OPINIÃO

'Caderno Azul'

Por Guilherme Saraiva Grava |
| Tempo de leitura: 4 min

Homenagem pelo Dia dos Professores a Deolinda Simplicio

Faz tempo que saí do colégio, muito mesmo. Faz tanto tempo que, hoje, anos e anos depois, praticamente não existem mais registros arqueológicos daquela época. Dos livros guardei até que um bom número, principalmente os do ensino médio. Dos boletins e relatórios acadêmicos o essencial foi devidamente arquivado. Mas dos cadernos… destes não sobrou nada: todos foram descartados por aí. Na verdade, quase todos. Sobrou um. Um do qual nunca pude me desfazer.

Não que exista qualquer coisa digna de nota nesta pequena relíquia: é um caderno de português, azul, bem surradinho, da terceira série do fundamental (e, quem diria, já estou naquela fase da vida de dizer "hoje nem se fala mais em terceira série do fundamental").

O conteúdo do pequeno guerreiro é, como tudo o que ainda existe daquela época, motivo de torturante vergonha para o seu proprietário - só tem garranchos, desenhos ruins, frases sem sentido, enfim, o sumo da ingenuidade de uma criaturinha besta de uns nove anos, quase dez.

Se for olhar bem, não tem sentido nenhum guardar o maldito, porque todo o contato com aquele passado é uma lástima. É difícil a gente aceitar que um dia foi uma criança boba. Eu fui, admito - o caderno azul é a prova. Sabe por que não foi destruído? Foi por causa dela.

A Deolinda era um trator de professora, puxava a gente mesmo, os pobres galés. A escola é um fardo na vida de todos - sempre foi e sempre vai ser assim na história da humanidade. Mas era difícil ver alguém que não gostasse da Deô, que mesmo na dura vida do colégio não encontrasse um afago acolhedor naquele sorriso que ela tinha (e, certamente, ainda tem!). Era muito querida.

Mas, para mim, o especial da Deô era o fato de que ela chamava a atenção da gente por causa do brilho dos olhos - não pelos decibéis. Como ela se encantava com tudo o que dizia! Nas aulas dela, o mundo era um brinquedo a ser explorado - e eu era um explorador de carteirinha. Araraquara...

Justiça seja feita: no meu caso, tive a sorte de ter muitos professores assim como a Deolinda, não é mentira. Só que, hoje, mesmo com todos eles na memória, quero me lembrar dela em particular. Afinal, foi ela que me fez guardar até aqui o meu caderno azul de português.

Tínhamos, alguns dias antes, estudado um texto do Drummond. Foi o meu primeiro contato com este querido amigo - e que contato! Difícil para uma criança daquela idade. No trecho lido, o Drummond contava a história do "nascimento" de um escritor, acontecido numa salinha de aula odiosa em uma pequena escola de Turmalinas.

No seu dia zero, o gauche-narrador veio ao mundo em plena aula de geografia, deslumbrado pelos nomes de lugares distantes, registrados por uma D. Emerenciana, em um singelo quadro-negro. A parteira do poeta foi uma professora do terceiro ano.

Estudar essa passagem foi uma experiência linda, sem dúvida foi uma reflexão interessante. Mas o destino da lição não poderia ser outro - era para ser um texto intrigante a ser guardado num canto obscuro qualquer da cabeça nas "gavetas dos textos intrigantes, porém esquecidos". Coisas da vida. Era para ser - só que, neste caso, foi diferente: o texto, em vez de perdido, enraizou-se na minha memória. Naquela primeira semana de agosto do longínquo ano 2000, a Deolinda, tomando meu caderninho azul mirrado nas mãos, deixou assim registrado um recado: "Lembre-se que Carlos Drummond de Andrade começou a 'ser' escritor em uma sala de aula, na terceira série. Reflita sobre isso. Deô".

Que generosidade uma professora escrever algo assim em um caderno de uma criança de nove anos. Posso garantir: não há nada de especial no caderno. Nada mesmo. Nem uma linhazinha cretina que se salve! Como poderia? Naquela época eu não tinha nem mesmo maturidade o suficiente para entender o recado deixado pela Deô.

Só consegui reunir discernimento o suficiente para receber aquilo como algo extraordinário: imediatamente guardei a mensagem na cabeça e o caderno azul, no fim do ano, foi parar em uma caixa separada de todos os outros. Por fora, ninguém notou a diferença. Eu mesmo não percebi. Mas o recado foi minha certidão: nasci Leão de agosto.

O tempo passou. Hoje a escola se tornou um retrato dolorido na parede. Nessa altura do campeonato, passado dos trinta, já rodei em torno do sol o suficiente para que os realistas possam me chamar de "meio velho" sem hesitar.

Muita coisa aconteceu entre o céu e a terra nestas mais de duas décadas desde aquela semana de agosto de 2000. Mesmo assim, ainda sou uma criança boba, escrevendo garranchos, e pensando na Deô.

Professor é isso: é quem faz a escola da gente caber em três linhas de um caderninho azul. É quem faz a gente nascer no terceiro ano, ouvindo uma história sobre a fábrica da Lupo em Araraquara.

Quantos nascimentos vêm assim, de professores queridos da gente. Professor de verdade é o princípio de tudo, a centelha de todo o resto - que é travessia.

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