Nós, brasileiros, iremos as urnas novamente em 30 de outubro próximo para como se fossemos avalistas, aprovássemos um crédito moral a alguém que quer assumir um compromisso assaz contumaz e de quitação deverás duvidosa. Sim, mas quando se é avalista, importante ressaltar, somos corresponsáveis a arcarmos com o compromisso (em caso de calote) sob pena de sofrermos dissabores futuros.
O período eleitoral está aguerrido e muito intenso, cada vez mais regado de atitudes emocionais com campanhas polarizadas, restando divisões jamais pretendidas, como enfrentamentos familiares, com amigos e com as comunidades de uma maneira mais ampla ao não compartilhar os mesmos critérios de veracidade, considerando que a intransigência é (seria) uma virtude.
Onde está a política de renovação com foco em reformas estruturais, políticas públicas eficazes, diálogo político e modernidade administrativa?
Assunto que permeia horizonte pouco avistado pela ótica rotineira dos eleitores, escancara o âmago dos envolvimentos em relacionamentos interpessoais, nutre a realidade que neste interim reside a essência da saúde mental. Já pensaram que os corpos não têm o poder de se comunicar?
É a mente que o faz e possibilita quaisquer elos ou não, existe uma confusão quando se outorga a coexistência humana ao corpo, a comunicação é da mente. Há, atualmente, uma inversão de valores absurda, como se diz no popular, "é o capim comendo a vaca".
Extraímos da Política de Aristóteles que "o homem é, por natureza, um animal político", portanto, se enxergava parte da essência do ser humano como um ser pensante, capaz de uma comunicação aprimorada (a fala) e um ser dependente da vida em comunidade na pólis grega. E aqui empresto os ensinamentos do prof. dr. Ernesto Pilotto Gomes de Medeiros, docente que fui sucessor na FOB-USP com muito orgulho, que bradava aos quatro cantos "não podemos ser simplesmente fazentes, temos que ser pensantes".
O perigo que aflora ao teclar sim na urna eletrônica permeia ao étimo comum de nós brasileiros conviventes uns aos outros que rogamos seja exitosa nossas escolhas, haja vista que são necessárias algumas criações humanas, como as leis e os costumes. Os costumes são, grosso modo, a própria moral.
O ser humano é, então, um animal capaz de criar uma moral com a finalidade de possibilitar a vida em sociedade?
Uma sucessão de atos, adjetivados como costume, formam uma conduta moral, ou seja, ditam normas a partir de valores morais. Apontamos o dedo para o óleo fervente sem medo de consequências, mas quando inserimos o dedo na fervura, pronto, o racional se difere do irracional, pois saberá o resultado de seu agir.
A sociedade chamada Brasil, tem um conjunto de valores que especificam e diferenciam o que é bom do que é ruim, o que é o bem e o que é o mal, aquilo que é melhor do que é pior, o que pode e não pode ser feito etc. Isso significa dizer que os valores morais são uma espécie de "código de conduta" que dita como cada eleitor deve agir no interior da urna daquela sociedade para integrar-se e adequar-se a ela.
Reflitamos, ao confirmar o voto, cada votante, assina uma conduta composta pelos valores morais, por ser construído e consolidado no interior de cada sociedade, é variável, sendo impossível encontrar sociedades completamente distintas com valores morais absolutamente iguais. E agora?
Sócrates foi o primeiro pensador a trazer para o trabalho filosófico a reflexão de assuntos estritamente humanos, portanto, introduziu a reflexão moral na filosofia. Seu discípulo, Platão, estudando mais sobre o assunto, cautelosamente, para que sua filosofia moral não confrontasse a sua teoria do conhecimento, apregoou que os valores morais são conceitos racionais eternos e imutáveis. Essa ideia exige a noção de que há um conceito de bem - o bem em si - um conceito de mal - o mal em si - e ideias racionais que caracterizam de modo inexorável qualquer noção de valor moral possível.
Vivemos a superficialidade, o desapego ao outro, sendo que os critérios para discernir a verdade encontram-se confusos na suposta 'Sociedade da Transparência'. Então podemos questionar se escolhe ou encolhe perante tanta falta da chamada ética, responsável por ordenar atos, qualificar e estabelecer as diferenças entre as morais, organizando-as em um sistema racional que diferencia o que deve do que não deve ser feito em uma pólis para que a vida em comunidade prossiga sem transtornos. Mas encontramos o amoral no meio do trajeto eleitoral. Ser uma moral que subjuga o ser humano como ser natural, castra sua força e sua capacidade de criação e nega a sua própria vida.
Portanto, como um consenso entre os dias que temos até elegermos o Presidente do Brasil e o Governador de São Paulo, vamos repensar sobre a tal maneira de como conhecemos vida em comunidade. Pois o risco é assumirmos a chamada responsabilidade do avalista que vai pagar a conta de um país sem moralidade e, cairmos na barbárie.
Fato posto, cada qual, busque os melhores e mais adequados valores para o funcionamento social, sem deixar de respeitar a individualidade e os direitos dos seres que compartilham a vida conjunta em nossa Pátria. Vivenciar amigos, familiares e a comunidade é racional.
Sucesso!
O autor é professor Livre Docente da USP aposentado, associado 3, mestre e doutor