Essa semana, estupefato, vi as reportagens sobre duas meninas (sim, meninas com não mais que 25 anos) que jogaram sopa de tomate no quadro "Girassóis" de Van Gogh. O fato ocorreu na Galeria Nacional de Londres, Inglaterra, e foi assumido pelo grupo 'Just Stop Oil', que clama por nossa maior responsabilidade em proteger nosso planeta do que a arte. Bem, é aqui que devemos refletir pelo ato em si. Primeiro, foi realizado por pessoas extremamente jovens e, se o grupo não for uma estrutura manipulada por pessoas mais experientes, o que não é difícil, demonstra a total apatia do jovem da atualidade com a realidade.
A arte, em si, não deve ser separada de algo integrante ao nosso planeta. Afinal, ela faz parte do desenvolvimento de nossa civilização e está diretamente vinculada a um dos alicerces da sociedade que é a tradição. Para se ter um vislumbre de sua importância, sem a tradição, jamais os conceitos de ruptura moral e choque anárquico os quais as meninas quiseram trazer jogando um pote de sopa no quadro, seriam entendidos. Na verdade, o ser humano tem o péssimo ato de desvincular suas ações com os processos ditos naturais do planeta. Agora chegamos no segundo ponto de reflexão que é: o narcisismo coletivo desse grupo de pessoas também não pode ser considerado arte? Desde Duchamp, com seu famoso "Urinol", a arte não é mais a procura da contemplação, do belo ou da verdade.
A arte é apenas aquilo que tenta chocar desconfortavelmente quem a vê. É o puro reflexo de nossa sociedade moderna a pós-moderna que relativiza a tradição como desnecessária em detrimento ao coletivismo de ações sem finalidade senão o choque e desconforto. As duas meninas posando para as fotos após seu vândalo ato revolucionário com o quadro lambrecado ao fundo escancaram sua visão moderna de arte. De qualquer forma, a pintura saiu ilesa do ataque; a civilização deverá sobreviver por mais alguns anos.
O autor é professor livre-docente - Unesp