Cultura

Adeus a um protagonista da imprensa


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Iara Morselli/estadão Conteúdo
Alberto Dines em junho de 2012 ao autografar um de seus livros em SP: inquieto desde sempre

O jornalista Alberto Dines morreu nesta terça-feira (22) aos 86 anos. Ele estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Segundo a esposa Norma Couri, foi levado ao hospital há dez dias, em decorrência de uma gripe que evoluiu para pneumonia, e faleceu devido a problemas respiratórios.

Jornalista desde 1952, Alberto Dines dirigiu a Redação do "Jornal do Brasil" em um de seus períodos mais inovadores e criativos, de 1962 a 1973.

Em 1975, quando foi dirigir a sucursal da "Folha de S.Paulo" no Rio de Janeiro, lançou a coluna "Jornal dos Jornais", considerada precursora na crítica sistemática dos meios de comunicação no país.

Foi, de certa forma, um pioneiro na função de ombudsman, atuando como crítico da mídia brasileira. Em 1996, lançou o Observatório da Imprensa, um dos frutos do Projor - Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, também criado por Dines com o apoio da Unicamp.

FOMENTADOR

Nas últimas duas décadas, Dines dedicou-se a fomentar o jornalismo com as atividades no Observatório e no Projor, onde coordenou projetos de capacitação, treinamento e promoção de boas práticas da profissão.

Com sua atuação no Projor, proporcionou capacitação em técnicas de redação, de acesso ao mercado publicitário, em gestão financeira e administrativa e em tecnologia a veículos de menor porte.

Além do site do Observatório, Dines apresentou um programa semanal do veículo nas emissoras públicas TV Cultura, TVE e na TV Brasil, que a sucedeu, de 1996 a 2015.

Como jornalista, trabalhou nas revistas "Manchete", "Cena Muda" (nesta, como crítico de cinema"), "Visão" e "Fatos e Fotos", bem como nos jornais "Última Hora", "Tribuna da Imprensa", "Diário da Noite", "Jornal do Brasil" e "Folha de S.Paulo", além do semanário "O Pasquim".

Trabalhou ainda no Grupo Abril, como secretário editorial. Na "Folha de S.Paulo", além da passagem na Sucursal do Rio na década de 1970, atuou também como colunista nos anos 90.

Como docente, deu aula de jornalismo na PUC-RJ e foi professor visitante na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

Dines chegou a ser preso em 1968 após o AI-5, por ter feito um discurso como paraninfo de uma turma da PUC-RJ, criticando a censura. Ele deixa quatro filhos, de seu primeiro casamento, com Ester Rosali, sobrinha do empresário de mídia Adolfo Bloch fundador da revista e da rede de televisão Manchete, ambas extintas. Casou-se uma segunda vez com a jornalista Norma Couri.

Foi autor de 15 livros

Alberto Dines lançou 15 livros, entre ficção, reportagem e técnicas jornalísticas. Ganhou o prêmio Jabuti em 1993 por "Vínculos de Fogo", na categoria Estudos Literários (Ensaios).

Suas demais obras são "Vinte Histórias Curtas", "Os Idos de Março e a Queda de Abril", "O Mundo Depois de Kennedy", "Jornalismo Sensacionalista", "Comunicação e Jornalismo", "Posso?", "O Papel do Jornal", "E Por Que Não Eu?", "A Imprensa em Debate", "Morte no Paraíso - A Tragédia de Stefan Zweig", "O Baú de Abravanel", "20 Textos que Fizeram História", "As Transformações da Revolução Global e o Brasil" e "Diários Completos do Capitão Dreyfuss".

Autoridades se manifestam

O presidente Michel Temer lamentou a morte de Alberto Dines por meio de mensagem publicada em sua conta no Twitter. "O jornalismo brasileiro perde um dos pilares da ética e do profissionalismo".

O governador de São Paulo, Márcio França, também divulgou nota: "Foi um brilhante jornalista, que nos mais de 60 anos de carreira dirigiu e lançou alguns dos principais títulos de comunicação impressa do País. Dines também compartilhou seu talento em sala de aula, quando lecionou em escolas de jornalismo no Brasil e nos Estados Unidos".

'Brilhante e inconformista'

Presidente do Projor - Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, Angela Pimenta disse estar "muito entristecida" com o falecimento de Dines, com quem conviveu nos últimos três anos e a quem define como "brilhante, visionário, inconformista, cheio de projetos, extremamente curioso, apaixonado pelo jornalismo e pela defesa da liberdade de expressão".

Nota de pesar Falecimento do jornalista Alberto Dines

A Associação Paulista de Jornais (APJ) lamenta profundamente a morte do jornalista Alberto Dines, ocorrida nesta data na capital paulista. O mestre Dines, como toda uma geração o reverenciou, é com certeza uma referência do jornalismo brasileiro, pela sua grandiosa contribuição ao papel da crítica na imprensa e mídia.

Um dos profissionais mais respeitados do jornalismo brasileiro, Dines iniciou carreira em 1952. Nos anos 1960, foi responsável por liderar inovações de conteúdo e forma com conceitos que foram assimilados mais tarde pela imprensa brasileira de modo geral. Dinâmico e combativo, enfrentou a censura e, mais recentemente, fez do Observatório de Imprensa a sua trincheira de reflexão sobre os fatos mais marcantes do jornalismo brasileiro.

Com muita capacidade de análise, com seu crivo aguçado, sempre soube dosar os princípios éticos dos colegas editores e repórteres com o interesse dos leitores. Seu legado, neste momento da vida do país, embasa os pressupostos de uma imprensa livre e pluralista indispensável ao vigor democrático.

São Paulo, 22 de maio de 2018

Associação Paulista de Jornais

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