Ciências

Amor de pele e sangue pode existir! Por Alberto Consolaro


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Música e poesia com frequência usam a expressão "amor de pele" e "pacto de sangue" para traduzirem um sentimento mais profundo. É o amor que não mede limites, não resiste à razão e visão calculista da conveniência. Joga-se tudo para o ar e viva a vida!

Em aulas e conferências sobre temas relacionados, com frequência sou induzido a discorrer sobre a possibilidade de clonar animais e pessoas a partir de uma célula qualquer. Desde a época da ovelha Dolly em 1997 quando projeto genoma humano estava em moda eu dizia que era possível, que se havia tecnologia e conhecimento para isto, mas as restrições éticas, religiosas, sociais e políticas ainda eram grandes.

Não se havia formas de controle e as pesquisas eram proibidas pelos riscos que se corria como a busca desenfreada de exércitos de clones humanos!

Tudo iniciou a partir de 1970 com a clonagem de sapos e a certeza de que todas as nossas células contem exatamente todas as informações necessárias para se formar o corpo inteiro! Estas informações também são conhecidas como genes e estão escritas em fitas ou folhas de DNA. Cada folha escrita se chama cromossomo e temos 46 delas em cada uma de nossas células.

Bom humor e inteligência são sinônimos e inseparáveis! Quando começou esta discussão na ciência, o chargista Laerte cravou a cena da figura na qual se perde uma célula em um ambiente qualquer. Descamamos milhares de células da pele por dia, ou a deixamos grudadas nas canetas, computadores, celulares e guardanapos. Ou deixamos células no batom, cigarros, saliva, lágrimas e em nossos lençóis! Ainda temos no sabonete, esponjas, escovas e cabelos.

Sim: a partir de uma única célula podemos clonar a pessoa. Todas as células têm todos genes ou informações necessárias para formar outra igual ao seu portador. Os genes são 25 mil informações escritas em folhas que juntas são chamadas de Manual do Proprietário. Para diferenciar dos eletrodomésticos e carros, chamamos este manual de Genoma Humano. Simples assim!

CLONE NÃO!

Clone é cópia fiel, incluindo os 25 mil genes. Com humanos isto é possível, sem que chamemos o fato de ficção científica. Ser fiel não significa ser leal! Parece claro que os fatores ambientais, psicológicos e a formação de vida do indivíduo clonado não será exatamente igual ao do ser da matriz do clone, mas pode-se dizer que tem os mesmos genes.

Agora caminhamos para pegarmos uma célula da pele ou do sangue e a partir dela, transformarmos até que ela chegue ao estágio de um óvulo ou de um espermatozoide! Para as pessoas inférteis, que corresponde a 10% da população de ambos os gêneros, isto representará uma solução.

Um óvulo derivado da célula da pele de uma mulher pode ser fecundado pelo espermatozoide do amor de sua vida no laboratório. Uma vez fecundado, o embrião pode ser gerado no útero. O contrário também poderá ser feito: um espermatozoide pode ser derivado da célula da pele ou do sangue de um homem que irá fertilizar in vitro o óvulo de sua amada. Literalmente a criança gerada pode, uma vez adulta, vangloriar-se que é resultado de um amor de pele ou gerada a partir de um pacto de sangue entre dois seres humanos apaixonados!

Esta possibilidade já foi obtida a partir de pele e sangue de ratos em uma série de pesquisas lideradas pelo pesquisador japonês Katsuhiko Hayashi da Universidade Kyushu e publicadas em conceituadas revistas, incluindo-se a "Nature". Agora os testes serão com primatas. A criança derivada de óvulo obtido de células da pele será o resultado da mistura de 25 mil genes da mãe com os 25 mil do pai, tal qual ocorre em uma fecundação natural. A criança gerada terá um perfil indivualizado com características herdados de ambos progenitores.

CUIDADO!

Mas, há pessoas que se amam tanto que irão tentar fecundar um óvulo derivado de sua pele com espermatozoide derivado de si mesmo, sendo mãe e pai ao mesmo tempo ou uniprogenitor. Neste caso é mais fácil e simples que se faça um clone a partir de suas células! Estas pessoas seriam aquelas que "se acham" tão importantes que nem poderiam brincar de "esconde-esconde" com outras porque elas mesmo se acham e acabam com a brincadeira! Você conhece alguém assim?

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC. 

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