O presidente da Petrobras, Pedro Parente, tem notória experiência em desorganizar setores econômicos. Basta lembrar o seu papel como integrante do governo Fernando Henrique Cardoso, quando ficou conhecido como "Ministro do Apagão". Por falta de planejamento, de investimentos na geração de distribuição de energia, fatores aliados a poucas chuvas, o sistema elétrico entrou em pane. Os blackouts frequentes assustaram os brasileiros em 2001 e 2002. O apagão causou prejuízo de mais de R$ 45 bilhões. Segundo Delfim Neto, a negligência custou R$ 320 a cada um de nós.
Para quem o conhecia, não surpreendeu a nova crise provocada por Pedro Parente, na ânsia de atender aos interesses do mercado. O objetivo de maximização dos lucros da Petrobras, sem nenhum compromisso estratégico, deu nessa greve dos caminhoneiros. A Petrobras perdeu R$ 50 bilhões do seu valor de mercado em três dias, com a queda das ações. O boicote nos transportes prejudicou do mercadinho da esquina à aviação comercial e os hospitais, que tiveram que adiar cirurgias. Defuntos foram levados a pé porque os carros da funerária não tinham combustível.
Seria injusto eleger uma pessoa como bode expiatório. Parente apenas contrariou as lições mais elementares da história do pensamento econômico. Desde A Riqueza das Nações (1778), de Adam Smith, sabe-se que a metáfora da "mão invisível" do mercado não pode ultrapassar a capacidade de compra do consumidor final. Índices de liquidez, de capacidade contributiva e de aquisição, têm limites a serem respeitados, sob pena de provocar revolta.
As falhas são de um sistema muito mais complexo. Apenas criticamos a falta de habilidade do dirigente que veio a se somar a uma porção de erros cometidos no passado recente. Os escândalos de corrupção abalaram a confiança da sociedade na estatal e abriram caminho para essa estratégia implantada pela atual diretoria, como se fosse única opção legítima. O custo de produção do barril de petróleo na área do pré-sal está em US$ 10 o barril, enquanto a cotação no mercado internacional gira na casa dos US$ 80. O Brasil exporta um bilhão de barris de petróleo por ano, o equivalente a cerca de R$ 250 bilhões. E importa gasolina e óleo diesel. Cada vez que uma refinaria é construída, o custo final é tão alto que todo o lucro possível ao longo da sua vida útil, não paga o investimento. O governo lulopetista de Dilma Rousseff represou a necessidade de reajuste nos preços dos combustíveis. Isso, para escamotear a inflação e servir de plataforma eleitoral à sua reeleição. A estratégia abriu um rombo de R$ 40 bilhões nas finanças da estatal. Junto com os efeitos da corrupção, via superfaturamento em projetos de investimentos, a Petrobras, se fosse privada, estaria em busca da sua recuperação judicial, para evitar a falência.
Com dependência excessiva do transporte rodoviário, o país é refém de grupos e corporações que atuam no setor. Não é a primeira vez que acontece, mas agora a situação ameaça ultrapassar limites perigosos. Os caminhoneiros surpreenderam o governo num momento de fraqueza política. Há indícios de que empresários atuam nos bastidores para se beneficiar da redução do preço do diesel, a ser bancada pelo contribuinte. O Tesouro já acumula déficit de R$ 150 bilhões. E num ano eleitoral, não surpreende que haja interesses políticos que tentem se aproveitar do movimento.
O pedido de trégua do governo veio acompanhado de corte de 10% no preço do diesel, por trinta dias; eliminação da Cide sobre os combustíveis, e coisas mais. Existe ainda o enorme peso do ICMS cobrado pelos Estados. As alíquotas giram em torno de 30%. Somados ao imposto federal, no caso da gasolina, a carga fica próxima de 45%. Para se abstrair da realidade tarifaria, diante de tão alta carga tributária, o governo terá que ressarcir à Petrobras os prejuízos dos subsídios. A conta que era dos caminhoneiros, passa para toda a sociedade. Ninguém sabe de quanto será. Fala-se em R$ 14 bilhões. O que não se pode é impedir a modernização da Petrobras, com a venda dos seus ativos, com o objetivo de se capitalizar e investir no pré-sal, por exemplo. A Petrobras não precisa de postos de serviços. Foi criada para produzir petróleo.
O importante agora é desobstruir as estradas. Já existem liminares da Justiça Federal e do próprio STF, com imposições de multas. As Forças Armadas foram mobilizadas. A melhor alternativa, para o bem de todos, é a aceitação e cumprimento do acordo proposto pelo governo.
O autor é jornalista e articulista do JC.