Geral

Distribuidoras são liberadas e polícia vê 'ação humana' em descarrilamento em Bauru

Marcus Liborio, Tisa Moraes e Márcia Duran
| Tempo de leitura: 13 min

Fotos: Douglas Reis
Polícia Civil foi acionada após descarrilamento e confirmou ato de vandalismo

Interditadas desde domingo (27), as distribuidoras de combustíveis de Bauru foram desbloqueadas nessa terça-feira (29) após a Polícia Civil constatar, no local, a prática de crime de constrangimento ilegal e orientar os manifestantes sobre as possíveis punições. Um inquérito policial foi instaurado para investigar a conduta do grupo bauruense de apoio à greve dos caminhoneiros, que chega hoje ao décimo dia gerando diversos impactos à população. 

Descarrilhamento de Trem no Guadajara

Esta terça (29) também foi marcada pelo descarrilamento de uma locomotiva com dez vagões cheios de combustível, cujo produto seria entregue às três empresas que abastecem os postos da cidade. Equipe da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) confirmou ato de vandalismo depois de constatar a remoção de vários parafusos usados na junção dos trilhos. Os vagões-tanques não chegaram a tombar e não houve derramamento de combustíveis.

O Ministério Público Federal (MPF) em Bauru, inclusive, iniciou levantamento em campo para avaliar possíveis providências a serem tomadas em relação ao descarrilamento e a Polícia Federal instaurou dois inquéritos para investigar os reflexos da greve.

DESBLOQUEIO

As três distribuidoras de combustíveis de Bauru foram bloqueadas no domingo, quando passaram a ser liberados somente caminhões para atender serviços essenciais. Embora a gasolina e o diesel cheguem até o município por meio da malha ferroviária, os caminhões que transportam os produtos permaneciam estacionados no pátio por conta do protesto.

Delegado seccional de Bauru, Ricardo Martines disse que representantes de caminhoneiros e das distribuidoras informaram que não faziam o transporte de combustível por conta de ameaças, justamente em área de segurança nacional. "Com base nestas informações, enviamos duas equipes com policiais civis até o local para checarem a situação".

Segundo Martines, constatou-se, em duas empresas, a prática de crime de constrangimento ilegal. "Na prática, significa constranger os motoristas a não saírem com os caminhões sob ameaça de violência física e material", relata, complementando que a Polícia Civil identificou o grupo e instaurou um inquérito policial para investigar o caso.

Após a orientação, as distribuidoras foram desbloqueadas e os caminhões cheios, escoltados por viaturas da PM e do Policiamento Rodoviário, passaram a distribuir os combustíveis.

VEREADOR

"Vamos apurar, ainda, se houve prejuízo econômico, o que configura crime contra a economia popular", ressalta o delegado, destacando que o vereador Ricardo Cabelo (PPS) foi identificado como um dos líderes do movimento nas distribuidoras. "Portanto, ao final das investigações, o inquérito será enviado ao Ministério Público e também à Câmara Municipal, que deve avaliar se houve algum tipo de decoro parlamentar".

Cabelo disse que, até o início da noite de ontem, não havia sido notificado sobre o inquérito. Ele também nega ter liderado o movimento que bloqueou as distribuidoras. "Não fui líder de nada, pois em uma manifestação popular não existe líder. Antes de estar como vereador, sempre fui motorista de caminhão. Fui junto na manifestação dar o meu apoio, porque trata-se de uma briga de todos os brasileiros". 

VANDALISMO

O descarrilamento da locomotiva ocorreu na altura do Jardim Guadalajara. A composição, com dez vagões, transportava cerca de 650 mil litros de óleo diesel para as distribuidoras de Bauru e foi abastecida na Refinaria de Paulínea, região de Campinas. O acidente não deixou feridos e os vagões não chegaram a tombar e nem derramaram combustível, o que poderia causar um grande dano ambiental e até mesmo um incêndio.

Delegado da DIG, Marcelo Firmino confirmou ao JC que ocorreu um ato de vandalismo. "Houve intervenção humana. Vários parafusos que fazem a junção dos trilhos foram retirados", frisa, destacando a realização de perícia técnica no local. "Registramos um boletim de ocorrência e o caso será investigado".

O acidente ocorre em meio ao desabastecimento de combustíveis na cidade, o que reforça as suspeitas de crime. Em nota, a concessionária Rumo, que administra a linha férrea, informou apenas que a locomotiva descarrilou durante uma manobra de recuo no pátio de triagem de Bauru. Os trilhos foram consertados e a composição, liberada para seguir até as distribuidoras por volta das 15h30 dessa terça-feira (29).

'Nós não ameaçamos ninguém ali'

O autônomo Alexandre Corradine fazia parte do grupo de manifestantes que bloqueou as distribuidoras. Ele nega que houve ameaças e faz criticas à falta de apoio da população.

"Respeito a Polícia Civil, mas não ameaçamos ninguém. Ficamos ali para tentar impedir a entrada e saída de caminhões, exceto os de serviços essenciais. O bauruense não é solidário ao movimento. Dá a impressão que a cidade não está interessada em melhorias", desabafa.

OAB analisa casos

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Bauru terá uma reunião hoje à tarde, na Comissão de Fiscalização das Atividades do Poder Público, para apurar se houve alguma irregularidade de agentes públicos da cidade na greve.

O presidente da Comissão, Conrado Segalla, destaca que, se for constatada alguma violação, pode ser enquadrado como crime ou quebra de decoro, com os respectivos casos sendo encaminhados para a Polícia Federal (PF) ou ao órgão público responsável. Ele diz, contudo, que apenas depois do encontro de hoje é que a OAB poderá se posicionar de maneira mais contundente.

Apurações federais

Os reflexos da greve dos caminhoneiros já mobilizam o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal (PF), em Bauru. O último órgão instaurou dois inquéritos. Sigilosos, eles contam com diligências em andamento, "para apurar envolvimento de empresários no movimento e possíveis abusos praticados por parte dos manifestantes", informou a chefe da Delegacia da PF local, Karen Cristina Dunder.

Os procuradores da república Pedro de Oliveira Machado e Fábio Bianconcini Freitas iniciaram levantamento de campo e coleta de informações para apurar as causas do descarrilamento da locomotiva com dez vagões carregados com combustíveis. "Posteriormente, iremos avaliar se caberá outras intervenções de competência da Justiça Federal", declara Machado.

Previsão é regularizar a oferta nos postos em até três dias

Divulgação
Caminhão-tanque com viatura da PM ao lado em posto de combustíveis na Nações Unidas

Com o início da saída dos caminhões das três distribuidoras de combustíveis de Bauru, o abastecimento de gasolina e diesel em boa parte dos postos voltou a ser normalizado na cidade, na tarde e noite dessa terça-feira (29). Mas, segundo o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sincopetro) de Bauru, com o desbloqueio das rodovias, a oferta só deverá ser plenamente regularizada dentro de dois a três dias.

Isso porque, ao contrário dos combustíveis derivados de petróleo, que chegam a Bauru por trens que saem diretamente dos terminais da Refinaria de Paulínia (Replan), o etanol é entregue por caminhões vindos de outros distribuidores e que dependem da livre circulação das estradas paulistas.

"Hoje (nessa terça-29), eu fui de Bauru a São Paulo e não vi mais nenhum bloqueio de caminhões. Todas as reivindicações da categoria foram atendidas pelo governo e a tendência é em dois ou três dias, considerando que a demanda por combustível ainda vai ser alta por este clima de apreensão da população, o abastecimento esteja normalizado", analisa o presidente do Sincopetro, José Antônio Reghine.

Em nota, o Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (Daesp) reiterou que o Aeroporto Moussa Tobias (Bauru-Arealva), segue sem o combustível necessário para abastecer as aeronaves que pousam e decolam do terminal.

A Federação Única dos Petroleiros (FUP) garantiu que a falta de gasolina e diesel nos postos de combustíveis do País não será agravada com o início da paralisação da categoria, por 72 horas, a partir de hoje. De acordo com a entidade, a greve será realizada somente como instrumento de advertência à Petrobras, já que os estoques de todas as refinarias seguem altos, com condições de suprir o mercado de forma tranquila durante o período de paralisação. 

Veja abaixo mais fotos e vídeo:

Douglas Reis  
 
Trilhos já foram consertados e composição liberada para seguir até distribuidoras às 15h30 

Douglas Reis 
 
Funcionários da empresa Rumo, que administra o trecho, estão no local para fazer reparos  

Veja o vídeo da 96 FM

Supermercados têm falta de perecíveis e projetam normalização após 20 dias

Hortifrutigranjeiros, carnes e laticínios estão entre os produtos com baixo estoque nos estabelecimentos, que recorreram a produtores da região

Aceituno Jr.
Fernando diz que itens como batata, cenoura e banana estão entre os mais difíceis de repor

Frutas, legumes, verduras, carnes, frios, laticínios, pães congelados e industrializados estão entre os produtos cada vez mais escassos nas gôndolas dos supermercados da região, devido à greve dos caminhoneiros, que afeta o abastecimento em todo o País. Por serem perecíveis, estes gêneros alimentícios são estocados em menor quantidade pelos estabelecimentos e, após nove dias de mobilização nas estradas, se tornaram os mais difíceis de serem repostos para atender à demanda dos clientes.

Segundo a Associação Paulista de Supermercados (Apas), estes itens representam, de forma geral, cerca de 36% do faturamento dos estabelecimentos. Com o desbloqueio das rodovias, ontem, o setor estima que serão necessários aproximadamente 20 dias para normalizar o abastecimento, especialmente de carnes, cujo processo produtivo é mais demorado.

Proprietário de uma rede supermercadista de Bauru, Fernando Cabrera Fernandes conta que, em média, a reposição dos produtos hortifrutigranjeiros estava, até ontem, entre 70% a 80% abaixo do normal. O pouco que ainda é oferecido nas gôndolas vinha sendo adquirido de produtores menores e mais próximos, da própria região de Bauru.

"Mas todo mundo está recorrendo a eles, então, o pouco que vem some rapidinho. Sinceramente, espero que, desta vez, a greve acabe de verdade", cita, elencando que, entre os itens mais difíceis de encontrar durante a mobilização, estão a batata, cenoura, banana, entre outros.

COMÉRCIO

Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) em Bauru, conforme o JC divulgou, o movimento de clientes já havia caído em 80% no início da semana. Nessa terça-feira (29), a Apas informou que enviou ofício ao governo do Estado de São Paulo para solicitar a adoção de medidas que liberassem as cargas de alimentos, cargas vivas e de produtos refrigerados nas estradas que ainda seguiam bloqueadas pelos grevistas.

Já no comércio central, segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru, não houve registro formal de desabastecimento. Mas o presidente da entidade, Odair Secco Cristovan, não descartava, nessa terça-feira (29), esta possibilidade.

"O impacto depende muito de cada loja e do tipo de produto comercializado. Quem trabalha com linha de inverno, por exemplo, compra antes e já chegou. Se atrasar, é um pedido ou outro. O impacto, até o momento, não é tão grande", comenta.

Remédios na rede municipal

A Secretaria Municipal de Saúde informou que, devido à dificuldade de entrega de insumos para a rede de urgência e emergência, alguns itens podem faltar nos próximos dias, caso os caminhões dos fornecedores não consiguam chegar a tempo em Bauru. Entre os gêneros alimentícios, há a possibilidade de faltar pão francês, que será substituído por pão de leite.

Entre os medicamentos, o pedido de furosemida (diurético) não chegou e poderá faltar a partir da semana que vem. Já o gás de cozinha pode acabar se os estoques não forem repostos entre os dias 2 e 3 de junho.

Ainda de acordo com a pasta, o caminhão que entregaria lençóis de cama será substituído por um veículo utilitário ou de passeio, que virá hoje de Avaré. A situação do abastecimento de insumos na atenção básica será informada hoje.

Forno a lenha em restaurante

Os botijões de gás continuam em falta em Bauru. Há, contudo, quem tenha encontrado um meio para driblar a escassez do produto na cidade. "Estamos viabilizando uma estrutura de forno a lenha para não paralisar as atividades", declara o proprietário de um restaurante no Higienópolis, Carlos Augusto Madureira.

Ele conta que o gás acabou na sexta-feira passada. "Só não fechei as portas porque consegui um botijão emprestado. Entretanto, com a continuidade da greve dos caminhoneiros, até o final de semana a gente fica desabastecido. Por isso, já estamos nos preparando. Na hora da crise, é preciso improvisar", finaliza.

Dono de uma distribuidora de gás em Bauru, que preferiu não se identificar, reitera que não há mais estoque de botijões no município. "Por enquanto, não tem previsão de quando a situação será normalizada", frisa.

Greve ainda compromete aulas em universidades hoje

Apesar do fim do bloqueio das rodovias no País, diversas instituições de Ensino Superior em Bauru seguirão com atividades comprometidas hoje. A FOB/USP mantém, nesta quarta, suspensas as aulas práticas e teóricas de seus cursos de graduação nas áreas de Medicina, Odontologia e Fonoaudiologia. Com isso, também seguem interrompidos os atendimentos nas clínicas de Fonoaudiologia e Odontologia que contam com a atuação dos alunos de graduação.

Outras instituições, como Anhanguera, Iesb e ITE de Bauru e Botucatu também seguem sem aulas nesta quarta. A Unip anunciou que não terá atividades até sábado. Já a FIB continua com a suspensão apenas das provas e entrega de trabalhos, mas não marcará falta aos alunos que não puderem comparecer.

Assim como ontem, a USC manterá normalmente as atividades hoje. Em nota, a universidade informou que os alunos que precisarem faltar poderão protocolar, na Central de Atendimento, uma solicitação de compensação de ausência, com comprovação documental, que será analisada e, posteriormente, respondida.

"A USC solicita que os seus estudantes consultem o Portal do Aluno, uma vez que cada professor irá abastecer a plataforma com informações pertinentes às provas para que todos os alunos, de Bauru e de outras cidades, possam realizar a avaliação e não sejam prejudicados".

FALA CONSUMIDOR

Você vem tomando medidas de precaução em razão da greve??

Fotos: Malavolta Jr.
"Não estou me precavendo. Meu carro, por exemplo, está com meio tanque. Vou ver se ainda passo para abastecer, mas é só em relação à gasolina mesmo. Com outros produtos, não estou estocando nada. Acho foi só um susto, não vai precisar." Marcelo Yoshio Harada, 51 anos, químico

"Sinceramente, não. Eu não me preparei, está quase chegando no finalzinho a minha gasolina. Só vou procurar um posto quando entrar na reserva. Então, eu creio que vai melhorar a greve. Mas, em relação a outros produtos, não tive nenhuma percepção." Eliane Santos Silva, 48 anos, professora

"Já abasteci, completei para garantir. Mas só isso mesmo. Agora, no mercado, senti que tem bastante desfalque, faltando algumas coisas na prateleira, mas ainda não me afetou nesse sentido. Mas, em relação ao combustível, com certeza." Giedry Botero, 29 anos, bancária

"Senti que, nos restaurantes onde almoço todos os dias, já não terá comida na próxima semana. Gasolina, eu tenho para ir e voltar do serviço durante uma semana. Fora isso, não vou ter mais. Mas não tenho opção, se acabar, acabou." Flávio Canedo de Lima, 37 anos, programador

"Não alterou em nada a minha rotina. Eu só abasteci o carro, mas não sei como ficará para os próximos dias. Lá em Piratininga, onde eu moro, os postos já não estão mais abastecendo. Mas não tem muito o que fazer, não vamos estocar gasolina." Jocelaine Ribeiro, 46 anos, gerente de organização escolar

"Pra mim, por enquanto, a greve ainda não impactou em nada. Não estou me precavendo e nem senti esses impactos. Eu moro próximo de onde eu trabalho, então, acho que, por conta disso, ainda não senti muito no meu dia a dia." José Luiz Gomes, 54 anos, analista de sistemas

"Não, acho desnecessário porque logo a greve acaba e as pessoas estão sendo muito oportunistas com os preços de alimentos, botijão de gás. Na verdade, estou me fazendo de indiferente. Se a luta é para abaixarem os preços, como se paga R$ 5,00 no litro de gasolina?" Eliane Torres, 37 anos, cabeleireira

"Não me preocupei ainda. Tenho viagem marcada e tenho que esperar e ver o que vai acontecer para me programar. Queria jogar fora os políticos corruptos e que eles devolvessem tudo que eles estão roubando para que nós não passássemos por essa situação." Antônio Santana, 62 anos, médico

Veja também:

Comentários

Comentários