A Petrobras perdeu R$ 137 bilhões do seu valor de mercado, nos últimos 11 dias, com a queda das suas ações na Bolsa do Brasil e de Nova York. Num só dia, com a saída de Pedro Parente, a perda foi de R$ 40 bilhões. Tudo porque a Petrobras não quis negociar o preço do óleo diesel, ignorando inúmeros sinais de estresse financeiro de um dos seus melhores clientes, os caminhoneiros. Eles são responsáveis por 70% do consumo. Na estratégia de gestão de Parente, os clientes não têm importância se a empresa está agindo de modo eficiente, protegendo os interesses de seus acionistas. Muita gente que entende de economia, chora a saída de Pedro Parente. Aumentar os combustíveis 229 vezes em dois anos foi razoável, dizem os especialistas. É o deus mercado, pelo mercado. Agora, os investidores micam com a desvalorização espetacular das suas ações. Micamos nós, porque o Brasil é o maior acionista.
E não termina aí a tragédia brasileira. O governo dá um tiro no pé ao cortar gastos para subsidiar o diesel. A tesoura atingirá o orçamento de áreas como a saúde, educação, saneamento e habitação popular. Os cortes estão detalhados em 36 páginas do Diário Oficial. Serão afetados os hospitais universitários, a Farmácia Popular e o Mais Médicos, vitrines da gestão petista. O SUS, há anos não reajusta as tabelas de procedimentos médicos da rede hospitalar. Qualquer corte agora é impossível. Para o governo, sempre dá para tirar alguma coisa.
Na Educação, os alvos serão os estudantes pobres que recebem bolsas no ensino superior. Programas de segurança alimentar, de obras contra as secas, serão simplesmente eliminados. O Bolsa Família pode sofrer cortes. Até o Criança Feliz, um dos poucos programas sociais lançados na área Temer, sofrerá cortes de quase R$ 4 milhões. A marca foi associada à primeira-dama, mas não reduziu a impopularidade presidencial. Em suma, o governo decidiu tirar do social para não mexer na política de preços da Petrobras. Faz transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos. E não consegue sequer agradar os caminhoneiros, que ameaçam parar novamente - pelo menos é o que se espalha nas redes sociais. Os números também mostram que o Planalto ignorou outras lições da crise. Para cobrir o subsídio do diesel, serão cortados mais de R$ 8 milhões em investimentos no transporte ferroviário e aquaviário. Essas verbas ajudariam a reduzir nossa dependência das rodovias - e o risco de um novo colapso quando os caminhoneiros voltarem a parar. Os cientistas da área mostram que o mundo moderno, hoje, subsidia sim, mas o desenvolvimento do transporte alternativo. Nos Estados Unidos, a rede Wal-Mart já se utiliza de caminhões aerodinâmicos, mais leves, construídos com fibra de carbono e movidos à eletricidade.
Temer abre novos planos de insatisfação à sua gestão, com a política do "Tudo pelo diesel a 46 centavos mais barato". Perdeu os anéis e os dedos. Como é que vai obrigar os donos dos postos de combustíveis a dar descontos, se os preços são livres? Outra pergunta: como a Petrobras não viu o colapso que se avizinhava? O colunista José Casado conta que oito avisos foram dados pelos caminhoneiros e transportadoras ao governo, desde outubro de 2014. Só não viu quem não quis. E a Petrobras, que é governo, ficou cega e surda diante da agonia de seus clientes. Qualquer outra empresa negociaria o quanto fosse necessário para evitar perda desse tamanho.
A Petrobras vinha bem, no seu projeto de recuperação. Passou do prejuízo para o superávit no último trimestre. Mas, não perceber que a coisa ficaria feia, foi fatal. Parente pode ser um gênio como ganhador de dinheiro. Gestão, é outra coisa. Implica em visão de futuro. Pelo menos do futuro próximo. Acordos prévios evitariam que a situação de penúria dos clientes chegasse ao ponto de ebulição. Um acerto de preços era recomendável até mesmo como forma de manter os clientes vivos, e consumindo. Perdeu a Petrobras, o Brasil parou e os prejuízos são astronômicos.
Explica o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, que a conta sairá do Tesouro Nacional. O dinheiro que paga as contas do governo não é do Tesouro, é seu, é meu. Ele apenas é guardado pelo Tesouro para, teoricamente, ser aplicado na melhoria das condições de vida de todos os contribuintes.
O autor é jornalista e articulista do JC.