Por enquanto, a 118 dias da eleição de outubro, metade dos eleitores brasileiros que é anti-Lula só tem uma coisa a fazer: continuar a ser anti-Lula. Porque, candidato para apoiar, não tem nenhum. "Está aí, despontando nas pesquisas o Jair Bolsonaro" - diria alguém condenando o meu ceticismo. Concordo que ele cresceu nas sondagens de intenções de votos, justamente por representar o diferente, o autoritário, a esperança de que seja capaz de pôr ordem num país sem rumo. Dizem que Donald Trump pode ser considerado "normal", colocado ao lado de Bolsonaro. A diferença é que não teremos Kim Jon-un para com ele trocar insultos. O presidente norte-coreano nem iria se preocupar em sustentar um bate-boca com um reles representante de um país sem foguetes. Em termos locais, Bolsonaro não tem projeto econômico. Seu discurso é medieval nos costumes. Durante a paralisação dos caminhoneiros ele se escondeu. Como pré-candidato quer passar a imagem do Bolsonaro-bonzinho. Copia a figura do Lulinha-ternura que deu certo no passado. Pelo que eu entendo, Jair Bolsonaro não reúne qualificações para conquistar o centro, o grande eleitor do país.
Quem sobra? Ciro Gomes quer ser herdeiro do legado de Lula. De pavio curto, não deve ir muito longe. Fernando Haddad é uma mala sem alça. Joaquim Barbosa foi candidato sem nunca ter sido. Luciano Huk, ganhava intensidade, mas apertado pelos patrões a decidir de uma vez, preferiu ficar com a Globo. Desistiu, depois desistiu de desistir e, finalmente, desistiu de desistir de desistir. Michel Temer, coitado, com uma rejeição popular histórica, nada conseguiu mesmo com a decisão populista de pôr o Exército nas ruas do Rio. Deu ordens às forças federais para "agir com rigor" e acabar com as interdições das estradas. O Exército preferiu um acordo amigável. O presidente, sequer consegue um cafezinho frio, quando despacha no Planalto.
Temos ainda Geraldo Alckmin, o candidato oficial do PSDB. Henrique Meirelles, lançado por Temer; e o Rodrigo Maia, na eterna espera de uma bola espirrada. Nenhum deles decola nas pesquisas. Marina Silva, a mulher da selva, de cara sofrida, foi ministra do PT e vem subindo, devagarinho. Está mais para a versão feminina do Lula do que para anti-Lula. Os candidatos da legítima esquerda, apenas marcam posição. Entretanto, metade do Brasil apoia a candidatura de Lula. Todos são contra a corrupção, mas o Lula é caso à parte. Ele lidera nas sondagens eleitorais, tanto para o primeiro como para o segundo turno, e em qualquer configuração. Sua candidatura seria impossível, pela lei da ficha limpa. A esperança seria um pedido de habeas-corpus cair nas mãos do Gilmar Mendes. Os humildes ainda acreditam no mito. Esperam a volta desse novo D. Sebastião, o rei português que sumiu na batalha de Alcacer-Kibir (1578), e até hoje é esperado para redimir os pobres. Os mercados é que estão agitados, tensos, nervosos porque não há sequer um antagonista de carne e osso capaz de enfrentar um ex-pau-de-arara nordestino, mesmo na cadeia. Os investidores ficam nervosos porque nenhum dos candidatos tem perfil reformista. E ainda há quem pregue a volta da ditadura. O PT cresceu na contestação do regime militar. Pena que falte ao próprio PT alguém para carregar a velha bandeira.
Resumindo o vazio político nacional: os pró-Lula não têm candidato e sequer um rosto de carne e osso para chamar de antagonista. A metade anti-Lula, da mesma forma. É desesperador. Um jornalista português, mandado ao Brasil com a missão de analisar a situação político-eleitoral na antiga colônia, sugeriu "bonecas insufláveis" como candidatas. Esse cruel observador da nossa realidade deve ter se inspirado no Pixuleco. Com 13 metros de altura, representa Lula vestido de presidiário. Foi mandado confeccionar em 2015, nas manifestações contra Dilma e o ex-presidente. O PT já declarou guerra a esse boneco. O rival inflável do lulismo já foi esfaqueado 40 vezes e atacado com uma bomba caseira ao longo da sua mediática existência.
De outra volta, os criadores do Pixuleco lutam em um tribunal pelos direitos autorais, contra as falsificações. Planejam versões de pelúcia. Estão aperfeiçoando um que diz "tríplex", sempre que apertado. Pobre pais órfão de lideranças. Os tidos como prováveis protagonistas estão a cada dia mais enterrados em suspeitas de corrupção. O jornalista lusitano até que não estava tão delirante na sua verve, quando sugeriu o Pixuleco para presidente. Só falta mesmo registrá-lo no Tribunal Superior Eleitoral. Resolveria o dilema de muito eleitor.