Tribuna do Leitor

Transformar e não apenas renovar

Eduardo Coube de Carvalho - administrador e estudante de direito
| Tempo de leitura: 4 min

Nos últimos anos, os governos têm sido desafiados a entregar mais, melhor e por menos. A pressão nos orçamentos públicos chegam na mesma proporção que demandas por melhorias em saúde, educação, segurança e infraestrutura. Ocorre que a administração pública tem deixado um legado de descontentamento e expectativas frustradas, ano após ano, seja em âmbito federal, estadual ou municipal. Neste cenário, não faltam sugestões de reformas na estrutura pública, independentemente da filosofia partidária.

É unânime que precisa haver mudanças, mas será que as melhorias necessárias virão apenas por meio de reformas estruturais? A expectativa é que não. Será necessária uma transformação pública, em outras palavras, uma profunda mudança no modo como os governos funcionam, melhorando efetivamente a prestação de serviços públicos ao cidadão.

Em recente artigo publicado no mês passado, o Centro para Governo da consultoria McKinsey divulgou dados de um estudo feito em conjunto com mais de 2900 servidores públicos em 18 países, incluindo o Brasil. No artigo, não faltam alertas quanto à pressão nos gastos públicos mundo afora, e ao mesmo tempo uma forte e complexa demanda por melhores condições de vida da população.

Esse duplo desafio, porém, não surgiu do nada. A primeira das razões é a profunda alteração demográfica, onde cada vez mais pessoas se aposentam e ao mesmo tempo jovens não conseguem o primeiro emprego.

Além disso, o alto nível de desigualdade social e a necessidade de adaptação das cidades às novas realidades urbanas vêm fazendo crescer o descontentamento da população com os governos, que pouco oferecem de concreto em termos de melhoria da eficiência pública.

Em busca de entender como estão sendo conduzidas essas mudanças na administração pública, o estudo em questão examinou os mais relevantes esforços de transformação nos 18 países pesquisados. A constatação foi decepcionante. Apenas 20% dos projetos de transformação pública tiveram seus objetivos alcançados. Essa é uma taxa de sucesso muito baixa, e representa uma oportunidade desperdiçada em dar à sociedade melhores serviços e um uso eficiente do já escasso orçamento público.

Para ajudar a melhorar esse índice, e entender os motivos do sucesso nas transformações governamentais que tiveram seus resultados reconhecidos pela população, os responsáveis pelo estudo usaram evidências da pesquisa e listaram os 5 principais pilares de sucesso.

1) Liderança comprometida: Os líderes das transformações empreendem grande esforço na proposta de mudança. Assumem riscos e se voluntariam a serem modelos de mudanças de paradigmas, usando de sua credibilidade pessoal e política para alcançar objetivos públicos. Não utilizam de decisões radicais, como alterações de leis, para remover barreiras à transformação, sem antes gastar bom tempo em público ouvindo e inspirando as pessoas afetadas. Esse foi o comprometimento sustentável demonstrado sistematicamente por prefeitos em Medellín (Colômbia) e Detroit (EUA) que recuperaram as cidades da profunda crise econômica e social que cada uma, por motivos específicos, se encontrava.

2) Prioridades bem definidas: É importante restringir os objetivos desde o começo, listando metas claras e capazes de serem medidas conforme o andamento do projeto de transformação. Produzindo uma "foto" clara de onde se quer chegar, fica muito mais fácil conseguir o apoio e a dedicação da população e dos servidores públicos que conduzirão a mudança.

Em uma transformação governamental, menos é mais. 3) Planejamento e rápida ação: aqui se busca evitar a formulação de um plano perfeito. Na verdade, a busca por um planejamento complexo e demorado irá causar uma paralisia. Ao contrário, o planejamento deve ser tratado como uma prova de curta duração, com entregas e objetivos de curto prazo. A empolgação e motivação envolvidas no inicio de um processo de transformação devem ser usadas como armas contra os gargalos da burocracia estatal.

4) Comunicação efetiva: Inspirar as pessoas através de uma comunicação de via dupla, ouvindo tanto quanto falando, em um esforço olho no olho com os envolvidos. A credibilidade só virá com uma comunicação efetiva que chegue de maneira clara e direta à população. Aqui, entretanto, importante dizer, não se trata de ter a expectativa de satisfazer a todas as opiniões, o que na verdade criaria distrações fatais ao processo.

5) Capacitação para a mudança: Investir em capacitação para além da equipe de líderes e diretores é essencial para que se tenha uma transformação sustentável. Treinar os envolvidos e ao mesmo tempo trazer profissionais capacitados, disseminando o conhecimento em áreas antes frágeis.

Portanto, além de não bastar apenas uma reforma da estrutura pública, os desafios de hoje exigem uma transformação ampla da forma como os governos funcionam. Transformação essa do funcionamento da máquina pública, amparada em lideranças comprometidas, objetivos bem traçados e sociedade engajada por resultados reais e duradouros.

Entretanto, lidar com a escassez cada vez maior de orçamento, e ao mesmo tempo buscar oferecer melhores serviços de saúde, educação, segurança e infraestrutura parece ser uma tarefa pouco atraente aos velhos padrões de governantes. Logo, a transformação começa pelo voto.

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