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| Márcio ABC lança quinto romance hoje em Bauru |
Castelo, velho professor e psiquiatra, talvez seja o desatador dos nós de "Estado Bruto" - quinto romance que Márcio ABC lança hoje em Bauru. Ou, na condição de narrador dos episódios do passado, uma "testemunha ocular da história", como bradavam, ao som de trombetas, os locutores do "Repórter Esso" - noticiário de rádio e TV que marcou época até 1968. Aquele ano em que o mundo foi chacoalhado por um estado alterado de protestos e manifestos.
Para "Estado Bruto", contudo, o ano que não terminou é 1969. É justamente no dia em que o homem chega à Lua (20/7/69) que uma morte, compartilhada com o leitor por Castelo, definirá os rumos da obra. A vítima é a mulher de um capitão do Exército, Valmor, que confessa o crime.
Qual é a exata relação de Valmor com Castelo e demais personagens? Só lendo para saber que desfechos esse 1969 literário produzirá.
JC - Como pode resumir "Estado Bruto"?
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Márcio ABC - Acho que, sobretudo, é um livro que discute liberdades a partir de diferentes ângulos opressivos de nossa história recente. Tenho a impressão que o resultado da narrativa acaba prestando um tributo a uma honra que precisamos resgatar em nossas relações, o que me parece se encaixar bem neste momento tão delicado que estamos vivendo, em que a régua dos princípios e da ética tem metragem mínima. Os personagens, em suma, vivem ações e reflexões que se enquadram na constante busca por explicar o sentido de nossa própria existência. Não é um livro de história, é um romance alinhavado pelo amor, talvez em estado bruto.
JC - Valmor tem "amor" no nome. Ele confessará o assassinato da mulher. Que personagem é esse? E que amor é esse?
Márcio ABC - O capitão Valmor, na verdade, é o grande fio condutor do livro. Um cara cheio de dúvidas, embora persistente numa autoanálise que parece ser autodestrutiva, mas que no fundo é a tentativa de reconstruir a si mesmo. Sua postura intransigente em busca de uma honra que ele julga perdida em meio a uma sociedade fútil também o torna dono de um amor incondicional, no entanto imperfeito como são todos os amores. O formato um tanto introspectivo de seu amor funda na mulher que ele ama uma desesperada necessidade de lutar por liberdade, e em si próprio uma decisão fatídica que o condena ao abismo. É desse abismo que trata o livro.
JC - Torres Gêmeas, o 7 a 1... Datas históricas que chacoalham vidas comuns. Por que você escolheu a chegada do homem à Lua como dia do crime?
Márcio ABC - Há uma simbologia muito forte em torno da chegada do homem à Lua. O episódio aconteceu em meio às insanas disputas da Guerra Fria. Também tomavam corpo movimentos sociais, políticos e comportamentais que foram cruciais para a história recente. No Brasil, havia a repressão em um de seus períodos mais furiosos. A tal "conquista da Lua" foi ao mesmo tempo algo marcante e, se analisarmos bem, uma baboseira sem tamanho. Foi mesmo "um pequeno passo para um homem", como disse o Armstrong, mas não "um passo gigantesco para a humanidade", como ele também disse. Acho que a chegada do homem à Lua faz parte dessa reflexão de que trata o livro, que tudo em nossas vidas pode ser ao mesmo tempo tão importante quanto banal.
JC - Para um livro nascer, quantos ficam pelo caminho? E de que forma incluenciam os que se transformarão em obra?
Márcio ABC - Muitos ficam pelo caminho, ao menos no meu caso. Vejo um livro como um ser que tem vida própria. Foge do autor quando concluído, e dá umas escapadas durante o próprio processo de criação. Esse organismo, que está em permanente transformação, também pode, em vez de se desenvolver, atrofiar, morrer. Às vezes, começo a escrever algo e já visualizo um livro lá na frente, mas em pouco tempo tudo murcha. Ou o contrário, algo que surge despretensiosamente pode tomar corpo e crescer. Mas todos, os que vingam e os que morrem no caminho, passam a fazer parte do mundo de quem escreve. Não é possível ignorar um ser vivo que, mesmo por instantes, tenha vindo à tona.
JC - Que reflexões e sensações acredita que "Estado Bruto" é potencialmente mais "capaz" de despertar ao misturar angústia, volúpia, suspense e melancolia? Diria que o livro é mais carne ou mais alma?
Márcio ABC - Embora o livro tenha resultado, na minha humilde opinião, em algo quase obsceno, situado ali naquela fronteira delicada da transgressão em vários aspectos, incluindo o sexual, vejo a narrativa como uma história de almas incendiadas, por assim dizer. E, claro, almas incendiadas costumam queimar nos corpos.
JC - Você parece preservar uma distância criativa (ou propositalmente insegura) entre sua vida e suas obras - e aí estão cinco livros. É uma forma de se obrigar a ser mais criativo e menos autorreferente? Quanto há, afinal, de vida vivida na ficção?
Márcio ABC - Eu às vezes ouço, principalmente homens, dizerem que não gostam muito de ler romances, que preferem biografias ou livros que tratem de "coisas reais". Mas o que são os romances senão um conjunto de biografias? O romance sustenta nas costas a biografia do mundo. Não há ficção sem realidade. Quanto à distância da minha vida pessoal para meus livros, acho que tem a ver com a ideia do organismo vivo que é o livro. Não sei se tenho direito de ficar me metendo na vida dos outros, nesse caso na vida dele, do livro que me deixou para trás. Então, eu sigo a minha vida e ele segue a dele.
JC - Se "Estado Bruto" ganhar outros estados de existência, você consegue vê-lo mais como filme, peça ou série?
Márcio ABC - Acho que pode se encaixar nos três gêneros. Mas agora isso já é com ele.
O AUTOR
Nascido em Cafelândia, em 1964, tem trajetória ligada a Bauru e São Paulo - onde, hoje, o jornalista é coordenador de conteúdo da Blue PR (agência de relações públicas). Como escritor é autor de "Parabala", "Desrumo", "Pater", "Na Pele dos Meninos" e, agora, "Estado Bruto".
SERVIÇO
Lançamento de "Estado Bruto" (Ed. Epigrama / 254 pgs. / R$ 37,90), de Márcio ABC: 14/6, hoje, das 18h às 21h, na livraria Empório Cultural do Boulevard Shopping Bauru. Disponível também www.amazon.com.br

