Regional

Preservação da avifauna

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 12 min

Divulgação
Fazenda São Manuel, área experimental da Unesp onde foi realizado um dos estudos

O avanço humano sobre maciços florestais, em particular a eliminação da maior porção do cerrado no Interior paulista, amplia a importância pela manutenção e preservação de ocupações sustentáveis, mesmo em glebas, fazendas e sítios, ainda que essas frações estejam próximas do processo de urbanização. Aliás, uma vez que a deterioração florestal está concretizada, os estudos ratificam a viabilização da ocupação sustentável. O que especialistas reforçam é que a questão essencial é o olhar sobre o bioma, e não sobre áreas isoladas.      

Sem perder de vista a relevância pela garantia de áreas ainda "intocadas", em diferentes regiões, a conexão entre Planos Diretores e estudos de manejo com regulamentações bem definidas e programas permanentes de educação ambiental formam a "última fronteira" em favor de espécies, flora e o papel do cerrado como elemento essencial à recarga do aquífero, em especial o Guarani (que envolve a maior e mais importante reserva de água subterrânea do mundo cuja extensão alcança Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai).

Em nossa região, além dos estudos de manejo levantados em diversas cidades, inventários da avifauna surgem como ferramenta estratégica para a garantia de manutenção de espécies em extinção e do resgate de outras tantas ameaçadas.

As aves, o segundo maior grupo dentro dos vertebrados, contribuem de forma significativa como dispersores de sementes nas florestas tropicais e, então, nos programas de restauração florestal. Além disso, os inventários de avifauna fornecem elementos científicos da situação de cada porção do bioma, por serem também consideradas bioindicadoras da qualidade dos habitats ambientais.

É o que revelam estudos realizados no ano passado e neste ano em nível de graduação e mestrado em quatro áreas em Botucatu e Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) relativos a uma fazenda e sítio em São Manuel. Todos esses estudos integram o acervo da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Em todos, o elo fundamental é que as áreas do cerrado no Estado de São Paulo carecem de inventários de avifauna. A degradação da cobertura original no Interior, que já respondeu por 38% do bioma em todo o Estado somente ao redor de regiões como Bauru e Lins e hoje ocupa apenas 1%, levou a áreas muito fragmentadas.

Para o mestre em biologia vegetal, doutor em ecologia Osmar Cavassan, da Unesp-Bauru, é exatamente a ausência de estratégia de abordagem em torno do conceito de bioma, em confronto com a fragmentação de maciços, que põe em xeque a preservação do cerrado.

"Não adianta tratarmos a questão do cerrado em mapeamentos isolados, com fragmentos. Os zoneamentos têm de levar em conta o bioma em que esses planos de manejo estão inseridos, sob pena de não ter êxito o objetivo central de preservação. Considerar fragmentos, não resolve", abordou o professor, em recente encontro na sede da Fiesp, em Bauru, que discutiu plano de regularização do cerrado urbano em áreas com degradação consolidada.

Assim, os levantados realizados pela universidade na região oferecem dados e apontamentos que ratificam essa visão. É o que pode ser absorvido do levantamento inédito da avifauna na Fazenda Experimental São Manuel (FSM), situada no município de São Manuel-SP e pertencente à Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) e à Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp) - Câmpus de Botucatu.

Utilizando, sobretudo, o método de transecções (trilhas) e, em complemento, o de pontos de escuta ao longo de 9 meses de amostragem, o trabalho trouxe uma riqueza de 188 espécies (24 Ordens e 52 Famílias). Uma encontra-se quase ameaçada de extinção no mundo, três estão ameaçadas no Estado de São Paulo e cinco estão quase ameaçadas.

Também foi constatado que não há diferenças significativas na riqueza a abundância das espécies durante dois períodos sazonais. Isso evidencia a importância do "case" de FSM para a compreensão da preservação ambiental e implantação de projetos de educação ambiental nesses e em outros locais. Os trabalhos, a criação do Guia de Aves e os principais componentes do estudo estão nas páginas de 18 e 19 desta edição.

Fazenda São Manuel: 188 espécies

Quantidade de aves identificadas durante trabalho do biólogo João Salvador Boato surpreendeu; parte delas, porém, está ameaçada de extinção

Se as áreas de Cerrado paulista remanescentes carecem de inventário, o trabalho de conclusão de curso de graduação em Ciências Biológicas de João Pedro Salvador Boato, formado em 2017 pelo Instituto de Biociências da Unesp, câmpus de Rio Claro, traz alento sobre a possibilidade de uso sustentável. Ele fez o levantamento da composição da avifauna da Fazenda Experimental São Manuel, onde registrou a presença de 188 espécies distintas de aves na área, algumas quase e outras ameaçadas de extinção.

A riqueza da avifauna no local surpreendeu os pesquisadores e também os gestores da fazenda, administrada pela Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) e pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), unidades da Unesp sediadas em Botucatu. "Nos surpreendemos porque a Fazenda São Manuel está muito próxima da zona urbana e trata-se de uma área já bastante modificada pelo homem, onde há pastagens, construções e experimentos com culturas agrícolas", explica a professora Silvia Nishida, orientadora do trabalho juntamente com o professor Marco Aurélio Pizo Ferreira, da Unesp de Rio Claro.

Segundo a docente, o principal motivo para que as aves procurem a fazenda é a sua área de reserva. A área da FAC corresponde a 29 hectares, sendo 17,7 hectares com mata ripária. Já a Fazenda Veterinária conta com 246 hectares, sendo 125 de pastagens.

"Por conta da destruição ou fragmentação das paisagens naturais, as aves e outros animais silvestres vão procurando remanescentes de mata como o que existe na Fazenda São Manuel. O fato de o local ter muitas árvores frutíferas também ajuda a atrair as aves", apontam os professores.

O estudo traz que dentre as espécies ameaçadas no Estado de São Paulo encontradas na Fazenda estão a tesourinha-da-mata (Phibalura flavirostris), também quase ameaçada no mundo; a perdiz (Rhynchotus rufescens); a guaracava-de-topete-uniforme (Elaenia cristata) e o coleiro-do-brejo (Sporophila collaris).

Já entre as espécies registradas que estão quase ameaçadas estão a jacupemba (Penolope superciliaris), jacuguaçu (Penelope obscura), cabeça-seca (Mycteria americana), soldadinho (Antilophia galeata), e o papagaio (Amazona aestiva).

Embora não fosse o escopo da pesquisa, durante as observações também foram avistados mamíferos ameaçados, como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e a raposinha-do-campo (Lycalopex vetulus). "Esse resultado evidencia a importância da Fazenda São Manuel para a preservação ambiental local e mostra que a área tem um imenso potencial para a implantação de projetos de educação ambiental, até pelo seu grande apelo paisagístico", avalia a professora Silvia. "Seria um local ideal para realizar observações de aves com crianças e adolescentes".

O trabalho e os resultados

A professora Silvia Nishida salienta que a questão do Cerrado é grave. "Os principais remanescentes estão em propriedades privadas no Estado de São Paulo. Por isso, qualquer estudo acadêmico, política pública ou manejo deve ter o proprietário como aliado. Isso é fundamental. Por isso, queremos levar esse estudo para as propriedades rurais, porque é lá que precisamos cativar, conscientizar e ter como parceiro o principal ator dessa questão", aborda.

Ela menciona que a pesquisa do biólogo João Pedro Salvador utilizou principalmente o método de transecções lineares. Nele, o pesquisador percorre uma trilha padrão, enquanto registra visual ou auditivamente e faz a contagem dos indivíduos de cada espécie. "Também foram utilizados pontos de escuta, ou seja, locais predeterminados, para a contagem estacionária de espécies por meio da visualização e audição direta, registros fotográficos e uso da técnica de playback", explica a professora.

O trabalho foi feito ao longo de 9 meses, totalizando 75 horas de observação, divididas em diferentes períodos do dia e levou em consideração também as variações sazonais na avifauna da área. "Há as aves residentes, mas também há outras que são visitantes. Elas estão de passagem e utilizam os recursos da área", detalha a professora Sílvia. "A compilação dos dados gerais nos dá um retrato da riqueza e abundância de espécies na área, pois foi constatado que não há diferenças significativas na diversidade e na abundância das espécies durante diferentes períodos sazonais".

Silvia Nishida ressalta a importância do trabalho para que a riqueza da avifauna da Fazenda São Manuel seja protegida. "A apropriação do conhecimento sobre a avifauna auxiliará os gestores das Fazendas sobre a importância de um política e programa de conservação das espécies ameaçadas. A educação ambiental das pessoas que trabalham lá também pode contribuir nesse sentido", defende.

Outro ponto a ser destacado é o reflorestamento de alguns trechos com a utilização de espécies arbóreas frutíferas e nativas. Estas auxiliam a manter os animais naquela porção. "Além disso tudo, é importante que haja uma continuidade no monitoramento para que possamos saber se essas populações permanecem", pontua.

Conforme a professora, o trabalho de Salvador constituirá uma base para diversas ações futuras de educação ambiental. Os pesquisadores pretendem fazer uma exposição fotográfica com as aves da Fazenda São Manuel e, em julho próximo, haverá participação em oficina de observação de aves na Fazenda São Manuel para estudantes de ensino médio, em parceria com a Prefeitura de São Manuel.

A oficina faz parte das atividades de projeto de extensão universitária coordenado pela professora Renata Cristina Batista Fonseca, vice-supervisora das Fazendas pela FCA (informações abaixo). Jà o Guia das Aves de Botucatu e São Manuel, lançado na última quinta-feira, utilizará os dados do levantamento realizado por Salvador.

As unidades

A professora Renata Cristina Batista Fonseca ressaltou que com o trabalho de adequação ambiental das fazendas, atenção especial tem sido dada aos remanescentes de vegetação natural. "São árvores que, além de protegerem os corpos d'água, abrigam importantes exemplares da flora e da fauna regional. Vale lembrar que a água produzida na fazenda é utilizada para o abastecimento urbano da cidade de São Manuel", comenta.

A área de Supervisão das Fazendas da FCA busca estreitar relações entre a universidade e a comunidade de São Manuel em duas frentes de trabalho, como explica a professora. "Estamos planejando ações junto aos produtores rurais de São Manuel, com o apoio da Cati, da prefeitura, das associações locais de produtores, do sindicato rural e do Departamento de Horticultura da FCA, com previsão de dias de campo, visitas e orientações técnicas. Também vamos atuar na formação de monitores ambientais, com o apoio da Prefeitura e de docentes do IB e da FCA", diz.

Na primeira semana de julho, acontecerá o "Curso para a formação de Guias da Natureza", projeto liderado pela professora Maria de Lourdes Spazziani, do Departamento de Educação do IB e inserido no Programa Núcleos de Ensino, da Pro-Reitoria de Graduação da Unesp. "A intenção é valorizar as riquezas naturais da região e desenvolver estratégias de conservação da natureza por meio da educação ambiental", conclui a docente da FCA.

Ao tomar conhecimento do trabalho, o professor Ciniro Costa, supervisor das Fazendas de Ensino, Pesquisa e Extensão da FMVZ comentou: "Esse trabalho evidencia a sustentabilidade das atividades das pesquisas agropecuárias que vem sendo desenvolvidas na Fazenda Experimental de São Manuel, com suas características típicas do bioma cerrado. Ele mostra que é perfeitamente possível produzir de forma economicamente viável e socioculturalmente justa, respeitando a legislação relacionada às áreas de proteção ambiental". Sua colega na Vice-Supervisão das Fazendas, professora Cyntia Ludovico Martins, complementa: "Na Fazenda São Manuel, a área de bovinocultura de corte sempre considerou de suma importância a conservação das áreas de proteção ambiental como forma de manter, conservar e aumentar a biodiversidade local e preservar os recursos hídricos. Este trabalho, sem dúvida, demonstra o reflexo desta ação conjunta por todos que trabalham na Fazenda São Manuel."

O QUE É MATA RIPÁRIA?

Ela é subdividida em duas categorias: mata ciliar e mata de galeria. A mata ciliar é definida como a vegetação florestal que acompanha os rios de médio e grande porte na região do Cerrado, em que a vegetação arbórea não forma galerias.

Em geral, essa mata é relativamente estreita em ambas as margens, dificilmente ultrapassando 100 metros de largura em cada. É comum a largura em cada margem ser proporcional à do leito do rio, embora em áreas planas a largura possa ser maior.

Porém, a mata ciliar ocorre geralmente sobre terrenos acidentados, podendo haver uma transição nem sempre evidente para outras fisionomias florestais como a mata seca e o cerradão.

Guia para seduzir o urbano e o rural 

Os estudos de avifauna levaram ao lançamento do Guia de Aves na quinta-feira; pesquisadores querem difundir conteúdo para conscientizar moradores e proprietários da região

Um Guia de Aves de Botucatu e São Manuel foi lançado na última quinta-feira como parte das ações do trabalho que visa levar o olhar de preservação e de engajamento sobre moradores das zonas rural e urbana dos dois municípios. A ação integra um conjunto de estratégias que pretendem disseminar os conteúdos estudados e atrair o público-alvo para a preservação da avifauna encontrada.

O guia traz uma relação de aves de ambos os municípios, sendo que a lista de aves de Botucatu foi resultado de dois Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) em Ciências Biológicas do IBB-Unesp. Este estudo foi realizado na Fazenda Nossa Senhora de Lourdes.

O outro é uma dissertação de mestrado do programa Animais Selvagens da FMVZ-Unesp. Este foi realizado nas áreas denominadas Sítio São José, Parque Municipal Cachoeira da Marta e Instituto Floravida. É um guia colorido e ilustrado com 342 espécies (ver algumas nesta página).

Em Botucatu, no mesmo período das pesquisas dos demais participantes, entre 2016 e 2017), sob a orientação da professora Sílvia Nishida, foram concluídos quatro outros estudos sobre levantamentos avifaunísticos. Eles integram levantamentos na Fazenda Nossa Senhora de Lourdes (206 espécies), resultando em dois trabalhos de conclusão de curso em Ciências Biológicas, de autoria de Gustavo Toledo Bacchim e Lais Freitas Lopes.

Além disso, a pesquisa avançou sobre três áreas distintas: Instituto Floravida (160 espécies), Sitio São José (174 espécies) e Parque Natural Municipal Cachoeira da Marta (167 espécies). Este estudo resultou numa dissertação de mestrado em Animais Selvagens defendida por Daniel Pagnin em 2018.

"Reunindo dados do nosso Laboratório de Etologia, mais os dados de São Manuel e de outras fontes já publicadas lançamos o Guia de Aves: Botucatu e São Manuel. Este guia reúne 342 espécies, ou equivalente à 43,1% das espécies de aves registradas para o Estado de São Paulo. Destas, 27 espécies estão ameaçadas e 14 quase ameaçadas", observa a professora.

Além disso, outro trabalho está sendo conduzido nas Fazendas Experimentais da Unesp do Lageado e da Edgárdia, por Victor Antonelli com a orientação da professora Renata Cristina Fonseca, da Faculdade de Ciências Agronômicas.

Este Guia é ilustrado, em cores, lançado em parceria com a Secretaria Municipal do Verde de Botucatu no dia 21 de junho de 2018.

 

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