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A Copa das bizarrices

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A Copa do Mundo de Futebol é uma grande vitrina, com jogos assistidos por mais de 2 bilhões de pessoas na tevê, em todo o mundo. Quem entende um pouco de marketing sabe que é preciso aproveitar esse prato cheio, à satisfação de apetites pessoais. A visibilidade massificada pode render milhões em contratos publicitários. O sucesso deveria ligar-se, diretamente, ao bom desempenho do atleta no gramado. Mas os goleadores são raros em um campeonato cada vez mais parelho.

A partir daí podemos entender melhor o sentido do penteado exótico do Neymar, na estreia do Brasil, lá na Rússia. Cabeça raspada nas laterais, com um V desenhado atrás; de topete loiro e enrijecido com muito laquê, recurso usado pelas elegantes dos anos 1960. O cabelo não faz ninguém jogar bem, mas produz outros tipos de efeitos também bem-vindos. Os especialistas cotaram no Twitter 650 mil comentários sobre Neymar, 36 mil deles falando sobre o novo look que parece inspirado na cabra-de-cachemira, animal de excelente lã das montanhas do norte da Índia.

Quem inventou a moda foi David Beckham, o jogador inglês que levou seu hair-stylist para o Mundial do Japão (2002). Entrou em campo com o cabelo estilo moicano, copiado até hoje por outros atletas. Nesse mesmo ano o Brasil sagrou-se pentacampeão com Ronaldo marcando oito gols e surpreendendo, na final, com o topete tipo Cascão. Racista, João Saldanha, técnico da Seleção (1970) depois substituído por Zagalo, no México, dizia que "crioulos" não jogavam no seu time "com uma grama deste tamanho". Argumenta que a cabeleira "amaciava" a bola na hora do cabeceio. Jairzinho e Paulo César Caju, em 1974, entraram em campo na Alemanha com os black powers dos Panteras Negras, grupo radical contra o racismo nos Estados Unidos. O Brasil, em 1982, tinha Sócrates, barbado, e Falcão, de cabelos compridos. Na verdade, também não passam de derivativos da tensão que envolvem os jogos.

O pior do Brasil na Copa até agora, não foi o cabelo do Neymar, nem o empate contra a Suíça e o sufoco contra a Costa Rica. Quem mais decepcionou foi o torcedor chato e mal-educado brasileiro, simbolizado pelo grupo que assediou uma russa. Aproveitaram o desconhecimento dela do português, para cantar algo relacionado com a cor do órgão sexual da moça. Este é só um dos casos de falta de educação e machismo por parte dos torcedores brasileiros. Aconteceram assédios contra mulheres russas nas ruas e nos hotéis. Gozações constrangedoras às aeromoças nos voos domésticos. Babaquices. O perfil é bem parecido com o tipo de turista brasileiro que se vê algumas vezes no exterior: aquele que acha que pode tudo porque está pagando.

O que critica a cultura alheia porque não é como a sua. Nem tem o cuidado de aprender palavras simples na língua do país, como "por favor" e "obrigado". A comunhão dos povos, própria de uma competição mundial, é destoada pela infantilidade de alguns, que acabam comprometendo a imagem do nosso país. Os cortes de cabelo dos atletas pelo menos demonstram criatividade. O torcedor brasileiro apenas demonstra ignorância quando quer aparecer pelo comportamento inadequado. Não há esquema tático que nos salve dessa retranca. Mais inteligente seria aproveitar a troca de culturas e o bom clima de um Mundial para fazer amizades que podem ser duradouras. Somente assim, o mundo talvez se esqueça do vexame do 7 a 1. E nós, também.

Ouço muita gente dizer que a "Copa está chocha", em matéria de entusiasmo. Pesquisas confirmam que não será um eventual fracasso no torneio - ou uma euforia pelos resultados obtidos no Mundial -, que deve mudar de forma substancial o debate nas redes sociais. Continua o desemprego, a preocupação com o preço dos combustíveis, com a segurança, com a falta de confiança no futuro próximo. Esses "focos de desalento" é que tiram a esperança e o sono dos brasileiros. Contaminam a possibilidade de empolgação com a Copa. Encalham as vuvuzelas e as falsas cabeleiras verde-amarelas oferecidas pelo varejo popular. O lado trágico das pesquisas: nenhuma projeção de mudança de humor caso o Brasil conquiste o hexa. O povo aspira por outro tipo de campeonato a ser vencido - o das mudanças que possam trazer novamente a confiança na economia, nas instituições e na classe política.

 

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