Primeiro momento: O circular se aproxima do ponto de embarque, aceno com o tradicional braço estendido, o mesmo para, adentro, cumprimento o motorista, aproximo o cartão na roleta eletrônica, a mesma libera a passagem, procuro um assento disponível, encontro e me acomodo. Mas, no decorrer dessa ação e apesar de ter no mínimo uma dezena de passageiros, tive a nítida impressão de estarmos só, eu e o motorista, tamanha era a fixação dos demais passageiros no visor e teclado do aparelho de celular que nem notaram ou simplesmente ignoraram toda aquela movimentação, diante do êxtase do momento!
Segundo momento: recebo o convite para uma festa de confraternização de final de semana, em uma belíssima chácara no entorno de nossa cidade, piscina, churrasqueiras, mesas de jogos, comida, bebida, música, tudo muito bem organizado, com a presença de mais ou menos umas vinte pessoas, mas o que mais me chamou atenção foi a impressão de estarmos presos ao teclado e efeitos sonoros dos mais diversos aparelhos de celular e distante do convívio de fraternização, que era o objetivo principal, reviver e relembrar, mas fomos nocauteados pelos "J" e "G" da celularmania!
Terceiro momento: ...depois de uma manhã corrida e estafante, e dado o horário do almoço, um espaço gourmet foi o escolhido, um lugar ideal, para aliar uma boa refeição e ao mesmo tempo interagir com a natureza, um momento meio zen no meio do dia, muita árvores, música ao vivo, comida boa, um cenário perfeito ao equilíbrio, mas, involuntariamente e na contramão, o equilíbrio foi ofuscado pelos sons e flash das famigeradas selfs, quebrando todo encanto e beleza do momento.
Quando o espelho social tende a nos refletir uma evasão de sentimentos, onde sentimentos parecem um oásis diante da evolução tecnológica, sentimentos primários vão-se tornando evasivos. Um olhar, uma palavra, um bom dia, boa noite, um abraço, um beijo, um aperto de mão, um obrigado... parecem momentos difíceis. Vivemos interligados em inúmeros grupos e quanto mais integrantes mais evasivas nos parecem a aproximação e a convivência!
Vivemos uma aldeia global, unidos num simples toque, mas o vazio nos mostra constantemente. Que mister é esse que nos encanta e espanta?! Uma corrente sem elo não é nada! Vamos reinventar esta metamorfose e alinharmos resgatando sentimentos! Encurtamos tempo e vivemos reclamando da falta dele, mas num descompasso gastamos nosso tempo, aprisionados na tela e teclado de nossos aparelhos! O tempo é fugaz e não dá tempo para o tempo perdido.
Vamos depositar o mesmo tempo disponibilizado para resgatarmos sentimentos de família, das refeições em família, da fraternidade e do amor a vida, aí, quem sabe, nos aproximaríamos mais, para uma vida e um mundo melhor!