Na última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central brasileiro a taxa básica de juros foi mantida em 6,5% ao ano. A decisão é em consideração muito mais à aversão a risco do que a necessidade de o País reduzir a taxa de juros para estimular a volta do crescimento econômico. A insegurança dos investidores está retratada na alta da cotação da moeda estrangeira, tornando o câmbio no Brasil volátil.
A taxa básica de juros vinha em trajetória de queda, interrompida nas duas últimas reuniões do Copom. Afinal, o que ocorreu com as taxas praticadas pelo mercado financeiro nacional quando as quedas ocorreram? Reflexo muito mais sentido para quem aplica recursos do que para quem toma recursos.
As taxas de juros para quem tem sobras de dinheiro, portanto, aplicam seus recursos no mercado, se ajustaram à nova realidade de juros menores. O CDI (Certificado de Depósito Interbancário), por exemplo, acompanhou a queda da Selic. A velha caderneta de poupança, que rende 70% da taxa Selic, também foi rebaixada. Enfim, tirando as aplicações em renda variável, com envolvem risco, as denominadas aplicações financeiras conservadoras observaram queda.
Na outra ponta, o que vem ocorrendo com as taxas para os tomadores de recursos? Pouca coisa. Algumas empresas de maior porte ou pessoas físicas com bom poder de negociação, que oferecem reciprocidade bancária, conseguem empréstimos a taxas mais convidativas, mas os demais, os pobres mortais, ainda amargam juros nas alturas.
Os bancos alegam que elevada inadimplência e a carga tributária brasileira não permitem quedas expressivas nos juros, mas na prática são somente desculpas de um setor concentrado.
De cada cinco operações financeiras realizadas no Brasil, quatro delas são realizadas pelos cinco maiores bancos, ou seja, este mercado concentra 80% das operações nas mãos de cinco instituições financeiras. Em mercado oligopolizado como é este, tarifas e taxa de juros são muito parecidas, não oferecendo ao tomador final opções concorrenciais para reduzir a taxa de juros efetiva.
Para ilustrar o que significa a diferença entre o ajuste que o mercado realiza na remuneração do dinheiro e o não ajuste quando se é tomador de dinheiro, observem as simulações a seguir. Tomemos como exemplo R$ 1.000,00 hoje. Apliquemos este recurso por 10 anos na caderneta de poupança com remuneração de 0,37% ao mês. No mesmo dia tomemos um empréstimo no cheque especial com taxa de 10% ao mês (tem bancos cobrando mais que isso) e um empréstimo pessoal na casa dos 4,5% ao mês e fiquemos sem pagar o empréstimo por 10 anos. Vamos apurar os resultados.
Para quem aplicou seu dinheiro na caderneta de poupança, terá, após 10 anos, se não mexer no dinheiro neste período, R$ 1.557,65, portanto, um ganho de 55,77% no período. Para quem tomou emprestado, terá que devolver ao banco depois de 10 anos R$ 92.709.068,82 se utilizar neste período o limite do cheque especial, ou R$ 196.768,17 caso seu empréstimo seja no crédito pessoal.
Não há erros nos cálculos não. No cheque especial a dívida será milionária, com juros no período de 9.270.806,8%, enquanto no empréstimo pessoal os juros acumulados no período serão de 19.576,82%. Observaram o absurdo que isso representa? Não sou favorável ao tabelamento de juros e tampouco ao tabelamento de preços, mas em sã consciência não é possível aceitar a prática de juros tão exorbitantes quanto estes.
Tudo isso na "barba" do Banco Central, que até publica em seu site as taxas praticadas pelos bancos brasileiros, inclusive as aqui utilizadas como exemplo. Se o Brasil comemora inflação de primeiro mundo, se os juros para os aplicadores de recursos se ajustaram a esta premissa, não é possível aceitar e conviver com juros para quem precisa de empréstimo na magnitude das praticadas pelo sistema financeiro nacional. E o pior é observar que os agentes de controle não fazem com o verdadeiro cartel que caracteriza o sistema financeiro nacional.
Por tudo isso, se puder evitar empréstimos, deixará de dar um tiro no pé. Vale um movimento para a queda efetiva dos juros no Brasil, privilegiando o lado real da economia.