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'Eu prefiro enfrentar o frio do que a vergonha de voltar para minha casa'

Tisa Moraes e Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 5 min

Samantha Ciuffa
Aparecida de Fátima Araújo, com o cão Tigre, relata como enfrentou a madrugada mais fria do ano

Foi depois de perder a mãe, vítima de Doença de Chagas, e o pai, assassinado, que Aparecida de Fátima Arcanjo, 48 anos, conheceu o álcool e as drogas ilícitas. Ela ainda era jovem e, em pouco tempo, a incapacidade de superar o luto a levou ao vício e o vício, às ruas.

Fotos: Douglas Reis

Assim como um número incontável de pessoas, Aparecida passou as últimas noites frias de Bauru na rua. Nessa quinta-feira (12), inclusive, os termômetros bateram recorde do ano, de 6,2 graus, trazendo desconforto para o sono de quem, pelas circunstâncias da vida, acabou se tornando um morador de rua.

"Não é fácil, mas eu prefiro enfrentar o frio do que a vergonha de voltar para casa", conta a mulher, que tem irmãos, filhos e netos morando em Bauru. "Todo santo dia alguém da minha família oferece um lugar para eu ficar. Não tenho orgulho, tenho vergonha. Não quero dar trabalho ou ficar dependendo das pessoas e nem que meus netos me vejam embriagada", pondera.

José Luiz Oliveira passou a madrugada congelante ao relento; nessa quinta-feira (12) de manhã, ele descansava em um banco da Praça Machado de Mello

Em 20 anos vivendo nas ruas, Aparecida diz já ter superado a dependência de drogas, mas o álcool segue como uma prisão difícil de escapar. Então, ao fim de cada dia, ao lado do companheiro Éderson Dias Alves Silva, 35 anos, e do vira-latas Tigre, ela se acomoda em um colchão de solteiro em frente à Estação Ferroviária - por coincidência, o local em que seu pai, também alcoólatra, um dia trabalhou.

Com a bebida como herança, Aparecida ainda conseguiu emprego como faxineira, mas não por muito tempo. Em certo momento, se encaixar na rotina do trabalho e da família se tornou algo complexo.

''EXISTE MUITA MALDADE''

Embora ainda mantenha contato constante com os irmãos, filhos e netos, é com Éderson e Tigre que ela enfrenta, agora, os desafios do dia a dia. É com eles que ela divide, nesta época do ano, o estreito espaço embaixo da marquise da Estação e as cobertas grossas doadas por grupos voluntários de Bauru.

"Um cuida do outro, mas a rua não é um lugar cheio de amor e felicidade", afirma, revelando que, mesmo nos dias quentes, nenhuma noite é de descanso completo. "Quem mora da rua não dorme de verdade. Enquanto um olho vigia, o outro descansa. Existe muita maldade no mundo e tem que ficar esperto", diz.

LEMBRANÇA FRIA

Porém, é quando os termômetros baixam para a casa dos 10 graus ou menos que o incômodo do vento gelado se soma às lembranças de uma vida cheia de dificuldades. "As pessoas acham que nós somos a escória da sociedade, mas ninguém sabe o que cada um aqui passa. Eu não escolhi estar aqui. Não nasci assim e, pode ter certeza, também não vou morrer assim", completa Aparecida.

''DEMOREI PARA DORMIR''

Outro que sofreu com a baixa temperatura, mas preferiu enfrentar o frio ao relento na Praça Machado de Mello foi José Luiz Oliveira, 23 anos, que vive há seis meses nas ruas.

Ele conta que foi complicado para pegar no sono com a temperatura tão baixa. "Tenho um colchão e dois cobertores, mas não é suficiente. Demorei bastante para dormir", revela, complementando que prefere recusar o acolhimento em um abrigo. "Aqui, tenho mais liberdade", justifica.

Novo recorde de frio

O frio bateu novo recorde em Bauru na madrugada de ontem. Segundo o IPMet da Unesp, os termômetros marcaram 6,2 graus às 5h50, a temperatura mais baixa do ano. Na quarta-feira, por volta das 7h15, a mínima chegou a 6,8 graus, conforme o JC divulgou. As temperaturas devem começar a subir gradativamente a partir de hoje, mas o tempo permanece seco nos próximos dias.

Segundo o IPMet da Unesp, para esta sexta, os termômetros devem registrar mínima de 9 graus e máxima de 25 graus. "No sábado, a previsão é de 15 graus (mínima) e 27 graus (máxima). No domingo, as temperaturas variam entre 17 graus (mínima) e 30 graus (máxima)", detalha a meteorologista do IPMet Rita Cerqueira.

Hoje, completa um mês sem chuva em Bauru. E o tempo também deve permanecer seco na próxima semana. "Não há previsão de chover até a próxima sexta-feira (dia 20)", finaliza a meteorologista Cerqueira.

Albergue Noturno não fica lotado

Apesar da madrugada congelante desta quinta, o limite de vagas do Albergue Noturno não foi atingido. Ao todo, foram preenchidos 60 dos 64 leitos, não sendo necessário utilizar colchões extras, como ocorreu em anos anteriores. Coordenadora da entidade, Francine Tamos entende que a procura não foi maior em razão de ações da sociedade civil, como entrega de cobertores, agasalhos e alimentos aos moradores de rua.

"Até três ou quatro anos atrás, a pessoa em condição de rua, principalmente no frio, só tinha o Albergue para recorrer. Hoje em dia, existem várias iniciativas para acolhê-los. Não é o primeiro inverno que não atendemos a capacidade toda. Na noite mais fria do ano passado, tivemos 35 leitos ocupados. A minha avaliação social é de que as pessoas não estão passando frio nas ruas".

Tamos enfatiza o lado positivo da prática de solidariedade, mas pondera que as pessoas ficam nas ruas. "As noites mais frias sempre foram o nosso ''aquário', porque vinha mais gente e conseguíamos trabalhar, com mais pessoas, o nosso objetivo fim, que é justamente impedir que eles retornem para as ruas. Hoje, por exemplo, temos 114 vagas nas casas de passagens do município", frisa.

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