Pensando sobre o formato de vídeos e apresentações que assisto, alguém perguntou: - está com dor de cabeça? Na hora me veio a frase de Ralph Emerson: "Se um homem se senta para pensar, alguém imediatamente lhe pergunta se está com dor de cabeça".
Eu tenho mania de pensar e refletir sobre formas de traduzir para o simples os raciocínios e conhecimentos mais emaranhados e difíceis. Mas também é interessante pegar um pensamento ou objeto muito simples e demonstrar como foi resolvida a complexidade dentro dele para que se tornasse algo prático em nosso dia a dia! Um exemplo são os formatos ou proporções das telas nos celulares, computadores, televisão, cinema e outdoors.
Quais são os vídeos e propagandas mais vistos e quais vendem mais em celulares e computadores? De longe, são os de formato vertical! O fato dos formatos verticais serem aqueles que mais vendem significa que são os mais agradáveis, que mais ensinam, são os mais compreendidos e mais vistos pelas pessoas.
EXPLICANDO
A proporção inicial da tela de televisão foi 4 por 3 ou "fullscreen", quase quadrada, pois ainda tinha a espessura do tubo de imagem! Ocupava muito espaço e sala grande em casas e apartamentos custa dinheiro nas construções. Tinha que ficar fina e as televisões viraram quadros nas paredes. Salas e quartos menores reduziram os custos das construções!
A altura das casas e apartamentos tinham que diminuir, como os anfiteatros e salas de convenções nos hotéis. Quanto mais alta a sala de projeção, maior o custo da construção, ar-condicionado, janelas etc. O mercado tinha que convencer as pessoas que projeções em congressos, eventos e na televisão deveriam ser de altura pequena e esticar na lateral.
E nasceram as telas "widescreen", de tamanho 16 por 9, e toma convencer as pessoas que isto era "moderno". Ao reduzir a altura, diminuiu-se o custo e lucrou-se mais, pois é possível fazer mais andares no prédio da mesma altura. E resolveram radicalizar, o "moderno" seria fazer projeções 3x1, aquelas que é uma tripinha bem fininha de altura, mas ocupa toda lateral da parede. Muitos anúncios e filmes estão neste formato. Por isto que evento em salas baixas e de piso único é coisa de pouco dinheiro!
Hotéis e eventos adoram formatos radicalmente horizontais por que podem fazer reuniões e conferências em salas baixas, mas fica muito desconfortável! Pouco importa, o que vale é entupir de gente e ganhar mais. Reduzir custo na construção para aumentar o lucro é prioridade!
OS VERTICAIS
Mas pesquisas revelam que o cérebro não gosta muito destes formatos horizontais, pois as visualizações e as vendas aumentam muito quando são feitos anúncios, filmes e folders no formato vertical que ocupa toda a tela do celular, mas não na horizontal. A maioria das pessoas não viram o celular para ver na horizontal. Das crianças e jovens da geração Y, 72% nunca giram o celular para a posição horizontal!
Nos computadores e sites ocorre a mesma coisa: as pessoas querem ver na vertical e não horizontal. O retorno financeiro dos anúncios e vídeos verticais é muito maior dos que os horizontais. E agora, como devem ficar as projeções em salas, shopping, eventos e shows? Os shows, lojas, cafés e shoppings se adaptam rapidamente: as projeções já estão na vertical. Repare!
Snapchat, Facebook, Google, Instagram, Twitter e Youtube e outras empresas da internet já se adaptaram trocando ou possibilitando o formato vertical de vídeos e posts. Alguns filmes já passam a ser produzidos e exibidos na vertical! Teremos que conviver cada vez mais com esta confusão de formatos horizontal e vertical!
Eu estou ficando louco, pois ora pedem gentilmente: projete em 4 x 3, aliás o meu formato preferido, mas aí vem um outro e diz: montamos tudo para o formato mais "moderno", de 16 x 9, um terceiro diz que não, pois o formato mais chique é 3 x 1. A ciência vem e diz: está tudo errado, o que mais agrada e vende é o formato vertical! Talvez pela posição vertical dos edifícios, árvores e pessoas.
Não gosto de "teorias de conspiração", mas começo a achar que querem me deixar maluco e já estou fazendo apresentações em formato vertical: aguardem!
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.