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Étienne de La Boétie, alter ego e a semiótica da representatividade

Mário Henrique da Luz do Prado
| Tempo de leitura: 2 min

Já no século XVI, muito antes das revoluções que culminaram em queda da monarquia, Boétie tratava, cirurgicamente, do problema da servidão voluntária dos povos e, em sua magnun opus (a obra Discurso sobre a Servidão Vountária), com crítica até então inexistente, narra: "Os reis da Assíria, e depois os da Media, evitavam apresentar-se ao público o máximo possível, para que o populacho se questionasse se não eram, de alguma forma, mais que humanos, e enlevar nesse delírio aqueles que, quando não podem julgar com os próprios olhos, se entregam à imaginação".

Vieram as revoluções democráticas e constitucionais, séculos após, e parecia que, ao menos no sentido formal, estariam os homens modernos livres dos tiranos de quem Boétie tratava.

Previu também Karl Marx que os trabalhadores, filhos da revolução industrial de que Boétie nem soube, tomariam o poder político e econômico.

A democracia seria, então, o melhor estado do homem político. E no sistema representativo, o povo elege seus representantes que, ao menos por dever moral, serão autores da vontade de seu povo. Perfeito, não?

A revolução francesa, movimento que articulou o fim do sistema monárquico, grande motor das revoluções democráticas, ainda que tenha sido um movimento (predominantemente) da burguesia, foi revolução dos governados contra seu governante.

Assim foram, também, os sangrentos movimentos de independência das colônias em toda a América, com a infeliz exceção do Brasil. O povo não é, em nossa história, sujeito das revoluções, já que não foi o sujeito ativo nos fatos principais históricos de nossa nação: a independência e a proclamação da república, não sendo, assim, o autor dos sistemas de Estado instituídos.

Se o povo não é autor do sistema político, este não lhe pertence, substancialmente - o que não evita que os sistemas formais concedam ao povo todo o poder, ainda que não garantido, no sistema de Estado, o exercício seu substancial.

Surgem, então, as figuras políticas vestidas de Louis Vuitton amarrado às costas, que em nada tangenciam com o povo, mas como ninguém comunicam com o seu "alter ego".

São Paulo, palco do Carandiru, terra da garoa e do Capão Redondo, do metrô lotado e da correria, não pode comunicar, na essência, com Armani, mas o seu "alter ego" elitista se reconhece na figura da elite festiva e televisiva.

É onde mora a semiótica da representatividade que faz seu povo ver na sua própria antítese o seu inconsciente sonho de ser rei.

O autor é advogado em Bauru.

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