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Uma eleição sem ganhador

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Existe uma crise de representação política, que abala algumas democracias, entre as quais a do Brasil. As pessoas estão cansadas dos partidos, que priorizam seus interesses. Os governos são corruptos, injustos, burocráticos e opressivos. A crise econômica prolongada, a precariedade do trabalho e a desigualdade social põem em risco a democracia liberal. Os eleitores querem, agora, ser protagonistas. Não desejam mais ser representados. Cada um defende a sua própria bandeira, nas redes sociais. As conclusões são do sociólogo Manuel Castells, sociólogo catalão, professor em Berkeley, no seu mais recente livro, "Ruptura". "Sopram ventos malignos no planeta azul" - sentencia.

O grande erro da esquerda, segundo o autor, é pensar que movimentos sociais são sempre bons. Não é verdade. Eles surgem de todos os setores e valores que não têm uma expressão direta, clara e aberta no sistema político. Aparecem, tanto da extrema-direita quanto da extrema-esquerda, ou pelo centro. Ninguém sabe como começa e, muito menos, como termina. O sociólogo diz ter uma profunda relação com o Brasil, e considera que o país vive num processo de total decomposição do seu sistema político. Castells revela ter lido todas as declarações de voto dos deputados que votaram o impeachment de Dilma Rousseff. Estarrecedor. Destaca Jair Bolsonaro, que que votou a favor do impedimento e dedicou sua decisão ao coronel Brilhante Ustra, torturador da presidenta. "Não é um processo típico da democracia liberal, nem no Brasil, nem em parte nenhuma".

Depois de uma reunião do diretório nacional do PT em São Paulo, anteontem, um grupo de dirigentes do partido foi à carceragem da Polícia Federal de Curitiba, para um encontro com o ex-presidente Lula, levando o nome de Manuela dÁvila, presidenciável do PCdoB, como opção para ser vice da chapa petista. Lula rechaçou qualquer anúncio de composição da chapa antes do prazo final para o registro da candidatura no TSE, no dia 15 de agosto. O episódio evidencia como Lula, mesmo preso, continua fazendo política dento da cadeia e definindo todas as movimentações do PT. Da cadeia, o ex-presidente consegue delegar tarefas e participar de decisões importantes. Desde o posicionamento do partido nas eleições estaduais, até no plano nacional. Lula, condenado em segunda instância, já está enquadrado na Lei da Ficha Limpa, o que torna sua candidatura impossível. A senadora Gleisi Hoffmann, no papel de advogada do ex-presidente, solicitou autorização do STJ, para que Lula possa dar entrevistas na prisão, utilizando como argumento o princípio de isonomia. Ele é igualado a Fernandinho Beira-Mar. O chefe do tráfico internacional de entorpecentes chegou a falar aos jornalistas detrás das grades. A razão mais uma vez, está com Castells: nada disso se parece com uma democracia liberal.

O candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, diz que sente em suas viagens que tem mais votos do que o Lula. Ele conta votos dos possíveis "eleitores envergonhados", aqueles que não revelam suas intenções com medo da reação. Bolsonaro e Lula, segundo as pesquisas, têm a mesma rejeição de 54% do eleitorado. A soma dos votos brancos, nulos e a abstenção supera Bolsonaro. As investigações não confirmam a crença de que Lula transferirá pelo menos metade dos seus votos para o substituto, Fernando Haddad. Surge Marina Silva, como alternativa para os indecisos. Ela pode ser alvo dos votos úteis. Caso Alckmin não deslanche com o apoio do Centrão, a tendência seria o eleitorado cristianizar o candidato tucano e votar em Marina para garanti-la no segundo turno. Alckmin ainda tem a pretensão de virar o jogo com o maior tempo de televisão e a máquina partidária que o apoia. O raciocínio que seus apoiadores fazem, considera o digital como estratégia de dominação da campanha. Ciro Gomes, do PDT, não consegue aglutinar os partidos de esquerda. Com todo respeito, os demais nem são cogitados.

Tem razão Manuel Castells: há algo de estranho na democracia liberal. O mercado já deixou de se preocupar com quem vai, ou pode, ganhar. Decidiu seguir em frente só com o balizamento do exterior. Seja qual for o resultado, nesta eleição presidencial, haverá apenas um "declarado ganhador". Vai ter que rebolar para governar dentro desse antissistema. Será mais um empurrãozinho rumo à falência da representatividade democrática. Os movimentos sociais seriam levados à efervescência, pela lição de Castells.

Nada disso é bom, para a democracia liberal. Para o mercado, o touro que vier, que venha. Mas em forma de bife.

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