Geral

Entrevista da Semana: Júlio Cesar Bastos, a voz da periferia

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 5 min

Arquivo pessoal
Black venceu o Festival Nacional Sons da Rua

Ele era uma criança de poucas palavras. Hoje é um rapper com mais de 200 músicas compostas. Nascido em São Paulo, mas radicado em Bauru, Júlio Cesar Bastos, o Dom Black, de 35 anos, dedica a vida a dar voz a quem tem pouco espaço.

Da infância difícil, o músico tirou a criatividade, característica essencial para lançar os seus quatro álbuns, compostos por 70 canções. Inclusive, um destes sucessos, "Por Enquanto", garantiu a vitória do artista no Festival Nacional Sons da Rua, que aconteceu no Memorial da América Latina, em São Paulo, no ano anterior.

Abaixo, Black fala sobre a periferia, o rap e o racismo - que, corajosamente, enfrenta com a própria música.

Jornal da Cidade - Você não nasceu em Bauru, mas passou grande parte da infância na cidade. Você lembra como era?

Dom Black - Me lembro até da minha infância, em São Paulo. Nós morávamos em um quintal, onde havia muitas crianças. Além disso, era difícil chegar até a nossa casa, por conta das enchentes. Inclusive, tenho medo de água até hoje - eu era muito pequeno e minha mãe me carregava para passarmos pela enchente, dizendo que nada aconteceria. Quando eu tinha 3 anos, minha família veio para Bauru, porque a minha avó, Cristina Pacheco Bastos, que vivia na cidade, estava doente. Era para ser provisório, mas ela faleceu e acabamos ficando na casa, situada no Bela Vista. Em Bauru, a nossa vida melhorou bastante.

JC - Passou por quais escolas, em Bauru?

Black - Com o intuito de estudar cada vez mais perto de casa, passei pela Francisco Antunes, Torquato Minhoto, Guedes de Azevedo e Moraes Pacheco. Não gostava do ambiente escolar, porque havia muita piada racista. Isto fez com que eu me afastasse das pessoas e ficasse mais criativo. Sempre fui um sonhador. Certa vez, decidi copiar a matéria da lousa, mas me distraí com a rachadura do lápis e fiquei viajando. Quando percebi, tocou o sinal e a aula já tinha terminado. Eu me dava muito bem nas provas orais, porém, não gostava de escrever.

JC - E quando surgiu a afinidade com a música?

Black - Como eu já era bom ouvinte, prestava atenção nas músicas de The Jackson 5 e das rádios de samba de São Paulo. Nesta época, eu era adepto ao samba e à black music. O rap veio quando eu tinha 6 anos. Na ocasião, minha irmã era amiga dos integrantes do grupo Desacato Verbal, da Vila Independência, em Bauru. Ela, então, começou a trazer fitas para nós ouvirmos. Foi amor à primeira ouvida.

JC - Você se espelha em algum rapper?

Black - Gosto muito de Tupac Shakur, Mano Brown e Thaíde. Tanto que, quando era criança, falava para todo mundo que algumas letras deles eram minhas e, como ninguém ouvia rap, acabava acreditando. Era uma tentativa de inclusão social, afinal, as pessoas começaram a se aproximar de mim. 

JC - Hoje, você é compositor. Quando começou, de fato, a escrever?

Black - Aos 11 anos. Na época, a minha professora de português pediu para que eu escrevesse um rap sobre o Dia Internacional da Aids, porque precisava de nota. Compus e me apresentei diante da escola inteira. O pessoal gostou bastante.

JC - Desde então, você não parou mais de compor?

Black - Não, já escrevi mais de 200 músicas. Do total, trabalho com 70 canções, distribuídas nos últimos quatro álbuns lançados. A "menina dos meus olhos" é a "Por Enquanto", que garantiu a minha vitória no Festival Nacional Sons da Rua, no Memorial da América Latina, em São Paulo, no ano anterior. Fiz a música, porque estavam acontecendo coisas ruins comigo. Conversei com Deus, fui dormir e, no sonho, Ele me mostrou todos os meus erros. Quando acordei, percebi que estava colhendo tudo o que plantei e escrevi o desabafo. Virou sucesso.

JC - Antes de viver de música, o que você fazia?

Black - Nossa, fiz de tudo um pouco. Não cheguei a concluir a 3.ª série do ensino médio, mas, ao mesmo tempo, comecei a trabalhar cedo. Já fui entregador, office boy, gesseiro, servente de pedreiro e pintor. Há 10 anos, vivo de música.

JC - De onde veio o apelido Dom Black?

Black - Na adolescência, os meus amigos costumavam me chamar de Black, porque toda vez que iam até a minha casa, estava ouvindo black music. Já o Dom veio após uma apresentação, na qual representei todo o grupo que integrava, o Dom QI Único, formado por outros três componentes: Hugo, Mário e Gustavo. Na época, eu tinha 16 anos e, com o grupo, abri shows de artistas de peso, como Art Popular, Leci Brandão e Sorriso Maroto. E mais: fomos parar até no Mato Grosso do Sul.

JC - Por que o grupo se desfez?

Black - Como conhecemos a fama, nós nos perdemos e decidimos dar um tempo. Eu, no caso, comecei a frequentar a Igreja Evangélica. Porém, parece que faltava alguma coisa. Resolvi voltar sozinho, momento em que lancei o meu primeiro CD, com 15 músicas, sendo dois sucessos: "Quem tem ouvidos ouça" e "Ela mexe". Atualmente, tenho outros quatro álbuns e pretendo estrear o quinto, em 2019.

JC - Em sua opinião, o rap transforma vidas?

Black - Com certeza. Certa vez, fui cantar em uma clínica de reabilitação. Após algum tempo, ia abrir um show e o segurança me reconheceu. Não me lembrei dele, mas o homem, grande e forte, disse que, quando eu o vi, estava 40 quilos mais magro, por conta do crack. O segurança revelou, ainda, que encontrou forças para lutar depois que ouviu as minhas músicas. Nós dois choramos.

JC - Você se intitula repórter da periferia. Por quê?

Black - Porque eu dou voz a quem não costuma ter espaço, como se fosse um repórter mesmo. Inclusive, estou realizando o meu sonho, que é o de fazer com que a minha música toque o coração das pessoas.

JC - Por fim, você comentou que já foi vítima de racismo. Qual é a melhor forma de enfrentá-lo?

Black - Nós somos obrigados a nos impor e a ensinar as pessoas a se valorizarem. Creio que a minha música exerça este papel.

Perfil

Nome: Júlio Cesar Bastos, o Dom Black

Idade: 35 anos

Pais: É 'pãe' e o nome dela é Maria Emília Bastos da Silva, de 65 anos

Irmã: Graziela Bastos da Silva, de 41

Esposa: Diana Aparecida Machado de Souza, de 29

Filhos: Lukas Fernando Machado Bastos, de 10, e Pérola Dandara Bastos, de 1 ano e 7 meses

Time: Corinthians

Filmes: Gosta muito de ver filme, exceto os de terror

Livro: "Pais Brilhantes, Professores Fascinantes" (Augusto Cury) e "Qual é a tua obra?" (Mário Sérgio Cortella)

Signo: Leão

Contato: facebook.com/DOM blackraper/ (Facebook), instagram.com/domblack_oficial/ (Instagram), (14) 98814-5160 (WhatsApp)

 

Comentários

Comentários