Como nos ensina Emmanuel, o egoísmo é o mais implacável de nossos inimigos internos, porque nos tolhe a visão espiritual, impedindo vejamos as necessidades dos que mais precisam de ajuda. Se assim é na condição individual, o que dizer do egoísmo de grupos organizados, que chamamos de interesses corporativos? E ainda mais, se essas corporações forem de agentes públicos com poderes de decisão de impacto mais amplo? É o que aconteceu com a decisão do Supremo Tribunal Federal de incluir na previsão orçamentária para o próximo ano um aumento de 16,38% para seus próprios ministros. Seria justo e não egoísta se a sua pretensão não viesse em prejuízo da maior parte da população, a quem não há apenas salário defasado, mas nenhum salário, num quadro já quase dantesco de sofrimento. Somente uma visão tolhida pelo egoísmo poderia permitir que pessoas com os mais altos salários e benefícios do cargo, pagos em dia com o dinheiro recolhido do povo, pudessem ignorar o estado lastimável da população brasileira, com mais de 63 milhões de inadimplentes, a maioria em despesas de subsistência.
A mídia tem esmiuçado as gravíssimas consequências que essa pretensão terá se for aprovada. Para este ano se prevê um déficit de mais de R$ 150 bilhões. Para socorrer os estados endividados com a União haverá um rombo de R$ 90 bilhões nos próximos três anos, o que indica uma situação dificílima para o próximo governo. Talvez, por mais que venha a fazer, não conseguirá zerar o déficit e não terá recursos suficientes para os investimentos, sem os quais o país não sairá da crise. Tudo isso porque os salários dos ministros do STF servem de parâmetro para salários e subsídios de todos que recebem dos cofres públicos nas três esferas do poder. E aqui no Brasil criou-se o costume de todos quererem receber sempre pelo máximo. Quem está abaixo do teto quer que ele aumente para também ter aumento. Quem está escalonado em 75% quer manter o mesmo padrão se o teto subir. Assim, todos ficam torcendo para que a medida seja aprovada e prefeituras, estados e a União serão levados pelo tsunami.
O "egoísmo converte o interesse individual em princípio diretor de conduta", diz o dicionário Michaelis. É a força implacável que levou os ministros a tomarem essa atitude oportunista, aproveitando a fragilidade do governo e a condição de muitos parlamentares que pretendem se reeleger tendo que prestar contas à Justiça, portanto, com medo de desagradar seus representantes. Viram aí uma oportunidade de aprovação que obscureceu a vista para os índices representados pelo fatídico treze - 13 milhões de desempregados e 13 milhões de crianças e adolescentes abaixo da linha de pobreza, conforme relatório da Unicef. Não viram mais nada, além da oportunidade de melhorar a sua situação pessoal, Às favas a solidariedade ou como disse o Zarcilo: "Meu pirão primeiro". Um dos ministros disse que a medida não afetaria o orçamento e que a Justiça tinha obtido a devolução de um bilhão para a Petrobras. Não é ignorância, porque ele bem sabia o que estava dizendo, era desprezo por nós, considerando que qualquer batatada serviria para nos convencer.
Os ministros que aprovaram a inclusão do aumento de seus salários no orçamento federal pensaram só em si, desdenhando de tudo que está à sua volta, como se fossem superiores a seus concidadãos. Esqueceram que são servidores públicos, pagos com o dinheiro recolhido aos cofres públicos pela população, para servi-la e não para serem beneficiados.. As prerrogativas e privilégios que os distinguem dos demais servidores são do cargo e não pessoais. Só perduram enquanto estiverem investidos nele.
Também não é o cargo que dá dignidade à pessoa, mas o contrário é a pessoa que o dignifica, pela sua grandeza. E enquanto a solidariedade é um dos atributos da grandeza o egoísmo é da pequenez. Uma atitude como essa sai do restrito âmbito individual do egoísmo para a irresponsabilidade social. Este é um julgamento muito forte, mas não poderia ser diferente, levando em consideração as condições de dificuldade da população brasileira.
Não era a hora de querer criar mais dificuldade.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.