Tribuna do Leitor

Homosapiens ao Homovirtuallis

Marjorie Almeida Rocha
| Tempo de leitura: 2 min

Gostaria de manter o peculiar apreço que guardo pela Humanidade... Pela minha própria humanidade, aquela nossa velha natureza primordial, pródiga em produzir arte, cultura, beleza espraiadas pela praia, ventos novos pelos cantos das ciências, saberes, tão cheios de viço e sabores.

Um permanente descontentamento me visita, e olho debruçada sobre os tempos que se foram, que se vão...escorrendo pelo vão da nossa vazia alma coletiva.

As mãos que já produziram preciosidades em todas as épocas, ainda que mais obscuras... os traços significativos de toda uma civilização pautada por uma evolução mais exterior e excêntrica, quando vista de dentro.

Hoje, a natureza reclama por seus sagrados direitos. homens tão equivocados quanto aqueles que aplaudiam os pérfidos espetáculos dos circos romanos.

Desprovidos de qualquer sentimento de júbilo por toda uma Consciência Superior que deveriam reverenciar, entregues ao sabor de uma frenética busca pela realização de feitos tão pueris...pautados por um impulso nada magnânimo de conduzir a própria pele para um destino, que infelizmente o vai tragar antes que ele desperte para o que há de melhor na Vida, em si e ao redor.

Talvez este seja meu texto mais cruel, e também o mais autêntico em cores de uma realidade virtual que a nossa Humanidade resolveu cultuar.

Sim, concordo com o avanço das tecnologias em todas as áreas. Jamais vou apregoar aos quatro cantos que me oponho ao progresso das coisas ditas materiais e mundanas.

No entanto, me sinto tentada a afirmar que o sentido da Vida, algo maior que transcende a tolice imediata, está sendo consumido por pessoas ávidas em parecer com quem não deveram ser... e sobre tão pouco espaço para aqueles que são autênticos em si mesmos... que dá um nó na garganta.

Quanto da nossa Criança Interior estamos prontos para reviver, para promover uma reviravolta brutal e imediata, para que nossas realidades sejam construídas com Verdade, com disponibilidade para o outro, com voraz vontade de viver e conviver.

Basta de tanta hipocrisia, preconceito, dogmas absolutistas.

Já sabemos ao constatar, na via da história, todas as pegadas nada altruístas que produziram os horrores que esta Humanidade não mais deseja repetir.

Basta de joelhos dobrados para as religiões que enaltecem as atitudes desaprovadas por qualquer código de ética humana.

A arte da comunicação, hoje tão aclamada, perdeu-se em alguma esquina das mídias sociais. Homens caminham com dedos sobre aparelhos eletrônicos feitos Zumbis... zombando de sua própria habilidade em se relacionar com o outro... esquecendo por completo de olhar para os olhos, antes de fixar-se numa tela.

Ainda há esperança? Talvez sim. Quando vejo crianças a brincar despretensiosamente, longe dos aparelhos eletrônicos e de repente uma delas me sorri.... logo penso... aqui mora minha Humana Idade, e nesta eu quero me deitar e viver um sonho infinito, por toda a eternidade, ainda que seja para assistir longe das telas, o esplendor insondável do meu próprio Universo.

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