Não sei se é a tônica da modernidade, das relações fugidias, fugazes ou se a falta de compromisso que se nota em muitas pessoas é algo isolado, próprio de alguns indivíduos. Seja como for, o que percebo é que a sociedade vive uma crise de comprometimento. Palavra dada, ultimamente, pouco ou nada significa. Tenho notado isso em vários contextos. Ambientes de trabalho, de amizade, de família e mesmo virtuais: nada parece ser imune à falta de responsabilidade que permeia a sociedade. As pessoas parecem simplesmente não se importar se assumiram um compromisso com alguém. Agem, assim, como melhor lhes apetece e satisfaz.
Alguns funcionários, por exemplo, não se incomodam se chegam ou não no horário. Marcam todos os seus compromissos para o período de expediente de trabalho e o patrão que se vire. Ficam no celular o tempo todo, somente contabilizando os minutos para ir embora, estando o serviço no estado em que estiver. Não tem vínculo algum com o lugar de onde tiram seu sustento ou de suas famílias.
Por outro lado, há os patrões que vendem o mundo de promessas no momento de contratações, mas que no dia seguinte somente exigem mais e mais, mesmo o que não foi combinado, sob o pretexto e a ameaça de que se não estiver bom como está, basta pedir demissão, eis que há filas de desempregados. Pouco ou nada, enfim, importa quando o fator é o financeiro, aquilo que se pode ganhar, mesmo às custas de uma reputação moral. Mesmo nas coisas mais simples se nota a ausência de lealdade. Amigos se comprometem a participar de projetos em comum, dão garantias que jamais pretendem executar e se desincumbem de avenças prévias sem sequer uma única justificativa. Pouco importa se a amizade impõe débitos de afeto ou de gratidão quando a medida é composta apenas dos próprios interesses.
A coisa toda fica ainda mais séria no campo dos relacionamentos familiares e sentimentais. Pais que se esquecem de que filhos são eternos e filhos que se voltam contra pais, esquecidos de que há uma aliança maior que deve ser respeitada, honrada, tornando preciso assim que a força da lei faça valer deveres que jamais deveriam ser negligenciados.
Vivemos tempos estranhos. Difícil confiar nas pessoas, ainda mais quando a credulidade recebe como troco o engano, a traição, a fraude. É preciso olhos abertos e certa malícia para sobreviver em um mundo no qual não se pode contar com muita gente, onde nunca se sabe de onde virá a próxima pedra, tampouco quem irá arrebentar as correntes nas quais se apoia.
Quando se fala em comprometimento, melhor nem mesmo mencionar a política, berço de conchavos, lorotas e mentiras. Poucas áreas são mais descompromissadas, descomprometidas do que essa. Tudo vale para mim, mas nada vale para o outro, reza o político de carteirinha, comprometido com seu bolso e nada mais...
A autora é jornalista, advogada e professora universitária.