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Entrevista da Semana com Bruno Borges Santinoni, Sob pressão no fundo do mar

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 7 min

Arquivo pessoal
Bruno se prepara antes de fazer mais um de seus mergulhos
Profissional realizando manutenção em uma plataforma

Uma escotilha de plástico. É isso que separa o olhar de Bruno Borges Santinoni, de 37 anos, da imensidão do fundo do mar. E é dentro de uma cápsula, com a pressão de 100 metros de profundidade, que o mergulhador comercial vive com seus colegas durante o trabalho em alto mar. Como isso é possível?

"Ficamos enclausurados em uma câmara hiperbárica durante um mês, respirando hélio e oxigênio. Dependendo da profundidade em que estamos, demora de um a seis dias para chegarmos à superfície", responde o mergulhador que recebeu a reportagem em sua casa, nos seus últimos dias de férias em Bauru.

São 12 anos convivendo com os riscos nas profundezas do mar desde que um amigo o chamou para ser mergulhador comercial. Desde então, Bruno presta serviço nas grandes construções submersas de empresas petrolíferas em diversas partes do mundo. Nesta entrevista, o mergulhador ainda conta sobre momentos de tensão em alto mar, a reação da família com os riscos diários e seus hobbies dentro e fora do mar. Leia mais:

Jornal da Cidade (JC) - Como foi a sua infância em Bauru?

Bruno Santinoni - Bem, sou de São José dos Campos, cheguei aqui em 1994, por conta de uma transferência no trabalho do meu pai. Lembro bastante da natação na Luso, das amizades que fiz naquela época e que são as que mantenho até hoje. Sempre que venho a Bauru gosto de reencontrar meus amigos, nunca perdemos o contato. É uma coisa que eu levo muito forte da cidade.

JC- Você começou a se interessar pela natação com quantos anos?

Arquivo pessoal
Em Bauru, Bruno aproveita o convívio familiar; ele com a irmã Camila, as sobrinhas Luísa e Ana Flávia e o pai Alvérsio

Bruno - Mais ou menos nessa mesma época. Tudo começou por causa de uma bronquite. Em Bauru, comecei a nadar na Luso e meu colégio patrocinava a natação para quem conseguia índices para campeonatos paulista e brasileiro. Eu era um desses atletas e consegui bolsa no colégio.

JC - Você pensou em ser nadador profissional?

Bruno - Sim. Mas a falta de patrocínio me fez perder um pouco o incentivo. Eu queria ser militar, mas não consegui passar, em dois anos, na Academia das Agulhas Negras. Então, em 2000, desisti disso e fui para São Paulo. Lá trabalhei com eventos durante uns anos e comecei a viajar, também a trabalho. Foi assim que cheguei à ilha de Malta, onde conheci o mergulho recreativo.

JC - Como foi o processo até chegar ao mergulho comercial?

Bruno - Quando morava em Malta, um amigo me chamou para fazer mergulho recreativo. Depois de um tempo, larguei os eventos e fiquei só nisso. Depois, o meu instrutor de mergulho recreativo me falou desse mercado comercial na África do Sul e eu fui para lá fazer cursos para entrar no ramo.

JC - Onde você já trabalhou?

Arquivo pessoal
Bruno e o irmão Cristiano Santinoni em viagem de moto

Bruno - Já trabalhei na África do Sul, Namíbia, Angola, Tailândia, Arábia Saudita, Irã, Iraque e Catar, onde estou atualmente. Antes, eu fazia um mergulho de ar, 21% oxigênio e 79% nitrogênio, que ia até 50 metros de profundidade. Agora, faço mergulho de saturação, que atinge maiores profundidades. No Catar, já cheguei a 130 metros de profundidade.

JC - Já teve oportunidade de trabalhar no Brasil?

Bruno - Não trabalhei por aqui ainda, mas está na minha lista. Queria fazer uma saturação de mais de 300 metros de profundidade, que é o que se faz na Bacia de Campos.

JC - Em média, quanto tempo você passa mergulhando por dia? Qual foi o maior tempo de saturação e de mergulho?

Bruno - Já fiquei no fundo do mar por 35 dias, na cápsula hiperbárica acoplada em um navio. Lá dormimos e nos alimentamos. Recomenda-se ficar no máximo 28 dias, mas chega um ponto em que é possível ficar um pouco mais. Quando se passa 30 dias, por exemplo, é exigido que se passe pelo menos 15 dias fora. Já em mergulho, em média, fico 8 horas por dia, mas já passei 10 horas mergulhando sem parar, a 115 metros de profundidade.

JC - Quais são seus próximos planos profissionais?

Bruno - Estou fazendo horas de supervisão e pretendo terminar o meu curso. Assim, posso enviar currículos como supervisor ou mergulhador.

JC - Onde são ministrados esses cursos no mundo?

Douglas Reis
Uma das paixões de Bruno é a velocidade em duas rodas; no quadro, uma foto dele correndo com sua moto esportiva

Bruno - Inglaterra, França, Austrália e África do Sul são países com cursos básicos. Já o curso de saturação tem apenas na Inglaterra e na França. São várias as especializações que se pode fazer. Eu sou mergulhador de construção especializado em solda, mas meu trabalho principal é de inspeção. Também tenho certificado de mergulhador médico.

JC - Seja pela vida marinha ou pelos equipamentos e maquinários, os riscos estão sempre presentes no seu dia a dia de trabalho. Quais momentos de tensão você já viveu?

Bruno - Na região do Catar, têm muitos peixes-leão. É um animal com muitos espinhos que são doloridos e com um veneno forte. Já socorri um amigo que feriu a mão toda com um deles. Também já machuquei o meu dedo com esse peixe. Sou muito cuidadoso com maquinário, mas também já aconteceu de um cabo de alta pressão estourar com 7 mil psi de pressão. O supervisor desligou o aparelho a tempo, mas se me pegasse na pele, lacerava.

JC - Tem algum exemplo em que se espelha profissionalmente?

Bruno - Tenho um amigo que foi sequestrado na floresta na Nigéria. Os sequestradores davam tiros para todo lado e pediam um resgate alto. No final, a empresa pagou pelo resgate e ele foi solto. Ele nunca mais teve contato com os parceiros, porque não quiseram voltar para a indústria. Ele voltou e é meu parceiro. É uma história bem chocante que pegamos como um exemplo. É uma das pessoas que eu admiro bastante.

JC - E você não tem medo?

Bruno - Todos temos medo, mas eu não entro em pânico. Confio no treinamento que recebi e sei que sou capaz de me resolver. Eu tenho respeito pelo trabalho. Consciência dos riscos que corro. Eu já tive problemas a dois metros de profundidade, com encanamentos de seis toneladas levantando, o que poderia ter custado o meu braço. Então, a responsabilidade no fundo ou no "raso" é a mesma.

JC - Como a sua família lida com a sua profissão?

Bruno - No começo eles não entendiam muito bem, minha mãe também ficava muito preocupada, mas ao poucos foram se acostumando. Eu falo com eles sempre que posso, quase diariamente. E quando volto para Bauru, aproveitamos para ficarmos juntos. Mato a saudade das minhas duas sobrinhas também. Uma delas conta os dias para o "tio Bruno" chegar. Hoje em dia, acho que meus pais ficam mais apreensivos quando eu pego a moto, do que quando estou trabalhando.

JC - A moto também é uma paixão?

Bruno - Sim, uma das minhas maiores paixões. Fico dois meses trabalhando e tenho um mês livre. Neste tempo, costumo correr em circuitos com a minha moto esportiva. Sempre vi os MotoGPs na televisão e tinha muita vontade. Fiz curso com o Leandro Mello, da revista Duas Rodas, e comecei a correr. Meu irmão também gosta de motos. Então, fizemos uma viagem juntos, no ano passado, pela América do Sul por 36 dias, acampando em praias. Também, como hobby, gosto de mergulho recreativo. Já fui para Noronha. Também leio bastante.

JC - Você também está fazendo encontros sobre o mercado financeiro. É outro hobby?

Bruno - Sim, não pretendo ter nenhum ganho com isso. É só um compartilhar de ideias. Estou lendo bastante sobre e aproveitando para fazer um bate-papo em um grupo de oito amigos interessados em investimentos no mercado financeiro. É um hobby meu. Agora, que vou embora, continuaremos nos falando por mensagens, mas assim que eu voltar faremos mais encontros.

JC - Você sente o impacto da profissão na sua saúde?

Bruno - Sinto um cansaço bastante grande. Nós perdemos muita hemoglobina, então demora em torno de uma semana para voltar ao normal. Mas temos um período de 48 horas sem esforço físico, só caminhando para ir retornando aos poucos. Também passo por uma bateria de exames para estar apto a ir para um próximo trabalho.

JC - E você tem planos de deixar o fundo do mar, ficar só na superfície?

Bruno - No momento ainda não. Talvez eu comece a atuar só como supervisor e pare de mergulhar. Penso que não tem motivo parar agora. Mas gostaria de diminuir a carga.

 

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