| Samantha Ciuffa |
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| Aos 59 anos, Terezinha Jordão empurra seu carrinho de recicláveis: R$ 200,00 ao final do mês |
Aos 59 anos e com três filhos desempregados vivendo sob o mesmo teto, Terezinha Jordão encontrou nas ruas um meio para conseguir sobreviver. Há um ano, ela se tornou catadora de materiais recicláveis, somando-se a uma legião de moradores da cidade que disputam, em cada lixeira, os resíduos descartados que podem ser transformados em dinheiro.
Embora não haja estatísticas oficiais sobre este segmento da população, autoridades e pessoas que lidam diretamente com a reciclagem, incluindo os próprios catadores, são unânimes em afirmar: nos últimos dois anos, a concorrência entre eles aumentou muito.
É algo que a própria Terezinha, com apenas um ano de experiência, já consegue sentir. "No começo, eu vendia cerca de 90 quilos por semana. Agora, junto 30 quilos e olhe lá. É muita moçada, gente nova que começou a pegar. Só de olhar, a gente sabe que eram pessoas que trabalhavam em firma e ficaram desempregadas. A crise pegou todo mundo", observa.
Terezinha é apenas um dos inúmeros catadores que se arriscam com seus carrinhos em meio ao trânsito da cidade.
O fenômeno social, além de ser uma demonstração clara da dificuldade do País em recuperar as vagas de emprego perdidas desde 2015, também gera preocupação devido aos riscos de acidentes.
Titular da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), Sidnei Rodrigues classifica como "gigantesco" o crescimento do número de catadores de materiais recicláveis em Bauru. Ele analisa que, como não existe uma padronização sobre os modelos dos carrinhos ou mesmo regras estabelecidas quanto à circulação nas vias públicas, a disputa pelo uso do espaço em meio aos veículos motorizados tem crescido de forma desordenada.
"Alguns carrinhos são gigantes, com muito peso e difíceis de serem conduzidos. Na região do Nova Esperança, que abrange o Jaraguá e Fortunato Rocha Lima, há uma quantidade de imensa destes carrinhos. No final do dia, quando a visibilidade já não está tão boa, o risco para a vida das pessoas é grande", destaca.
PESO E RISCO
Foi nestas condições que a reportagem encontrou Terezinha caminhando na avenida Pinheiro Machado, no Parque Santa Edwirges. O trabalho arriscado e pesado, ela explica, é necessário para garantir a sobrevivência mínima da família.
Depois de trabalhar boa parte da vida sem registro como faxineira, Terezinha não conseguiu se aposentar e, com a idade, perdeu a mobilidade que a função exige. Ainda com força nos braços, decidiu começar a empurrar um carrinho de materiais recicláveis, onde consegue carregar cerca de 50 quilos de uma só vez.
Com a expectativa de somar algo em torno de R$ 200,00 ao final do mês, ela segue sozinha pelas ruas da região do Parque Jaraguá, já que os três filhos, jovens, têm vergonha de acompanhá-la. "Ando cerca de oito horas por dia, mas o dinheiro acaba sendo pouco. Além de trabalhar pesado, a gente precisa se virar, correr atrás de ajuda, de doação da prefeitura para todo mundo da família conseguir sobreviver", revela.
Além do risco de acidentes, Sidnei Rodrigues ressalta que, sem o uso de equipamentos de segurança adequados, os catadores informais também estão mais expostos a doenças devido ao contato permanente com materiais contaminados. "Também nos preocupa a expansão dos depósitos onde os catadores vendem os materiais recicláveis. Estes locais são monitorados pela Secretaria Municipal de Saúde por conta de criadouros do mosquito transmissor da dengue e também são vulneráveis a incêndios", completa.
Expansão já impacta nas cooperativas locais
| Samantha Ciuffa |
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| No ramo há dez anos, Marcos Aurélio de Souza também viu o total de catadores se multiplicar |
Para ampliar a renda, os catadores de recicláveis informais procuram circular pelos bairros da cidade nos dias de coleta seletiva. Antes da passagem dos caminhões da prefeitura, eles já retiraram das lixeiras das residências e dos estabelecimentos comerciais os materiais de interesse.
Pessoas como Marcos Aurélio de Souza, 40 anos, chegam a sair de casa às 4h da madrugada para ter chances de colocar no carrinho os resíduos mais nobres, como ferro e alumínio. E, com tanta disputa, as cooperativas de recicláveis de Bauru já sentem queda brusca no volume destinado pela prefeitura.
"Os catadores informais saem na frente porque sabem a hora em que o reciclável vai estar na rua. Eles levam só o que tiver bom preço de venda. Para a cooperativa, sobra o resto. Latinhas de alumínio, por exemplo, chegam em muito pouca quantidade para nós", reclama Gisele Moretti, presidente da Coopeco, uma das três cooperativas cadastradas. "Nós, que temos um compromisso com a preservação do meio ambiente, acabamos prejudicados", acrescenta.
Com dez anos no ramo, Marcos Aurélio - que já trabalhou como frentista, pedreiro e auxiliar administrativo - afirma que os catadores sofrem com a concorrência. Mesmo trabalhando desde a madrugada até o final da tarde, ele tem recebido cerca de R$ 70,00 reais por semana com o material que acumula e vende a um depósito da região do Parque Jaraguá.
"No carrinho, dá para carregar mais de 200 quilos. Mas dificilmente chega nesse peso hoje em dia. A gente pega mais papelão, garrafa pet. Coisa que paga melhor, como metal, latinha de alumínio, cobre, a gente não acha muito fácil. A concorrência está grande", diz.
'A gente vê um monte de gente com carrinho'
Assim como Marcos Aurélio de Souza, o catador Carlos Alberto da Silva, 51 anos, avalia que a concorrência no segmento deu um salto significativo nos últimos dois anos.
Atuando na região dos jardins Cruzeiro do Sul, Brasil e Contorno há dez anos, ele viu o perfil de catadores mudar ao longo do tempo.
"Agora, a gente vê um monte de gente com carrinho, muito garoto novo", diz.
Com acirramento da disputa pelos resíduos mais nobres, ele conta que, para fazer um bom dinheiro, é preciso carregar muito peso e trabalhar por mais horas em um mesmo dia.
"Já cheguei a carregar 400 quilos, mais o peso da carroça, que é de 100 quilos. A gente pega mais plástico, papelão. Precisa de muita quantidade. Em um dia muito bom, a gente tira uns R$ 50,00 por dia", conta. Muitos destes catadores, como é o caso de Terezinha Jordão, dependem da assistência oferecida pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) para contornar seu estado de vulnerabilidade. Segundo dados da pasta, em junho deste ano, a cidade possuía 38.670 famílias, totalizando 95.373 pessoas, inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), que engloba os dependentes de auxílio municipal, estadual ou federal para sobreviver ou minimizar a precariedade de suas condições de vida.
Titular da Sebes, Carlos Fernandes diz que a pasta tem se esforçado para, dentro do orçamento disponível, dar conta de toda a demanda apresentada por esta população.
"A dificuldade econômica está imensa para muitas pessoas que, sem emprego, precisam buscar alguma fonte de renda", aponta. Por meio do CadÚnico, famílias de baixa renda podem ter acesso a benefícios de 20 programas sociais.

