| Malavolta Jr. |
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| Luciano Olavo: intelecto e inquietude em prol de mudanças |
Carioca do bairro Piedade, Luciano Olavo da Silva, 45 anos, é irrequieto e não gosta da zona de conforto social. Observar apenas uma margem do rio, nunca! Analista judiciário há 11 anos na 23.ª Zona Eleitoral de Bauru, ele foi, apenas aos 16 de idade, para a escola de aprendiz de marinheiro em Santa Catarina. A carreira do jovem prosseguiu o roteiro militar em submarino e, logo em seguida, ingressou no Exército. Aprovado no concurso público para analista, assumiu no Tribunal Regional Eleitoral em Rondônia. Continuou estudando e foi aprovado para a mesma função pública no Estado de São Paulo, nesta fase, ingressando na carreira em Bauru. E aqui está, desde então.
A inquietude e a vontade natural de descobrir e discutir novos conteúdos o levou a criar o Philos, um grupo para discussão sobre filosofia que, por dois anos, fez encontros mensais no espaço Café com Política do JC. Especialista em direito eleitoral, o servidor público integrou o grupo que levou à criação da Batra, ONG que promoveu e levantou ações pela transparência pública em Bauru. Em sua área, publicou, em 2012, o livro Direito Eleitoral para Provas e Concursos.
Observador das regras do sistema político e eleitoral, como cidadão, Luciano tem dedicado algum tempo para palestras e encontros com estudantes e grupos organizados. Amante do paraquedismo e das caminhadas por montanhas (trekking), o pai de David e marido de Priscila Aznar de Brito Silva não quer se sentir "um estranho no ninho" no meio em que vive. Gosta do filme de Milos Forman, com o mesmo título; carrega "Stand by me", composição de Ben E. King, em sua memória musical; mergulha no ar sem medo, mesmo sem asas; e se incomoda - muito - com a omissão das pessoas.
Luciano Olavo nos conta sobre sua busca pelo desconhecido e, com ou sem trocadilho, não é paraquedista social:
Jornal Cidade - Que tal a experiência do jovem que deixou o Rio para ir para a escola de marinheiro em Santa Catarina?
| Malavolta Jr. |
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| Luciano Olavo durante reunião no Cartório Eleitoral em 2016 |
Luciano Olavo da Silva - Olha, quando eu fui para Santa Catarina, na escola de aprendiz de marinheiro, eu nunca tinha dormido antes fora de minha casa. Então, foi como ir para outro planeta. Sou carioca, um lugar muito quente, e com uma infância com a mãe protetora. E eu fui para outro Estado, onde não existia ninguém de minha família, com clima totalmente diferente, para uma vida que eu nem imaginava e para viver no regime de um internato. E, depois, veio o submarino. Eu sempre tive muito gosto por fazer coisas que outras pessoas não queriam fazer. Então, minha escolha causou uma grande surpresa. Não me arrependi. Foi uma vida muito dura, como é no aprendizado em um submarino. Mas foi um período ímpar. Quantos pessoas você conhece que viajaram e conviveram em um submarino? Foi único. Mas, nunca tive problema com disciplina, por exemplo, que veio com a experiência no Exército em seguida. Porque disciplina já era uma agenda de aprendizado em minha casa.
JC - E, depois dessa fase, você vai para outra área e outro lugar. Entra na Justiça Eleitoral em Rondônia, certo?
| Arquivo Pessoal |
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| Família: Luciano com o filho David e a esposa Priscila Aznar |
Luciano - Eu sou aquele sujeito que está em uma margem do rio e quer, logo, conhecer a outra. Eu estava na vida militar. E, do ponto de vista militar, o mundo tem de adaptar ao quartel e não o quartel se adaptar ao mundo. Mas, eu queria conhecer outro mundo também. Queria trabalhar como civil, coisa que, até então, nunca tinha feito. E, quando eu resolvi trabalhar na Justiça Eleitoral, era o contraponto da democracia. Eu quis ir na margem oposta e, por isso, busquei a Justiça Eleitoral.
JC- E de que forma essa característica, hoje latente, de não se contentar em saber a aplicação da norma, mas de pensar a leitura social da lei, te move?
Luciano - Olha, minha curiosidade por esses temas de Direito Eleitoral surgiu já na adolescência. Eu ingressei na Marinha com 16 anos de idade e, na época, havia grande comoção social em torno do Collor (presidente). E isso moveu em mim e em muitos outros jovens da época essa curiosidade pela política. Para nós, naquele instante, era uma descoberta entender nosso País que saia de um regime para a democracia. E fui alimentando isso naturalmente durante minha vida. Já na Faculdade de Direito, fui canalizando essa minha curiosidade para a área. A monografia foi na área eleitoral. Aliás, uma área que nem era ofertada no curso de graduação. Foi um feliz encontro do preparo com a oportunidade.
JC - E como é o sentimento de que as mesmas angústias sobre seu País, que o moveram jovem, no início da redemocratização, ainda estão presentes?
Luciano - Então, essa situação do País, de novo ruim, traz uma janela de oportunidades que nós não podemos perder. Porque, no meu caso, os eventos da retomada democrática despertaram uma curiosidade que, hoje, transformam minha vida. Se você verificar o último censo do eleitorado do TSE, vai perceber que o número de jovens alistados na faixa facultativa do voto, entre 16 a 18 anos incompletos, aumentou. E é porque enfrentamos de novo essas questões de perigo para a democracia. O que aconteceu no início dos anos 90 está acontecendo de novo agora. E não podemos perder a oportunidade de, mesmo na crise, motivar os jovens novamente a que despertem para a participação nessa fase da vida política do País.
JC - Também por isso você tem percorrido escolas, grupos, com palestras de orientação? O que você sente desses jovens?
| Arquivo pessoal |
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| Entre seus esportes favoritos, está o paraquedismo |
Luciano - Consigo observar essa inquietação. Ontem, (quinta-feira), fiz palestra no Ceesub para o pessoal do Ceeja. E, para minha surpresa, havia um auditório lotado, com gente sentada até nos corredores. E fiquei na palestra até 22h sem que as pessoas quisessem ir embora. Elas queriam saber mais e perguntar mais. Então, essa mítica de que o brasileiro não tem interesse sobre política é mentira. O que não há é conhecimento sobre o interesse por política. Quando o conhecimento chega até as pessoas, o interesse por política nasce naturalmente. E esses cidadãos percebem que são manobrados exatamente por desconhecerem as regras do jogo.
JC - Essa inquietação está em você...
Luciano - Tenho, não sei explicar a genesi disso, uma certa inquietação contra a covardia. E acho extremamente covarde você colocar uma pessoa para jogar uma partida de algo que ela não conhece as regras. O que é feito com o cidadão na eleição é exatamente isso. Ele é convocado a partir de um sistema eleitoral cujas regras ele não conhece, em sua maioria. Por mais que sejam atentos, na hora de votar, o eleitor não conhece a regra. De fato, algumas coisas precisam ser alteradas no modelo político-eleitoral. Mas isso só será válido, efetivo, se essa informação chegar no eleitorado.
JC - E que sentimento isso lhe traz? Essa desinformação em massa e em um momento com o País neste lamaçal?
Luciano - Isso me assusta muito. E os efeitos disso, apesar de tão gigantescos, não são discutidos na sociedade. Vejo que esse desconhecimento da população leva mais de um quarto do eleitorado a votar em branco, a votar nulo ou a faltar no dia de votar. Isso diminui o quociente eleitoral, facilita a compra de votos, fortalece a manutenção de currais e caciques e mantém o País sob domínio desses que a sociedade tanto critica. Em um País onde quem deixa de votar ou vota nulo ou branco é de uma população maior do que o Canadá, imagine o mal que isso causa para a democracia e a vida dessas mesmas pessoas. O voto nulo ou branco, feito para muitos como protesto, fortalece exatamente o pior e o que a maioria reclama. Para mim, voto é a manifestação de vontade e não de protesto. Felizmente ou não, o voto foi projetado para ser manifestação de vontade e não de protesto. A pessoa tem o direito de protestar, mas a ferramenta para isso não é o voto. Os protestos devem vir por outras ferramentas. E a matemática do sistema eleitoral confirma isso. Quem não vota ajuda e muito a eleger quem ela não quer.



