Barrado no baile eleitoral, a segunda parte da estratégia de Lula será a de transferir prestígio para Fernando Haddad. Mesmo preso e condenado a 12 anos por corrupção e lavagem de dinheiro, Lula chegou perto dos 40% nas pesquisas de intenções de voto. Se conseguir repassar, pelo menos a metade desse potencial, o vice de Lula poderá chegar ao segundo turno. Haddad é uma espécie de cavalo do candomblé, "aquele que se deixa cavalgar pela divindade, que se apropria do corpo e da mente do iniciado". Quando todos querem que se combata a corrupção, um condenado pelo recebimento de propina consegue a maior adesão popular sem sair da cadeia. Do outro lado estará o candidato de extrema direita, Jair Bolsonaro, conhecido por desafiar o maior tabu do mundo moderno, o "politicamente correto".
Essas contradições da sociedade já produziram matéria-prima ao Teatro do Absurdo. O dramaturgo Eugène Ionesco, autor de " Rinoceronte" (1959), pretendeu, justamente, retratar por metáforas essa alternância entre espanto/encantamento com mistura do burlesco/com o trágico. Na peça teatral, em uma pequena cidade, os moradores são atacados de "rinocerontite". A doença ataca tanto os totalitários da esquerda, como da direita. Representa, também, a força do conformismo. A manada de rinocerontes invade a comunidade e arrasta tudo e todos no tropel. Essa rinoformização é uma forma de controle político. A estupefação é tão grande que, segundo o Datafolha, 38% dos eleitores estão indecisos. Não sabem quem escolher, ou vão votar em branco, ou anular o voto. Comenta um especialista em cenários eleitorais, que há vinte anos isso não ocorria nesta altura da disputa. Há um recorde de rejeição aos políticos por parte dos eleitores mais exigentes.
O animal de Ionesco, que se esconde em nós, chegou a se transformar em um real unicórnio e quatro patas. Aconteceu em 1959, quando o rinoceronte Cacareco recebeu 100 mil votos para a Câmara de Vereadores de São Paulo. O partido mais votado não chegou a 95 mil. Foi notícia de primeira página no New York Times. À época, a maior demonstração de voto de protesto da história política brasileira. Hoje, a carcaça do bicho pode ser vista, empalhada, no Museu de Veterinária da USP. Em 1988, o fenômeno do candidato animal voltou a surgir, no Rio. O macaco Tião, um chimpanzé que atirava fezes nos visitantes do zoo, recebeu 400 mil votos. Havia sido lançado pelo Partido Bananante do Brasil à Prefeitura do Rio de Janeiro. Acabou no Guinnes Book como o macaco mais votado do mundo.
No Teatro do Absurdo, os personagens às vezes procuram se cercar de circunstâncias supostamente tranquilizadoras, como a figura alegre do palhaço. Daí a explicação para o efeito Tiririca, o comediante que recebeu mais de um milhão de votos para deputado federal. Ou os 4,6 milhões de votos do Romário, para senador pelo Rio. Há também os que anseiam por um salvador da pátria. No teatro de Becket, as pessoas esperam eternamente uma pessoa chamada Godot. O inconformismo é tão grande que há quem acorde de manhã transformada em inseto, como na Metamorfose, de Kafka.
São 147 milhões de eleitores aptos a votar daqui a 34 dias. Grande parte desses cidadãos se sentem agredidos, há anos, por uma visão de sociedade, da política e da vida que afronta diretamente os seus valores e convicções. Acabam achando que a defesa do seu mundo depende de posturas as mais extremadas, dentre as que circulam na praça. A besta-fera do radicalismo que hoje assusta, estava apenas hibernando. Tiraram o bicho da toca, agora fica complicado se livrar dele. O professor de Harvard, Steven Levitsky, coautor de "Como as democracias morrem", em artigo sobre o quadro eleitoral brasileiro cita Bolsonaro como abertamente autoritário, mais que Chávez, Fujimori e o turco Edorgan.
O candidato em primeiro lugar (cenário sem Lula), insurge-se contra as regras democráticas do jogo, elogia a última ditadura brasileira e questiona a legitimidade da democracia no país. Ainda encoraja a violência. Chega a negar a legitimidade de seus oponentes e define o sistema eleitoral brasileiro como "viciado". O MST, para ele, não passa de um bando de "terroristas".
Milhões o apoiam, como uma forma de se livrar desse mal-estar. Coisas malparadas, que não se engrenam. É a angústia própria do homem contemporâneo numa insensata sociedade de massas. A tecnologia produz alienação, conformismo e fascínio pelo irracionalismo e fanatismo coletivo. Um absurdo. Os rinocerontes estão chegando. Saia da frente.