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A mítica infantil do 'felizes para sempre'

Luciano Olavo da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

A cultura popular nos impõe a felicidade como valor absoluto a ser alcançado e mantido. Já a infelicidade, considerada má em si, seria um estado intolerável do qual nenhum proveito pode ser extraído, uma maldição pessoal, não um fato geral da vida, essencial para o progresso. Estamos corretos?

Família, saúde, amor, todos os bens da vida desejamos por acreditarmos, com maior ou menor clareza, que são utilizados na persecução da felicidade. Apenas a própria felicidade é desejada por si mesma, como fim último, além do qual não há objetivos maiores ou melhores. Felicidade não é ferramenta para nada, mas o fim a favor do qual todas as ferramentas são empregadas. Essa é a opinião de Aristóteles: "chamamos de absoluto e incondicional aquilo que sempre é desejável por si mesmo e nunca no interesse de outra coisa. Ora, esse é o conceito que preeminentemente fazemos da felicidade."

Então, considerada a natureza da felicidade (objetivo final de toda ação e desejo), percebe-se que um estado de ser feliz permanente colocaria o indivíduo em seu objetivo mais elevado por toda a vida, o que esvaziaria de utilidade e sentido qualquer movimento humano, gerando uma inércia perene e paralisante da existência. Isso porque, para Aristóteles, o homem feliz está no fim último, e, portanto, é "autossuficiente" e "carente de nada" durante o tempo em que é feliz. Ora, quem é autossuficiente e carente de nada o tempo todo, que motivação tem para desejar ou praticar o que quer que seja?

Felicidade, na pragmática visão aristotélica, é necessariamente precária e episódica, pois o movimento que caracteriza a vida ocorre justamente quando o indivíduo transita entre os episódios felizes que experimenta. Logo, não é um modo perpétuo de "ser", é um lugar para "estar" intermitentemente. Há ilhas episódicas de felicidade por onde transitamos, mas não nos estabelecemos em definitivo. Elas são cercadas pelo mar de desconfortos materiais e emocionais do cotidiano, que forçadamente atravessamos em busca de novas ilhas assim que somos desalojados da que ocupamos antes. Aproveite o abrigo efêmero, mas tenha consciência de que, para sua sorte, as circunstâncias em algum momento te farão partir, e você precisará navegar pelo desconforto até outra ilha que te acolha novamente. O movimento de busca por essas ilhas de felicidade é o que chamamos vida, e quando ele se torna impossível ou indesejado, provavelmente estamos mortos, doentes ou desejantes do fim.

Buscar felicidade produz o movimento que dá sentido e conteúdo à vida. Sem isso, como progrediríamos? Quais seriam nossas realizações? Talvez por não encontrar boas respostas a estas questões, Thomas Jefferson, na declaração de independência dos Estados Unidos (1776), sabiamente disse que todo homem tem direito "à busca da felicidade", não propriamente à felicidade, que não pode e nem deve ser tomada como direito passível de ser permanentemente assegurado.

Para Victor Hugo, "os infelizes são ingratos; e isso faz parte da infelicidade deles". Não seja ingrato à infelicidade se não quiser permanecer para sempre nela. Lembre-se que foi para fugir da infelicidade que você navegou pela vida e chegou a cada ilha feliz que conheceu. O que não te matou, te deu forças para remar, explorar novos horizontes e realizar as surpreendentes travessias que te levaram a eles. Com a dose certa de desapego, cada despedida tornou-se uma nova oportunidade de descobrimento, não a triste perda do velho estabelecimento.

Por fim, para que tenha acesso pleno à felicidade espalhada na vastidão do mundo, te desejo o mesmo vento da infelicidade que sempre te moveu pelo mar da vida, pois o jargão "viveram felizes para sempre" só cabe nas fábulas infantis de quem ainda não cresceu.

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