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Entrevista da semana: Luiz Antonio Silveira Ramos

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 7 min

Malavolta Jr.
Luiz Antonio Silveira Ramos coordena o Centro de Valorização da Vida em Bauru desde o início deste ano

Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, Luiz Antonio Silveira Ramos, de 53 anos, tem um sotaque quase que imperceptível. Detalhe que, certamente, também passou despercebido pelas milhares de pessoas que já encontraram nele, do outro lado da linha, o "amigo provisório" que tanto precisavam naquele momento de angústia. Luiz Antonio é o atual coordenador do Centro de Valorização da Vida (CVV) em Bauru, entidade que encabeça as ações do Setembro Amarelo, o mês de prevenção ao suicídio.

Formado em Engenharia de Produção, ele trabalha como corretor de imóveis. Entretanto, nas horas vagas, Luiz gosta mesmo é do voluntariado. "O voluntariado é um chamado", frisa. Inclusive, foi através deste serviço que ele aprendeu mais a ouvir do que a falar. Tal mudança de paradigma surtiu resultados positivos não só junto ao CVV, mas em sua vida pessoal e profissional. "Acho que a sociedade como um todo precisa aprender a ouvir mais", complementa.

A seguir, o marido de Ana Cláudia e o pai de Luiz Augusto fala sobre a sua trajetória até chegar a Bauru, além do envolvimento com o trabalho voluntário e como sua própria vida muda sempre ao lidar, do outro lado da linha, com uma outra vida.

Jornal da Cidade - Você nasceu no Rio de Janeiro. Como veio parar em Bauru?

Arquivo Pessoal
Luiz e o filho Luiz Augusto Salles Campbell Ramos, de 24 anos

Luiz Antonio Silveira Ramos - Na verdade, tudo começa lá atrás. O meu pai nasceu em Piratininga. O meu avô era fazendeiro nesta região. Em 1938, o meu avô se mudou para Bauru e, claro, o meu pai veio junto. Já adulto, o meu pai começou a trabalhar no Banco Noroeste, em Bauru, e, no ano de 1957, foi transferido para o Rio de Janeiro, onde conheceu a minha mãe e lá eu nasci. Em 1974, ele foi transferido para São Paulo e nós tivemos de nos mudar. Em 1990, o meu pai se aposentou e decidiu voltar a Bauru. Eu continuei em São Paulo, porque já era casado. Em 2001, me mudei para Santos, já que a minha esposa é santista. No final de 2007, nós viemos para Bauru, com o intuito de ficar mais perto do meu pai.

JC - Antes de 2007, você já havia visitado a cidade?

Arquivo Pessoal
Ana Cláudia e Luiz estão juntos desde dezembro de 1987

Luiz - Eu passava férias na cidade, pelo menos, duas vezes por ano. Além de estar próximo ao meu pai, a mudança para Bauru possibilitou maior qualidade de vida a mim e a minha família. Nesta época, o meu filho tinha 13 anos. Enfim, é uma cidade mais tranquila para criar um filho.

JC - E qual a sua formação?

Arquivo Pessoal
Ana Cláudia, Luiz, José Luiz Cardoso Ramos e Luiz Augusto

Luiz - Me formei em Engenharia de Produção, na Unip, em São Paulo, no ano de 1988, mas sempre trabalhei na área comercial, especificamente, da construção civil. Em Bauru, abri uma empresa de customização automotiva, que não deu muito certo. Há três anos e meio, sou corretor de imóveis. Não trabalhei até entrar na faculdade. A partir do 2.º ano da graduação, já fazia os meus estágios, inclusive, na Caterpillar, que é uma multinacional. Foi justamente neste momento em que decidi que não queria trabalhar em fábrica. Eu sou muito comunicativo e não teria oportunidade de desenvolver esta habilidade dentro deste tipo de empresa.

Arquivo Pessoal
Luiz, aos 3 anos, no bairro de Madureira, no Rio de Janeiro

JC - Como você conheceu a sua esposa?

Luiz - Nós nos conhecemos em dezembro de 1987 e nos casamos em abril de 1990. Eu morava em São Paulo, mas a minha família tinha casa de praia em Santos, onde a minha esposa, que é arquiteta, nasceu e morava até então. Logo que a conheci, já começamos a namorar e ela passou a viver em São Paulo comigo.

JC - E como o CVV entrou na sua vida?

Arquivo Pessoal
Luiz e a esposa, a arquiteta Ana Cláudia Salles Campbell Ramos

Luiz - Já conhecia o trabalho do CVV, mas nunca havia me envolvido com qualquer tipo de voluntariado. Em 2014, assisti a uma palestra no Centro Espírita Vicente de Paulo, em Bauru, que apresentou a entidade e o curso para a formação de voluntários. Me interessei e fiz o curso. De lá, não mais saí. Hoje, sou coordenador do posto, no município.

JC - Neste mês, especificamente, a entidade trabalha dobrado, afinal, estamos em pleno Setembro Amarelo. Qual é o objetivo desta iniciativa?

Luiz - A prevenção ao suicídio é feita durante o ano todo, porém, no dia 10 deste mês, foi celebrado o Dia Internacional de Prevenção ao Suicídio. Logo, intensificamos esta campanha, com o intuito de informar o maior número de pessoas sobre a existência de um serviço que atende quem se sente solitário, carente ou triste - não, necessariamente, aquele que pensa em se matar. 

JC - O senhor falou como conheceu o CVV. Mas o que fez com que se interessasse tanto assim pelo trabalho?

Luiz - O voluntariado tem um chamado. Quando você vê uma causa nobre como esta, você se sente chamado. O grande barato do CVV é o crescimento pessoal dos voluntários. Como nós lidamos com pessoas e sentimentos, precisamos conhecer muito bem ambas as coisas. Então, exige envolvimento, aprimoramento e estudo. É uma filosofia que pode ser aplicada, aos poucos, na sua vida pessoal e profissional. Só o fato de você ouvir mais do que você fala já surte bons resultados. Creio que estou aprendendo a agir desta forma, afinal, é um processo.

JC - Acha que a sociedade, como um todo, precisa aprender a ouvir mais?

Luiz - Sim, com certeza. Estamos vivendo uma sociedade muito intolerante, individualista, que ouve pouco e presta pouca atenção nos outros. Temos todos que ouvir mais. Se todos conhecessem mais o trabalho e a filosofia do CVV, certamente teríamos mais gente para ouvir o outro e muita coisa mudaria. Acredito muito nisso.

JC - O senhor tem um filho, certo?

Luiz - Sim. O Luiz Gustavo. Ele tem 24 anos, estudou Jornalismo, na USC, e está procurando emprego. Ele tem um blog e um canal no YouTube sobre futebol. Na verdade, o esporte, de forma geral, é a paixão dele.

JC - Acha que o CVV mudou sua relação com ele?

Luiz - Olha, eu acho que a relação entre pai e filho é algo que vai se construindo. Eu ainda sou filho e já tive a idade do meu filho. Então, sei, muitas vezes, as incertezas e dúvidas que passamos nesta idade. Mas, eu sempre tento ajudar da melhor maneira possível e sempre usando o que aprendi no CVV. Sempre ouvindo muito e procurando ajudá-lo.

JC - E qual a ligação que mais mexeu com você?

Luiz - Foi exatamente uma ligação de um rapaz na idade do meu filho, passando, mais ou menos, as mesmas situações. Então, ali, eu vi uma situação bem próxima dentro da minha casa. Isso mexeu comigo.

JC - Acredito que não é fácil... como é chegar em casa depois de um dia com muitas ligações pesadas?

Luiz - Na verdade, eu me sinto gratificado. Nesse trabalho, temos que entender que o problema é da outra pessoa e que nosso trabalho é ouvir. E entender que ela vai ter forças para superar isso em algum momento. Então, por tudo isso, eu não me sinto pesado. Traz até uma leveza saber que estou ajudando alguém.

JC - Isso que iria te perguntar... qual é a experiência, o sentimento de estar, todo o dia, ajudando alguém?

Luiz - Olha, além de ajudar alguém, a gente se ajuda muito ali no CVV. Como eu disse, o CVV é uma filosofia de vida. Não é só pra usar no telefone. É pra usar na nossa vida, com os nossos amigos, nossa família. Mas, a sensação de ajudar é sempre muito boa. Não trabalhamos para isso, mas a gente recebe algumas ligações agradecendo, com o retorno de pessoas dizendo que, em algum momento, utilizaram o serviço e foram ajudadas. Isso é muito gratificante, porque toda ligação é uma vida. É uma pessoa que está passando por um momento difícil e que, naquele momento, somos aquele 'amigo provisório' que ela não encontrou em nenhum outro lugar. Então, é gratificante.

JC - Por fim, você se considera uma pessoa feliz?

Luiz - Posso dizer que sim. Ainda mais quando eu ouço crianças de 13 anos falando de problemas, no CVV. Eu também passei por eles e sobrevivi. Então, posso dizer que sou uma pessoa feliz. 

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