Pela primeira vez com seu próprio partido, a candidata da Rede, Marina Silva, chega a duas semanas do primeiro turno com o risco de ter metade - ou menos - dos votos que conquistou em eleições anteriores, se a situação que as pesquisas projetam se concretizar. A ex-ministra perdeu metade das intenções de voto que tinha (12% para 6%) e despencou em quase todos os cenários, conforme o mais recente levantamento do Ibope.
As explicações, segundo o Estado apurou com a campanha e cientistas políticos, vão da falta de estrutura da Rede até o posicionamento pouco incisivo da candidata. A hipótese mais aventada é a de que Marina é considerada como uma "ótima segunda opção" na hora do voto.
Marina não apenas não conseguiu ampliar seu eleitorado como perdeu capital eleitoral e apresenta a segunda maior rejeição dentre os candidatos (26%), atrás só do candidato do PSL, Jair Bolsonaro (42%). O que dificulta uma reação é que a rejeição não está concentrada em um único setor, segue a mesma média em todos.
Alfredo Sirkis, ex-coordenador de campanha de Marina em 2010, diz que ela pode ter um papel fundamental no segundo turno. "Seja quem for para o segundo turno, a Marina, como grande líder da sociedade civil, vai jogar um papel importante para derrotar Bolsonaro."
Aliados tendem a diferenciar as dificuldades da candidata nesta eleição da anterior, mas admitem que neste ano a queda é mais preocupante. Há oito anos, sabiam que a probabilidade de ela ser eleita era baixa e que o importante era mostrar uma alternativa à polarização. Já em 2014, além de ela não ter se preparado para ser candidata a presidente, a falta de intimidade com uma estrutura de campanha e de partido (PSB) que não foram feitas para ela teriam afetado seu desempenho.
Neste ano, a ex-senadora disputa pela primeira vez com o seu partido, criado há três anos, com pouca estrutura e recursos. No período, elegeu seis prefeitos, mas perdeu importantes quadros e parlamentares, o que criou um problema a mais: ultrapassar a cláusula de barreira. Dentro do partido, algumas pessoas defendiam que Marina não se lançasse neste ano, para focarem em fortalecer a sigla. A tendência foi minoritária. Como resultado, até anteontem, a campanha de Marina foi a que mais recebeu repasses do partido, proporcionalmente. Mais da metade do fundo eleitoral foi destinado à disputa pelo Planalto.
Auxiliares defendem a tese de que o patamar de 12% refletia a incerteza em torno da candidatura petista e que a corrida eleitoral começou apenas quando Fernando Haddad virou cabeça de chapa. Segundo um aliado de Marina, ela desidrata neste cenário, porque é o segundo voto de muita gente. Uma explicação, diz, é que a sociedade polarizada está cada vez mais exigindo posicionamentos firmes e Marina não teria esse perfil.
Professora de ciência política da Unicamp, Andreia Freitas fala em efeito de "contágio". "Quando Marina cai nas pesquisas, os eleitores começam a desembarcar porque acham que ela não é mais competitiva."
'CRUZ E A ESPADA'
Marina Silva criticou o tom de violência usado por concorrentes durante a campanha. Para ela, o País precisa de união.
"Nós queremos um Brasil unido e a população brasileira tem uma grande responsabilidade. Não podemos permitir que as eleições se transformem em um plebiscito, uma escolha entre a cruz e a espada", afirmou.
Marina percorreu um trecho da Feira do Largo da Ordem, em Curitiba, na manhã de domingo (23), por cerca de duas horas. Acompanhada do candidato a vice, Eduardo Jorge, do candidato ao Senado, Flávio Arns (Rede), e ao governo do Paraná, Jorge Bernardi (Rede), a candidata fez uma pausa para o almoço. A agenda da tarde inclui uma visita à Pastoral da Criança, coordenada por Zilda Arns - tia do candidato Flávio Arns - durante vários anos.
Sobre a disputa eleitoral, Marina voltou a citar o clima em que está o pleito e se colocou como a alternativa a isso. " (Contra)A cruz da corrupção e a espada que estimula o ódio e o preconceito, nós somos a mudança que o Brasil precisa, as coisas boas vamos preservar e as coisas erradas nós vamos reparar e punir."
Para a candidata, há necessidade de uma mudança cultural em todo o País. "(Tem que) acabar com essa história de 'rouba, mas faz'; rouba, mas é de direita; rouba, mas faz reformas; rouba, mas qualquer coisa, tem que fazer sem roubar, porque quando não rouba, se faz mais. Tem que acabar o estímulo à violência, o desrespeito, porque quando a gente está unido a gente faz mais e faz melhor".
A candidata também afirmou que o País crescerá sob seu governo e o investimento prioritário será em educação. "6% do PIB já são investidos, vamos combater a corrupção e fazer o país crescer, mas com o que temos dá para fazer e muito melhor", e citou planos de carreira para mais professores. "São 2 milhões que atendem a 50 milhões de crianças e adolescentes", disse.
Além disso, garantiu também a criação de dois milhões de empregos em energia solar.
"Vamos criar dois milhões de novos empregos em energia solar, um novo ciclo de prosperidade econômica e social", afirmou.
A candidata a vice de Ciro Gomes (PDT), Katia Abreu, também circulou na Feira do Largo da Ordem juntamente com os candidatos ao Senado, Nelton Friedrich (PDT) e Roberto Requião (MDB), além de João Arruda (MDB), candidato ao governo estadual.