Articulistas

(D)efeito colateral da democracia

Juliano Rabello
| Tempo de leitura: 3 min

A política nacional vive um momento conturbado. O excesso de (des)informação a respeito de certos temas ou as polêmicas recentes envolvendo "figuras" tais como Jair Bolsonaro causam na mentalidade dos brasileiros uma confusão generalizada. A idolatria e o fanatismo que o "mito" desperta em grande parte da população têm me levado à seguinte questão: Como compreender o fenômeno Jair Bolsonaro?

É claro que podemos nos referir ao candidato de variadas formas, as mais usuais possíveis dentro dos clichês verborrágicos presentes nos discursos atuais, tais como: fascista, machista, homofóbico, racista, misógino, idólatra de torturador, etc. Sim, todos esses atributos são cabíveis e devem ser seriamente considerados (digo isso não apenas por uma simples aversão, mas principalmente por uma infeliz constatação de ordem empírica). Porém, a perspectiva sobre a qual quero colocar a pessoa em questão é outra.

Embora haja várias facetas em jogo para compreendermos os objetivos (políticos, econômicos e ideológicos) que sua candidatura representa, minha percepção é a de que Bolsonaro não é apenas um típico político oportunista; ele é o exemplo mais cabal do (d)efeito colateral da democracia.

Obviamente, não quero negar que democracia, ainda com todos os seus problemas existentes, seja o melhor sistema já criado pela nossa inteligência política. No entanto, em alguns casos, ela produz as condições necessárias que pode colocar em risco a própria ordem democrática.

A democracia é o regime que permite que qualquer pessoa participe das decisões, das agremiações, dos partidos, dos sindicatos. Ela possibilita a representatividade e a concentração de interesses e desejos políticos dos mais diversos. Ela é, literalmente, o "governo do povo". Levando em consideração que a política nem sempre se faz pelo viés racional, mas na maior parte das vezes pelos afetos humanos, devemos levar em conta que muito do que se pensa e se diz sobre determinados temas não passam pelo devido senso crítico. No entanto, o problema principal não está propriamente no caráter irracional dos afetos, mas sim na impossibilidade de sua exteriorização. Na medida em que são difíceis de serem assumidos e afirmados publicamente (dado o caráter anti-humanista que existe em sua base), certos afetos só encontram meios de serem objetivados na identificação política, pois as pessoas passam a se sentir representadas na figura de políticos que possam pactuar e propagar afetos semelhantes aos seus. Caracterizados pelo sentimento de aversão e pela dificuldade em aceitar os direitos fundamentais conquistados pelas camada minoritárias na sociedade (negros, pobres, índios, mulheres, comunidade LGBTs) a representação democrática reveste de impessoalidade algo que seria imoral ser assumido na esfera pública. Contudo, quando as pessoas encontram meios de expor tais afetos (normalmente legados ao âmbito privado), o que pode ser exteriorizado é uma espécie de "consciência coletiva" da pior natureza, o lado obscuro do ser humano.

Podemos dizer então que, enquanto idealização política, Bolsonaro se apresenta como esse tipo de subjetividade, que por estar presente em boa parte da sociedade brasileira, pôde no contexto atual ser potencializada e cristalizada de modo radical. No entanto, esta potencialização e cristalização, enquanto exteriorização dos afetos, tem uma forma específica de se apresentar cotidianamente, a saber: os discursos de ódio.

Vivemos um tempo em que a arte de dialogar (o lado positivo da democracia) concorre ao mesmo tempo com os discursos de ódio. Um discurso de ódio não se caracteriza apenas por ser um posicionamento contrário ao que um outro pensa, mas sobretudo por vislumbrar o anulamento/aniquilamento do outro. Neste cenário, as diferentes posições transformam-se em intolerância, e esta, levada às últimas consequências, radicam-se na brutalidade fascista. E o pior é que esses mesmos discursos, ao serem objetivados na figura de um suposto "salvador da pátria" vestem a carapuça da "mudança". O problema aqui está no fato de as pessoas, por estarem entorpecidas com tais discursos (por ignorância ou identificação), tornam-se incapazes de ver o nível de autoritarismo e violência que tal postura reivindica para si mesma, e com isso, perdem de vista os princípios democráticos, e principalmente, perdem de vistas sua própria humanidade. É esse lado sombrio que eu chamo aqui de (d)efeito colateral da democracia, que atualmente, temos em Jair Bolsonaro o exemplo mais emblemático.

O autor é professor de Filosofia.

Comentários

Comentários