Ciências

São 'vacinas' contra o câncer? Por Alberto Consolaro


| Tempo de leitura: 3 min

Vacina é uma forma de proteção para as doenças bacterianas, virais e outras. Descobriu-se quando animais lambiam as feridas dos outros e ficavam imunes e protegidos da doença! Quando se ingere pequenas quantidades de microrganismos vivos ou mortos, o corpo produz grandes quantidades de anticorpos e células prontas para matá-los, quando entrarem em nós. Os anticorpos também são chamados de imunoglobulinas e as células prontas para atacar são os linfócitos B, linfócitos T, células NK ou "natural killer" e macrófagos.

Pequenas doses do agressor enfraquecido ou morto são capazes de criar imunidade, protegendo-nos na vida. Nas epidemias, nem todos morrem. Os mais sortudos podem ser "vacinados" pelo contato com os doentes que o imuniza gradativamente. Em síntese: vacina é o próprio agressor ou um produto muito semelhante a ele, que injetado no corpo estimula-se a criar uma imunidade, quase permanente e exclusiva.

QUEM ATUA?

Tem cinco modelos de anticorpos ou imunoglobulinas (G, M, A, D e E), como se fossem modelos de armas. Atuam apenas contra agressores para as quais foram formados, são específicos, não servem para todos os agressores. São fabricados pelos linfócitos B, às vezes chamados de plasmócitos! Quando são produzidos por linfócitos B vindos de uma célula-clone, são chamados de "anticorpos monoclonais". Quando veem de linfócitos B de vários clones, são ditos de "policlonais" ou feitos em várias fábricas!

Ao encontrarem a bactéria, vírus ou célula estranha para a qual foram produzidos, os anticorpos, como flocos de gel, grudam e não soltam mais; começam a ativar enzimas e toxinas para perfurar, matando-os! As células programadas para atuar nos agressores também encostam e grudam-se em "receptores de superfície" tipo tomadas ou ganchos, liberando produtos que os matam impiedosamente!

IMUNOTERAPIA

Em laboratório, com culturas celulares e tecnologia, se pode fabricar "anticorpos monoclonais" contra o câncer do paciente e suas proteínas. Injetados, procuram e grudam-se nas células cancerosas liberando enzimas e toxinas para matá-las ou induzindo-as ao suicídio ou apoptose. Também, já podemos pegar linfócitos T do paciente, levá-las ao laboratório e ensiná-las com genes a reconhecer as células cancerosas e armá-las com receptores para que grudem nelas células e lancem enzimas e toxinas para matá-las. Esta técnica é a de Linfócitos T com Receptor para Antígenos Quiméricos (CAR em inglês) que são reinjetadas no paciente em grandes quantidades. Esta terapia tem funcionado em canceres como linfomas e leucemias, mas reservada para quando todos os outros tratamentos falharem. Custa mais de R$1 milhão.

Outra imunoterapia pega as células NK ou "natural killers" do paciente e, no laboratório, potencializa sua efetividade para matar células malignas. Também funciona para alguns canceres em pacientes onde os demais tratamentos falharam, sendo 20 vezes mais barato que a terapia com as "CAR T". Alguns tumores são tão malignos que desligam as células do sistema imunológico e seus mecanismos, para que possam tomar conta do corpo. Algumas drogas entram no corpo e religam os sistemas e são por isto chamadas de "inibidoras de checkpoint".

INTERESSANTE

Estas imunoterapias são patenteadas e autorizadas e o preço muito alto! Muitos estudos avaliam em que tipos de câncer funcionam, apesar de já eficientes em alguns. As pesquisas feitas em humanos testando estes produtos são autorizadas. Se achar interessante participar de um destes estudos, pode-se informar em (https://www.clinicaltrials.gov) (https://www.ensaiosclinicos.gov.br) ou (https://www.vencerocancer.org.br). Não são vacinas propriamente ditas, mas terapias imunológicas tão importantes quanto!

INCRÍVEL!

É muito difícil uniformizar a imunoterapia para o câncer em todas as pessoas! São centenas de tipos, mas além disto tem uma notícia pior: cada tipo de câncer, com o mesmo diagnóstico, difere de paciente para paciente nas suas proteínas e estruturação. Cada câncer, mesmo que igual, é diferente em cada paciente. Não tem jeito: para cada pessoa com câncer, a terapia deve ser personalizada!

Até nisto cada um é cada um!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC. 

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