Tribuna do Leitor

Teste de resistência

Lázaro Carneiro
| Tempo de leitura: 2 min

Não era um grande rio, uns 10 metros mais ou menos, mais uns 10 de banhado em cada lado e já se vão 30 metros que eram sempre rasgado no peito por boiadas e tropas que usavam a estrada por aquelas bandas. O progresso rondava a região e já se falavam em uma jardineira que poderia correr por ali ao menos uma vez por dia se houvesse ponte sobre o rio que separava dois municípios.

Os prefeitos de ambos os lados do rio alegavam falta de verbas para construção, mas a premente necessidade levou os moradores da região a tomar a frente da obra em verdadeiro mutirão de carpinteiros que embrenharam na mata em busca de madeira Os fazendeiros apoiaram de imediato uns; iam pessoalmente, outros mandavam empregados; um verdadeiro rebuliço.

Em menos de uma semana os dois lados do rio estava puído e ocupado por montes de toras, grandes carretões de bois abriam imensas clareiras e picadas na mata virgem, desde o clarear do dia até o escurecer as vizinhanças podiam ouvir bater de machados e quedas de arvores que roncavam mata adentro intercalados com estouro de cipós que juntas de bois levavam enroscados nas cangas e, em dez dias a madeira estava pronta e separada. Eram toras de cabriúva e aroeira para esteio e vigas, pranchões de peroba rosa desdobradas a traçador para assoalho.

Diante da boa vontade dos futuros usuários, um dos prefeitos resolveu disponibilizar um engenheiro para acompanhar a obra, pois precisava ter garantias quanta a resistência da ponte depois de pronta, uma vez que por ali iriam transitar jardineiras e caminhões de mercadorias e produção agrícola, mas sua maior preocupação era justamente o dia da festa de inauguração, pois alem do prefeito e todo o seu séqüito viria também vários prefeitos da região para recepcionar um candidato a deputado. Portanto previa-se uma grande concentrarão de pessoas sobre a ponte em horário simultâneo.

Passado 40 dias de intenso e árduo trabalho, onde gritos de carreiros e carroceiros que duetavam em ecos pelas matas que sombreava as margens do rio, a ponte estava pronta .para ser entregue a população.

Já cansado de ouvir causos de desconfianças dos caipiras sobre a resistência da ponte e historias de outras similares que desabaram em plena inauguração, o engenheiro deixou o canteiro de obras para só voltar com a comitiva inaugural.

Um dos fazendeiros, precavido com a segurança dos políticos, resolveu submeter a ponte a um teste de resistência e para isso improvisou uma cerca em uma das cabeceiras da ponte e tocou para lá uma boiada até encher todo o vão livre da ponte e, em seguida, fechou a cabeceira de entrada deixando lá a boiada presa a noite toda; só soltou o gado quando a comitiva do prefeito se fez presente. A ponte passou no teste de resistência, porem o chão ficou um pouco impróprio para comício; tava mais pra curral que pra palanque ...

 

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