Chegamos ao dia mais importante da mais disputada, histórica e histérica corrida eleitoral. Nunca houve uma eleição de tão difícil prognóstico e também, tão bizarra. Os dois campeões de votos são também os mais rejeitados. O duelo de convicções não termina hoje e nem no dia 28 de outubro, no segundo turno. Vai se estender além da posse do futuro presidente, seja quem for.
Petistas e antipetistas mostraram que o embate não é apenas restrito à arena virtual. O Brasil, transformado em um grande Facebook, está em plena disputa sobre o que será no futuro. Se havia algum pudor das elites em votar em Bolsonaro, seu crescimento nas pesquisas mostra que se dissipou. O mercado financeiro já o elegeu, como bem demonstram o avanço da Bolsa e a desvalorização do dólar. O discurso autoritário já não mete medo. O Centrão, com oito partidos de apoio a Alckmin se diluiu para aderir ao favorito. As mulheres já não escondem a vergonha de optarem pelo capitão da reserva, conhecido por seus arroubos misóginos. De um lado, o que é chamado de "esquerda", de outro, Bolsonaro. O retrato da polarização. O Brasil precisa de esforços unificados para sair da crise e apanhar os cacos.
Na edição de ontem, meu amigo Darcy Rodrigues lembra a República utópica de Platão (morreu em 347 a.C.). O Estado deveria ser governado pelos melhores e mais sábios. Escolhidos, não pelo voto dos cidadãos mediante formalidades que se distorcem ao longo do processo. Bastaria um simples processo de cooptação. Seriam fáceis de identificar aqueles capazes de empregar conhecimentos teóricos à vida real. Os "filósofos-reis" teriam como compensação, não a riqueza material, mas a satisfação do cumprimento dos seus deveres na prestação de serviços públicos relevantes. Antes de Platão, Diógenes já saia pelas ruas com uma lanterna, procurando alguém honesto e capaz para governar o povo. "Onde está o homem?"
Para o sábio, que vivia nu dentro de um barril, essa pessoa deveria ser multiculturalista. Respeitar todas as culturas, já que nenhuma é melhor que outra. Não-xenófobo, não-racista, não-preconceituoso, não-discriminador. Diógenes nunca encontrou essa pessoa, em qualquer dos gêneros. O melhor regime seria aquele comandado por um "déspota-esclarecido". Incorruptível. Despido de vaidades e as presunções do poder. Cristo, morreu na cruz. Robespierre, na guilhotina.
Em Pindorama, pelo menos, que vença a democracia - como escreveu Darcy Rodrigues. A democracia que temos, custou a vida de muitos brasileiros. Sacrifícios e dores. Darcy pagou caro por suas convicções nas quais acredita. Um dia, numa palestra a estudantes, chamei-o de "herói vivo". Porque ainda está entre nós, fiel aos compromissos auto assumidos. Melhor do que os heróis mortos, transformados em bronze e sem mais utilidade. O cronista Lourenço Diaféria, - um passarinho incapaz de qualquer maldade, hoje no céu - um dia escreveu que a estátua equestre de Caxias servia somente de urinol aos passantes "apertados". Por isso foi preso pela ditadura.
Hoje, essa disputa de "rejeitados", por óbvio, não reduz a legitimidade do pleito. Como não torna de segunda categoria o político eleito. Importa é que a lei, as normas e as regras sejam cumpridas. Estará a salvo a democracia, como quer o meu amigo.
Ainda assim, comporta uma análise. Sinaliza problemas com o sistema de representatividade política. Existe um distanciamento entre a política e as ruas, ou as redes sociais, como queiram. A luta para modernizar os partidos, tornando-os mais representativos, continua difícil O financiamento público de campanha serviu para reforçar o monopólio dos caciques dirigentes no manejo do dinheiro da política. A prova dos danos está nesta eleição: a prioridade absoluta na distribuição desse dinheiro entre candidatos à reeleição vai para a cartolagem partidária. Significa impedir uma efetiva renovação de políticos. Se misturarmos tudo isso com a radicalização político-ideológica, o resultado é o que se vê nos elevados índices de rejeição.
Às urnas. Não há outro jeito. Democracia é isso. Acertos e desacertos. Sabemos que estamos criando um embate entre dois pesadelos brasileiros. Nossa história de corrupção, nossa história ditatorial. Não poderemos escolher o melhor dentre os sábios. Teremos de suspirar e tentar compreender o que será menos pior, na nossa escolha.