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Uma chance à democracia

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Muitos anos vão se passar, décadas talvez, e os cientistas políticos ainda estarão analisando os fatos ocorridos nas eleições gerais de 2018. Ênfase será dada à sucessão de episódios que marcam a campanha, com seus muitos rostos de barbárie: racismo, xenofobia, homofobia, sexismo e intolerância. Violência, já tivemos nos idos da Velha República, com mortes e atentados a presidenciáveis. O fenômeno de agora, ganha proporções inéditas na medida da sua maior visibilidade refletida nas redes sociais.

A divisão sectária do país não interessa a ninguém. Os candidatos ao segundo turno sabem o que poderá vir de ruim e tratam de apaziguar os seus seguidores. A facada em Bolsonaro, em Minas Gerais, chocou a todos e o assassinato do petista mestre de capoeira, na Bahia, chama a atenção do mundo para a possibilidade de um descontrole social, ruim para qualquer governo. O Alto Comissariado da ONU, "com profunda preocupação", contabilizou 70 ataques nos últimos dez dias. Foram atos de violência contra grupos LGTBS , mulheres e entre pessoas de posições políticas diferentes. Núcleo de pesquisas da FGV mapeou mais de 6 milhões de postagens nas redes sociais. Entre outras manifestações, 1,8 milhões eram de discriminação a nordestinos; 1,4 milhão de apoio ao nazifascismo; 1 milhão contra minorias LGBT; outro milhão, contra mulheres; e mais de um milhão contra evangélicos, comunistas e negros.

Sequer os profissionais da comunicação escapam dessas atitudes anticivilizatórias: 137 jornalistas sofreram ataques na temporada eleitoral, por meios digitais ou físicos. Passou da hora de restabelecermos a razão crítica contra o obscurantismo. Estamos num momento de divisão clara entre o culto à liberdade de opinião, entre o sentido de fraternidade, e o que há de impulso básico à anulação da inteligência crítica.

Nem tudo é caos nesta eleição. Há que se separar a parte boa. Deixa de existir o grande motor de coligações espúrias, o tempo de rádio e televisão. Os partidos políticos vão ter que se reinventar e começar a enfrentar a internet, se quiserem se comunicar com os eleitores e se manterem relevantes.

Deixam de existir 14 partidos nanicos, presos na cláusula de barreira. Eram partidos de aluguel, sem ideologia, com o objetivo apenas de vender espaço na propaganda eleitoral gratuita. Com a perda do poder de influência da TV-Rádio, chega ao fim, também, a era dos marqueteiros milionários, principalmente aqueles pagos com dinheiro de propinas depositado no exterior. Eles dão lugar a quem entende de Facebook e WhatsApp, hoje os canais preponderantes. Já é uma mexida, na medida em que as Fake News vão perdendo a importância, agora denunciadas pela própria mídia e ferramentas inventadas pelos provedores.

O candidato tucano Geraldo Alckmin tinha o latifúndio de espaço no rádio e na televisão e uma das maiores máquinas eleitorais do país. Nem chegou aos 5% dos votos. Sua coligação de 9 partidos recebeu R$ 186 milhões do Fundo Partidário. Bolsonaro, com oito segundos, tempo 39 vezes mais breve que os 5m33seg. de Alckmin, e uma bolsa de R$ 9 milhões, quase leva no primeiro turno, mesmo hospitalizado.

Mudança na Câmara Federal, com 52% de renovação. No Senado, o tsunami varreu 87% dos senadores, entre eles Eunício Oliveira (MDB-Ceará), presidente da Casa. Romero Jucá, ficou de fora depois de seis mandatos. Foi líder de FHC, Lula, Dilma e Temer. Um ex-fenômeno mimético. Coisas da democracia, assim como Marina Silva ter menos votos que o cabo Daciolo (Patriota). João Amoêdo, até então desconhecido do povo, dono de míseros segundos de propaganda eleitoral, conseguiu ultrapassar, além da Marina, Álvaro Dias e Henrique Meirelles que só perdiam em tempo de mídias tradicionais para Alckmin e Haddad.

Dinheiro e poder pré-estabelecido deixam e ser determinantes na campanha. Janaína Paschoal (PSL), a mais votada da história, gastou R$ 27.949,00 para receber dois milhões de votos. É verdade que a bancada BBB, na Câmara, ainda vai funcionar. A bancada do Boi, dos pecuaristas que acham um desperdício a terra reservada aos indígenas; da Bíblia, os fundamentalistas que querem governar com preceitos religiosos e não com a Constituição; e a da Bala, dos nostálgicos do velho Oeste que querem todos armados, como se já não bastasse a violência que impera. Paciência.

As instituições democráticas funcionam e ainda são robustas. É preciso consciência de que o preço a pagar será alto para todos nós, se nos deixarmos levar pelos corneteiros do retrocesso.

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