Imagine-se na época da elaboração da Teoria da Evolução das Espécies descrita por Darwin. A teoria diz que as espécies vão evoluindo, inclusive nas suas formas e funções, até se chegar ao ápice mais evoluído do processo que é o ser humano.
Nesta época, entre 1750 e 1850, imagine a ousadia de alguém falar em público que o homem advém dos primatas como os macacos e chipanzés. Era quase heresia, pois os anti-evolucionistas encaravam, e ainda encaram, o homem como um produto da construção divina do jeito que está hoje. Talvez, Deus não tenha criado especificamente o homem, mas sim todo o processo original que levou à formação. Muitas pessoas até hoje, por mais incrível e absurdo que possa parecer, não conseguem atribuir ao homem, uma origem que não seja o aparecimento já pronto sobre a terra!
GOETHE
Nesta época vivia o talentoso Johann Wolfgang Goethe (1749-1832), talvez a expressão máxima da inteligência, cultura e nação alemã. Aos 25 anos já era escritor e celebridade internacional cuja obra prima foi Fausto, publicado aos 41 anos. Goethe foi um dos maiores poetas e dramaturgos de todos os tempos. E foi também o poeta Goethe, um cientista na óptica, geologia, mineralogia, botânica e zoologia. As ideias científicas de Goethe envolviam uma totalidade orgânica e viva em plena conexão profunda com o mundo espiritual e não apenas um mecanismo frio e sem alma, apenas de matéria em movimento.
PRÉ-MAXILA
Ao sorrir, destacam-se os quatro incisivos entre os caninos que nos animais são referidos como presas. Se analisarmos o crânio seco de um ser humano antes dos 12 anos, pode-se notar que o osso que suporta os quatro incisivos é separado do resto do osso maxilar superior por uma linha delicada e tortuosa conhecida como sutura pré-maxilar-maxilar. Em um fissurado bilateral, a pré maxila com os incisivos fica "isolada" no centro do lábio superior.
Bradavam os anti-evolucionistas: que absurdo afirmarem que o homem veio do macaco ou qualquer outro primata! E como uma das provas mais robustas para mostrar aos evolucionistas que os primatas não deram origem ao homem, era o fato dos macacos apresentarem a pré-maxila. O homem, esse ser especial, não teria a pré-maxila no seu maxilar superior e esta prova deixavam todos inquietos.
Intrigado e determinado a achar este elo perdido que seria a pré-maxila no homem, Goethe depois de estudar anatomia com um professor seu amigo, conseguiu encontrar em um homem doente e logo após morto, mostrar que a pré maxila existia também nos humanos, tal qual em muitos animais, especialmente nos primatas. Pode-se dizer que foi Goethe o observador que descreveu ao mundo que o homem tinha pré-maxila. Mas até hoje tem estudiosos que procuram negar! Essa é a força que têm os dogmas religiosos. Aceitar que a pré-maxila existe é aceitar que a Teoria da Evolução das Espécies é uma realidade.
QUANTOS?
Os ossos que contornam a abertura nasal são, de cima para baixo, os frontais, a maxila e, no centro da parte inferior, a pré-maxila. Depois da infância, a tendência é da pré-maxila e da maxila se unirem a ponto de não deixar sinais de que eram ossos separados por uma sutura de tecido conjuntivo fibroso, como uma "camada fina estreita de espuma" separando um osso do outro.
No crânio de recém-nascido tem as "moleiras" ou suturas bem abertas para que os ossos cresçam. Até o crescimento se têm vários ossos independentes, mais de 300, mas no adulto o número se reduz para 206, pois muitos se unem! É também por isto que as crianças são mais elásticas e fazem movimentos que os adultos perdem a capacidade fazer!
O INÍCIO
Depois do conhecimento desta linda história de Goethe e a pré-maxila, me veio uma vontade enorme de saber se o assunto já havia sido exaustivamente estudado nos humanos. Para a minha surpresa, não estava, a literatura ainda era pobre e ainda pontualmente negava a pré-maxila. Era o que precisava para estimular uma de minhas orientadas na pós-graduação na USP em Ribeirão Preto. Eis que Mariana Trevizan depois de mais de mil crânios analisados, apresentará este ano os seus resultados. Goethe ficaria maravilhado e com certeza diria em uníssono: a pré-maxila existe!
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.