Todos já devem ter visto aquelas reuniões de coletivos, onde uma pessoa se posiciona no centro de uma multidão e brada uma única frase que é repetida por todos, como uma onda, para que a informação chegue aos mais afastados.
É um telefone sem fio e, para que não haja erro na passagem, as frases devem ser curtas e vociferadas rapidamente. Esse padrão encontrou reflexo nas discussões entre as pessoas em seu dia a dia e é encontrado também, infelizmente, dentro das universidades.
Na verdade, podemos chamar essas frases repetidas e passadas de forma insistente de "palavras de ordem". Em qualquer discussão que você embata, elas estarão presentes na boca de pessoas que acreditam que já tem a verdade em seu raciocínio.
O problema maior, entretanto, é que essas palavras de ordem se transformaram em um estilo linguístico e são visíveis na escrita atual. As pessoas hoje não conseguem mais ler um texto e entender a profundidade do mesmo. Há uma necessidade de frases curtas, em voz ativa e, de preferência, inflamadas para que a pessoa consiga se comunicar em textos.
Não há mais subjetividade de leitura, hermenêutica de leitura, entendimento de irônia, ou seja: a escrita está pobre e formada por palavras de ordem. Esse fato não é ligado apenas a um analfabetismo funcional; ele está associado também ao mundo moderno onde as informações são rápidas: ninguém quer perder tempo em checar e refletir e, portanto, repetem qualquer informação (ou falsa informação) de forma incansável e "ad nauseam", como a multidão dos coletivos. Abram suas redes sociais e constatem.
Tentem visualizar alguma discussão onde a pessoa não utiliza de palavras de ordem ou que não repita o que foi dito por outrem. Não há nada novo; apenas repetição. Mas não é isso o mais temeroso.
O mais temeroso é saber que tanto a escrita como a linguagem são reflexos de cognição. Oxalá esteja errado mas o que vemos é um nível de inteligência da população (dentro da academia também, faço mea-culpa) que prefere a vociferação de um papagaio à distinção de uma coruja.
O autor é professor na Unesp-Bauru.