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Eleição do fim do mundo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Estamos diante de uma eleição de surpresas renovadas. A mais recente novidade veio à tona com a investigação da "Folha" sobre contratos feitos por empresários para o disparo de milhares de mensagens e notícias falsas contra o candidato Fernando Haddad. As ações podem se configurar em fraude eleitoral. Empresas estão proibidas de doar dinheiro a campanhas. Os contratos chegam a 12 milhões de reais. Existe até uma agência de Bauru implicada, a SMS Market, segundo este jornal. O dono da Havan, que tem loja aqui, seria um dos financiadores. A notícia repercutiu no exterior. A imprensa mundial teme pelo futuro da democracia no Brasil. A presidente do TSE, Rosa Weber, admitiu que as autoridades ainda estavam "aprendendo a lidar com fake news", um fenômeno que, disse, "não é de fácil compreensão e nem prevenção". Haddad lamentou que a nossa Justiça ainda seja analógica para lidar com problemas virtuais.

Há inquérito aberto na Policia Federal e, até que tudo se esclareça o novo presidente já terá sido empossado. Bolsonaro, segundo as pesquisas, leva seu oponente de vencida por mais de 19 milhões de votos. O capitão da reserva alega que não tem controle sobre as empresas simpatizantes. Como dizem os críticos, os bolsominions estão por aí (alusão ao exército de malvados a serviço do Maldisposto, no filme infantil). Recolham as crianças.

Mas o candidato pode ser responsabilizado mesmo sem esse "controle". É a figura do beneficiário consentido, alguém que está sendo favorecido e não toma providências para que a conduta ilícita seja interrompida - na opinião de especialistas. Essa enxurrada de notícias falsas pelas redes sociais, pagas por empresas, pode se consubstanciar em doação de pessoa jurídica. Além disso temos a utilização de perfis falsos para propaganda eleitoral e compra irregular de cadastro de usuários. Na prática, um processo sobre irregularidades ainda não claramente tipificadas, pode demorar anos. Até lá, Bolsonaro estará sentado no Planalto, de velho. Vão ter que julgar a legitimidade do seu mandato, e não mais a sua inelegibilidade. Ou então, a validade da eleição, como quer o PDT de Ciro Gomes.

O WattsApp tem 120 milhões de usuários no Brasil. Acima de 90% se utilizam do aplicativo diariamente e mais de 30 vezes por dia. E entre os 147 milhões de eleitores, 66% consomem e partilham notícias e vídeos sobre política através dessa plataforma. Pertence ao Facebook. A maior rede social do mundo investe milhões de dólares para que seus computadores detectem e expurguem perfis e páginas mal-intencionadas. Das 50 imagens mais partilhadas no WhatsApp, entre 17 de agosto e 7 de outubro, só quatro eram verdadeiras (pesquisa USP-UFMG). Recebi uma foto de Dilma Rousseff ao lado de Fidel Castro. A foto é de 1959. Dilminha tinha nove anos e nem sabia das peripécias revolucionárias do tio Fidel. Outra imagem mostra o rosto do homem que atacou Bolsonaro assistindo a um comício de Lula. Montagem grosseira. Criança beija um adulto na boca. Título: "Esse é o direito que eles querem. Quem não concordar será chamado de homofóbico". A foto é de Nova York, nada tem a ver com apologia à pedofilia.

Nas democracias maduras, os cidadãos vão às urnas, em intervalos regulares, para escolher as políticas públicas debatidas por candidatos capazes de implementá-las. Políticas públicas são respostas governamentais aos problemas que afetam a sociedade ou parte dela. As pessoas confiam que as escolhas eleitorais efetivamente melhorem a vida delas. A tragédia brasileira é que, nesta eleição, houve-se falar em ideologia de gênero, aborto, em Escola sem Partido - para impedir que professores ensinem aos seus alunos valores liberais e iluministas. São assuntos que a sociedade terá que debater por gerações, até que amadureçam.

Precisamos, com urgência, incentivar a inovação tecnológica, fazer a economia funcionar. Temos problemas de déficit fiscal gravíssimos. A indústria é incapaz de produzir riquezas de forma competitiva; a infraestrutura é deficiente; e os serviços públicos insuficientes e injustos. São problemas a serem atacados imediatamente pelo novo presidente, junto com o Congresso, para sobrevivência de todos. E o que vemos é uma briga que corre o risco de ir além das eleições.

O país está dividido. Os que fazem política estão mais preocupados em estrepar o adversário com acusações do tipo pedofilia na arte, insubordinação feminina e aberrações sexuais. Mato, prendo, arrebento. É a temática em alta, na campanha pela eleição do fim do mundo.

O autor é jornalista e articulista do JC.

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