| Marcele Tonelli |
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| Grupo de vizinhos amigos no Núcleo Geisel se reúne com frequência para churrasco aos finais de semana: na foto, Julio César Francisco da Silva, Vitor Lealdine, João Celestino, Karina Malini, Nelma Senis e Darci Senis |
| Aceituno Jr |
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| Amizades de nascem e se fortalecem nos bairros - No Jardim Eldorado, em Bauru, um grupo de cerca de 30 vizinhos moradores da quadra 1 da rua Henrique Rodrigues celebra a amizade "juntando as panelas" ou em rodas de conversa na calçada quase todos os finais de semana |
A amizade é fonte de felicidade e bem-estar. Por meio de laços que escolhemos ter e cultivar, ela proporciona apoio social, compartilhamento de experiências, interesses, memórias, pensamentos, sentimentos e emoções. Nas últimas décadas, contudo, a rotina frenética dos centros urbanos aliada à violência tornou a sociedade mais individualista e até menos amiga. Mas em meio aos bairros de Bauru, há quem ainda conserve os grupos de amizade gerados na vizinhança, como antigamente.
Em bairros como o Núcleo Geisel, Jardim Cruzeiro do Sul e Jardim Eldorado algumas experiências asseveram que as confraternizações de vizinhança continuam vivas.
Ganham os moradores, ganha a rua, ganha o bairro e ganha a qualidade de vida de quem não envelhece sozinho.
O JC Nos Bairros traz histórias de vizinhos que se tornaram uma espécie de segunda família e que, com frequência, se unem para confraternizações diversas, seja para um "juntar de panelas" aos finais de semana ou uma simples roda de conversa na calçada após o dia de trabalho.
'ELO FORTE'
Na quadra 3 da rua Professor Nenpuku Sato, por exemplo, alguns moradores dizem possuir mais contato e amizade com seus vizinhos do que até mesmo com parentes.
Não importa o dia, basta uma tarde quente e uma folga no final do expediente para que a calçada da casa da dona Neuma Senis, 62 anos, e seo Darci Senis, 74 anos, fique cheia.
"Quando não estou viajando estou aqui com seo Darci. A casa deles é como se fosse a sede do quarteirão. Fomos criados todos juntos e vimos o bairro crescer sentados nesta calçada", comenta o caminhoneiro Vitor Lealdine, 41 anos.
Além deles, outras dez pessoas costumam se reunir por lá, entre elas vizinhos e também um filho de seo Darci, que mora por perto.
"Quase todos os finais de semana fazemos um churrasquinho na garagem. E, nos demais dias, também nos encontramos nem que seja para estourar uma pipoca e ouvir o rádio. Quando tem jogo do Corinthians e do Palmeiras, então, é só agito esse lugar", detalha Julio César Francisco da Silva, 46 anos, vendedor e morador do bairro.
Seo Darci é portador de Azheimer e, há alguns anos, dona Neuma resolveu alugar o imóvel no Geisel e mudar para uma casa melhor no Jardim Bela Vista, que traria mais conforto ao Darci. Mas não deu certo. "Ele não se acostumou, porque ficava só dentro de casa e estava longe dos vizinhos. O elo é muito forte, tivemos que pedir a casa de volta para a inquilina e voltar", lembra dona Neuma.
"A minha felicidade é aqui", reforça seo Darci. No Geisel e sempre rodeado por vizinhos, ele diz sentir-se mais seguro, além de feliz.
'Não vendo, não troco'
A amizade é fonte de felicidade e bem-estar. Por meio de laços que escolhemos ter e cultivar, ela proporciona apoio social, compartilhamento de experiências, interesses, memórias, pensamentos, sentimentos e emoções. Nas últimas décadas, contudo, a rotina frenética dos centros urbanos aliada à violência tornou a sociedade mais individualista e até menos amiga. Mas em meio aos bairros de Bauru, há quem ainda conserve os grupos de amizade gerados na vizinhança, como antigamente.
Em bairros como o Núcleo Geisel, Jardim Cruzeiro do Sul e Jardim Eldorado algumas experiências asseveram que as confraternizações de vizinhança continuam vivas. Ganham os moradores, ganha a rua, ganha o bairro e ganha a qualidade de vida de quem não envelhece sozinho.
O JC nos Bairros traz histórias de vizinhos que se tornaram uma espécie de segunda família e que, com frequência, se unem para confraternizações diversas, seja para um "juntar de panelas" aos finais de semana ou uma simples roda de conversa na calçada após o dia de trabalho.
'ELO FORTE'
| Divulgação |
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| Amigos do Jardim Cruzeiro do Sul durante confraternização com costela fogo de chão no final do ano passado; foto do grupo tirada no Bar do Tatu, ao lado da casa de Eduardo Gasparini, o agregador Pardal |
Na quadra 3 da rua Professor Nenpuku Sato, por exemplo, alguns moradores dizem possuir mais contato e amizade com seus vizinhos do que até mesmo com parentes. Não importa o dia, basta uma tarde quente e uma folga no final do expediente para que a calçada da casa da dona Neuma Senis, 62 anos, e seo Darci Senis, 74 anos, fique cheia.
"Quando não estou viajando estou aqui com seo Darci. A casa deles é como se fosse a sede do quarteirão. Fomos criados todos juntos e vimos o bairro crescer sentados nesta calçada", comenta o caminhoneiro Vitor Lealdine, 41 anos.
Além deles, outras dez pessoas costumam se reunir por lá, entre elas vizinhos e também um filho de seo Darci, que mora por perto. "Quase todos os finais de semana fazemos um churrasquinho na garagem. E, nos demais dias, também nos encontramos nem que seja para estourar uma pipoca e ouvir o rádio. Quando tem jogo do Corinthians e do Palmeiras, então, é só agito esse lugar", detalha Julio César Francisco da Silva, 46 anos, vendedor e morador do bairro.
Seo Darci é portador de Alzheimer e, há alguns anos, dona Neuma resolveu alugar o imóvel no Geisel e mudar para uma casa melhor no Jardim Bela Vista, que traria mais conforto ao Darci. Mas não deu certo. "Ele não se acostumou, porque ficava só dentro de casa e estava longe dos vizinhos. O elo é muito forte, tivemos que pedir a casa de volta para a inquilina e voltar", lembra dona Neuma.
"A minha felicidade é aqui", reforça seo Darci. No Geisel e sempre rodeado por vizinhos, ele diz sentir-se mais seguro, além de feliz.
Unidos pelo Jd. Cruzeiro do Sul
| Aceituno Jr. |
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| Alexandre Poloni, Eduardo Gasparini (Pardal), Gilmar Barros e Amilton Bastazini: roda de conversa é diária |
"A frente de casa virou meu escritório de amigos." A frase é do aposentado Eduardo Gasparini, mais conhecido como seo Pardal, um agregador de vizinhos no Jardim Cruzeiro do Sul. É na garagem da casa dele que, quase todos os dias, das 17h até as 22h (pelo menos), um grupo de moradores do bairro e das imediações se reúne para brindar a vida e papear.
"Se é dia de dia de jogo de futebol, então, lota mesmo", completa o aposentado, morador da quadra 5 da avenida Pedro Bertolini.
Acometido por um acidente vascular cerebral (AVC), há aproximadamente 7 anos, ele diz que seu círculo de amizades aumentou ainda mais após a doença.
O que antes era amizade apenas de bar virou um grupo de amigos sólido e solicito. Isto porque Pardal mora ao lado de um bar na avenida, e o fato de passar grande parte do seu dia na frente de casa ajudou a estreitar elos por ali mesmo. "O grupo do Bar do Tatu virou uma família pra mim, quando a gente precisa sempre tem alguém disposto a ajudar", comenta o morador.
O empresário Alexandre Poloni, 44 anos, é um dos amigos que seo Pardal fez por ali. "Acredito que nossa amizade ajudou a melhorar até a recuperação dele. Todo dia estamos aqui. E conversamos sobre tudo: família, amigos, política, futebol", cita Alexandre, que mora em um condomínio no bairro.
"O Pardal é um cara agregador. Ele sempre incentiva a gente a andar pra frente na vida", reforça seo Amilton Bastazini, 63 anos, vendedor e também morador do bairro.
CONFRATERNIZAÇÕES
Como forma de retribuir e agradar os companheiros diários, Pardal "tira da cartola" um cardápio diferente quase todo final de semana e acende a churrasqueira na garagem de casa.
Em uma dessas confraternizações, no final do ano passado, os amigos contam que chegaram a reunir cerca de 50 pessoas no local.
"Fizemos uma costela de chão aqui em frente. Tudo simples e nada com som alto para não desagradar os demais vizinhos", comenta Gilmar Barros, radialista e amigo de Pardal.
O elo entre o grupo da avenida Pedro Bertolini cresceu tanto que eles já organizaram sua própria festa de despedida de 2018 e fora do bairro.
"Vamos nos reunir no dia 8 de dezembro na chácara de um amigo no Vale do Igapó", comemora Pardal.
A turma do 'Aguenta Firme'
| Arquivo pessoal |
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| Simone Faraco, Giselle Hilário e Teresa Mastrangelli: amizade ultrapassa 20 anos |
"A frente de casa virou meu escritório de amigos." A frase é do aposentado Eduardo Gasparini, mais conhecido como seo Pardal, um agregador de vizinhos no Jardim Cruzeiro do Sul. É na garagem da casa dele que, quase todos os dias, das 17h até as 22h (pelo menos), um grupo de moradores do bairro e das imediações se reúne para brindar a vida e papear.
"Se é dia de dia de jogo de futebol, então, lota mesmo", completa o aposentado, morador da quadra 5 da avenida Pedro Bertolini.
Acometido por um acidente vascular cerebral (AVC), há aproximadamente 7 anos, ele diz que seu círculo de amizades aumentou ainda mais após a doença.
O que antes era amizade apenas de bar virou um grupo de amigos sólido e solicito. Isto porque Pardal mora ao lado de um bar na avenida, e o fato de passar grande parte do seu dia na frente de casa ajudou a estreitar elos por ali mesmo. "O grupo do Bar do Tatu virou uma família pra mim, quando a gente precisa sempre tem alguém disposto a ajudar", comenta o morador.
O empresário Alexandre Poloni, 44 anos, é um dos amigos que seo Pardal fez por ali. "Acredito que nossa amizade ajudou a melhorar até a recuperação dele. Todo dia estamos aqui. E conversamos sobre tudo: família, amigos, política, futebol", cita Alexandre, que mora em um condomínio no bairro.
"O Pardal é um cara agregador. Ele sempre incentiva a gente a andar pra frente na vida", reforça seo Amilton Bastazini, 63 anos, vendedor e também morador do bairro.
CONFRATERNIZAÇÕES
Como forma de retribuir e agradar os companheiros diários, Pardal "tira da cartola" um cardápio diferente quase todo final de semana e acende a churrasqueira na garagem de casa.
Em uma dessas confraternizações, no final do ano passado, os amigos contam que chegaram a reunir cerca de 50 pessoas no local.
"Fizemos uma costela de chão aqui em frente. Tudo simples e nada com som alto para não desagradar os demais vizinhos", comenta Gilmar Barros, radialista e amigo de Pardal.
O elo entre o grupo da avenida Pedro Bertolini cresceu tanto que eles já organizaram sua própria festa de despedida de 2018 e fora do bairro.
"Vamos nos reunir no dia 8 de dezembro na chácara de um amigo no Vale do Igapó", comemora Pardal.
A grande família do Jd. Eldorado
Confraternização é a palavra de ordem entre os vizinhos da quadra 1 da rua Henrique Rodrigues, no Jardim Eldorado. Basta o final de semana chegar para que as festas comecem. Ao todo, oito famílias com quase 40 pessoas fazem parte do grupo animado, que organiza churrascos, almoços, jantares e até festas temáticas no bairro. O elo entre eles cresceu tanto nos últimos anos que até para a praia a turma já viajou junta.
"Somos uma grande família. Cada um traz um pouco do que tem em casa e juntamos as panelas. Quase todos os dias nos vemos, e todo domingo estamos juntos, nem que seja para sentar na calçada e conversar", conta a professora Adriana Ferreira, 47 anos, moradora do local.
A responsável por agregar a vizinhança é a também professora Márcia Helena Santini Mariano, de 57 anos, considerada pelos vizinhos também uma cozinheira de "mão cheia".
Márcia conta ter herdado de sua mãe, Adelaide Mariano, 85 anos, o espírito comunitário.
"Por anos e anos ela uniu o pessoal da rua. Estamos na terceira geração e continuamos unidos. E para mim, que sempre fui festeira, é um prazer", cita Márcia. "Além da minha mãe, moro com a minha filha de 35 anos, mas nunca estamos sozinhas em casa. Tem dia que eu chego do trabalho às 16h15 e, às 16h30, já tem gente chamando no portão. Quem conhece sabe, a panela do almoço em casa é sempre grande, porque no final do dia sempre aparece algum vizinho para experimentar", completa a moradora.
"Dizemos que a marca da Márcia é o sorriso no rosto", ressalta a vizinha Carol Magron, 35 anos.
PASSEIOS
O contato diário alimenta o elo entre os vizinhos. Além das confraternizações no próprio bairro, eles organizam passeios cidade afora.
Até para a praia o grupo já viajou junto. "Fizemos uma caravana para a praia de Maranduba, em Ubatuba, em 2012. Foi divertido demais", lembra Adriana.
"E, quando viajamos, deixamos a chave da casa para o vizinho que ficou. Nunca tivemos um registro de furto ou roubo por aqui. Todos nos cuidamos", complementa Márcia.
'Não somos seres solitários, necessitamos do outro'
| Samantha Ciuffa/JC Imagens |
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| Turma do Jardim Eldorado unida em festa da Copa promovida na rua durante o jogo do Brasil contra a Sérvia, em junho deste ano |
Para a psicoterapeuta doutora em psicologia clínica Marilene Krom, a história mostra que o ser humano sempre necessitou do contato social, porque quando se viam desprotegidos dentro do ambiente, homens e mulheres buscavam o contato coletivo para se protegerem dos perigos externos.
"Perceberam que, sozinhos, teriam maior probabilidade de morrer. Está claro para a humanidade que não somos seres solitários, somos sociais, necessitamos do outro para validação afirmação e compartilhamento. Isto ocorre da infância até a velhice", contextualiza a profissional.
A mudança para os grandes centros, no entanto, transformou a família extensa em nuclear, privatizando as relações.
"Todos temos recordações da nossa infância em que existia brincadeira na rua, ou convivência maior com amigos. Só que essa época ficou na memória ou em alguns pequenos redutos nas vizinhanças, que ainda preservam este comportamento nas pessoas", enfatiza a psicoterapeuta.
E os avanços tecnológicos ajudaram no distanciamento. "Hoje as pessoas ficam mais em casa com reduzida vida social. Num movimento de imersão virtual", completa.
Ainda de acordo com ela, moradores de lugares mais sofisticados tendem a se isolar mais. Neste aspecto, várias situações dificultariam ampliar o contato local, a violência e a insegurança social estão entre elas.
A tradição da bandeira
Entre as festanças tradicionais promovidas pela turma do Jardim Eldorado está a da Copa, já acompanhada e noticiada pela reportagem do JC. Há 28 anos, dias antes do campeonato, os moradores se unem para pintar uma grande bandeira do Brasil na rua Henrique Rodrigues. E, nos dias de partidas, eles se organizam para assistirem juntos aos jogos na casa de Márcia. "Não tem alegria maior, vivemos momentos mágicos entre vizinhos por aqui", declara Márcia.
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