| Samantha Ciuffa e arquivo pessoal |
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| Marcia Alves Polin: pioneirismo no atendimento ao AVC |
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| O casamento com o agrônomo José Carlos em janeiro de 2017 |
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| Festinha de família, quando Marcia completou o primeiro ano |
A jovem doutora Marcia Polin - doutora na verdadeira acepção da palavra, uma vez que, além de uma série de títulos na Neurologia, já tem o doutorado concluído - nem de longe aparenta os 34 anos assumidos que irá completar no próximo dia 10. Menos ainda denuncia, na fala sempre humilde e tranquila, a importância do seu cargo: coordenadora da equipe de neurologistas do Hospital de Base de Bauru.
É grande mérito dela, que também atua na Unimed Bauru, a implantação do protocolo que revolucionou o modo de tratar, na cidade, o AVC (Acidente Vascular Cerebral, cujo Dia Mundial de Combate é celebrado amanhã), segunda doença que mais mata no mundo - inclusive vitimou o pai da médica - e a que mais causa incapacidade. O Código AVC, quando colocado em prática até 4 horas e meia após o paciente apresentar os sintomas, não só reduz a mortalidade, como também diminui drasticamente as sequelas.
Bastam alguns minutos de conversa para perceber o brilho nos olhos de quem ama o que faz e a extensão da importância que seu trabalho tem para uma população de mais de 600 mil pessoas (moradores de Bauru e de 18 outros municípios que compõem a área de assistência médica da Regional de Saúde de Bauru).
Jornal da Cidade - Antes de falarmos da importância do Código AVC, queria conhecer um pouco da sua vida. Você sempre quis ser médica?
Marcia Polin - Descobri que queria ser médica aos 16 anos, quando uma equipe de médicos de Ribeirão Preto, da USP, foi à escola fazer aquela explanação de praxe sobre como é a profissão. Pensei na hora: é isso que quero fazer pelo resto da vida.
JC - E a Neurologia e o estudo do AVC? Como entraram em sua vida?
Marcia - Pesou, claro, o fato de meu pai (que se separou da minha mãe quando eu tinha 4 anos e meu irmão mais velho, 7 anos) ter um AVC aos 56 anos. Isso o deixou paralisado do lado direito e sem falar. Quinze anos depois, ele teve outro, foi quando morreu. Aliás, é do histórico de quem é acometido pelo acidente vascular. Quem teve um episódio, tem o dobro de chance de ter o segundo.
JC - Então, já falando do AVC... quem tem mais a doença?
Marcia - O topo da lista é encabeçado por homens, negros e com mais de 65 anos, mas é uma doença 'democrática', não escolhe faixa social e nem idade. Acomete cada vez mais pessoas jovens. Por jovens, nós consideramos menos de 45 anos. Nesse público e nos que não apresentam os dez fatores de risco, nós temos que ir em busca de fatores genéticos, como as trombofilias que predispõem a tromboses.
JC - Fatores de riscos?
Marcia - Sim. E a maior e melhor ação é a prevenção. Em 90% dos casos em que são atacados os dez fatores de riscos, o sucesso existe e a possibilidade de se ter um acidente vascular é mínima. Quem controla a hipertensão, o diabetes, o colesterol, o sedentarismo, não fuma, diminui o uso de álcool, não usa anticoncepcional, descarta doenças cardíacas como arritmias, controla o peso e tem uma alimentação saudável, praticamente zera a chance de ter um AVC.
JC - Mas se a pessoa tiver? O que fazer?
Marcia - Primeiro, é preciso reconhecer o quadro. Daí a importância da sigla "Samu", amplamente divulgada à população dentro da Semana Nacional de Combate de Prevenção, que começou na última sexta-feira e segue até o dia 4 de novembro com várias ações. Por "Samu", leia-se fazer com que o paciente: S - sorria; A - abrace, erga os braços; M - música, cante ou recite versos; e U - urgência. Se alguém que está passando mal não conseguir cumprir essas ações, quem estiver ao lado pode correr e chamar o atendimento de urgência. Essa agilidade é muito importante.
JC - É nessa agilidade que entra o protocolo?
Marcia - Sim. O Código AVC, implantado em abril de 2017, transferiu para o Samu a regulação do acesso dos pacientes com AVC ao Hospital de Base. Isso fez com que eles não ficassem dias esperando uma vaga. Outro ponto do protocolo é o uso imediato do trombolítico no paciente de AVC isquêmico, que pode ser aplicado em alguns casos. Se assistido nas primeiras quatro horas e meia após apresentar os sinais, o atendimento trombolítico faz muita diferença. Em linguagem mais simples, o AVC isquêmico é decorrência de um entupimento de veia no cérebro e a aplicação por uma equipe médica treinada afina o sangue e faz com que o coágulo se dissolva. Isso é comprovado cientificamente. Há estudos nesse sentido e nós já comprovamos aqui mesmo. A primeira vez que vi dar certo foi emocionante e não me esqueço nunca.
JC - Conte-me como foi...
Marcia - Eu fazia residência ainda em Botucatu. Era 2011. O atendimento de uma mulher jovem, negra, com o lado direito todo paralisado. Fizemos a aplicação e, em instantes, ela voltou a mexer. O enfermeiro que estava comigo não acreditava... nem eu. Isso encanta quem faz. É dar uma segunda chance à vida. A gente também precisa deixar claro que nem sempre o resultado é 100% imediato, como no caso dessa mulher. Os estudos mostram que levam até três meses para dar resultado. É o tempo de o organismo se refazer.
JC - E quando não chega ao resultado esperado?
Marcia - Nossa, a gente fica chateada, mas daí a gente foca em dar uma melhor qualidade de vida para quem sofreu do problema, porque, quando não mata, é mesmo uma doença debilitante, especialmente para os mais velhos. Não dá para agir com frieza, ficar insensível ao sofrimento alheio. Pode ter certeza de que sofremos tanto quanto a família, tentamos dar o máximo de conforto.
JC - Recentemente, o presidente da Associação Paulista de Medicina falou sobre estar preocupado com a saúde do próprio médico, do profissional...
Marcia- Realmente, o índice de médicos com depressão e os casos de suicídio cresceram muito. A gente fica mal, muito mal com isso. E, depois, vamos ser sinceras, quem aos 18 ou 19 anos tem maturidade para ter certeza de que é isso que quer da vida? E Medicina é algo muito estressante, é um choque para um jovem. A gente tem que estar bem preparado para enfrentar esta vida. Acho que, até por isso, tenho uma vacina: não casei com médico (risos).
JC - Sério?
Marcia - Sim. A gente vê muito médico casado com médica. Na hora em que saem de casa e vão passear, o assunto é esse. Eu já via isso na faculdade. Os alunos se reuniam, em barzinhos, para falar dos casos. Eu me prometi que não faria isso... e cumpri a promessa (risos). Meu marido é agrônomo e tem um armazém de produtos orgânicos. Isso, para mim, é muito bom. Ele me ajuda, incentiva muito a termos uma boa qualidade de vida, na escolha do que ingerir. Claro que tenho muito amigo médico, mas os casais mais 'chegados' não são médicos. São dentistas ou trabalham com ciência da computação. Isso facilita a gente se desligar um pouco, porque a vida é muito estressante.
JC - Você fez residência e especialização na Unesp em Botucatu, certo? Como Bauru entrou na sua vida?
Marcia - Tive um convite da Beneficência Portuguesa. Havia deficiência no número de neurologistas em Bauru e vinha uma vez por semana. Não quis voltar para Ribeirão Preto (cidade onde Marcia nasceu) porque lá o mercado estava saturado e, ao mesmo tempo, não gostava do clima de Botucatu, muito frio para mim. Sou de uma terra de calor e, aqui, tem esse clima mais de verão o tempo todo. Sem falar a efervescência universitária, lembra muito Ribeirão. Então, optei por Bauru. Fui muito bem acolhida e aqui conheci meu marido, né?
JC - Para terminar, você passa a ideia de uma mulher determinada. E está em um nicho onde há mais homens do que mulheres. Enfrentou muito preconceito?
Marcia - Na verdade, estava mesmo em um reduto muito masculino, mas penso que a gente sofre quando aceita o preconceito. Quando a gente se impõe, é diferente. Além disso, tenho um espelho muito forte: a minha mãe, que criou a mim e a meu irmão praticamente sozinha. Ela, técnica de enfermagem, foi uma mulher de luta. Imagina ganhando pouco, quando fui fazer cursinho no primeiro ano. Ela se sacrificou para pagar. No segundo, eu já consegui uma bolsa integral e, depois, passei em universidade pública.
Perfil
Nome: Marcia Alves Moura Polin
Idade: 33 anos, nascida em Ribeirão Preto, em 10 de novembro
Filiação: Zenilde e Antonio. Ela, técnica de enfermagem, e ele, dono de uma fábrica de calçados
Casada: Há quase dois anos, com o agrônomo José Carlos Nicolielo, nascido em Porto Velho, mas criado em Iacanga
Filhos: "Ainda não, mas temos quatro cães (risos), sendo três mestiços - um vira-lata com salsicha e dois com labrador - e um foxhound, presente de uma pessoa querida"
Profissão: Coordenadora da equipe de Neurologia do Hospital de Base de Bauru (HBB) e neurologista do Hospital Unimed Bauru; tem doutorado em Fisiopatologia em Clínica Médica
Inspiração: A médica Sheila Martins, neurologista de Porto Alegre, presidente da Rede Brasil AVC e recém-convidada para ser vice-presidente da Organização Mundial de AVC
Lazer: "Nas horas vagas, que são poucas (risos), nosso hobby é assistir filmes na televisão, sempre vai dando preguiça de sair (mais risos)"
Próximo passo na vida: "Construir nossa própria casa em um terreno que já compramos. Vamos começar em breve!"
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