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Patrimônio líquido

Adilson Roberto Gonçalves
| Tempo de leitura: 2 min

Ao menos, por enquanto, foi afastado o estapafúrdio plano de fusão dos ministérios do meio-ambiente (sua extinção, na verdade) com o de agricultura. No ministério que tratará da agropecuária, colocar alguém mais radical, rotulada de "menina veneno", em alusão ao sucesso musical dos anos 1980, pouco contribui para o diálogo e para o uso intensivo, não de agrotóxicos, mas sim de conhecimento e tecnologia, especialmente na preservação da água.

Já no ministério do meio-ambiente, a função pode ser mais técnica, porém é muito importante a interlocução com as populações que estão à frente na defesa desse patrimônio líquido. Sim, trata-se aqui de um conjunto de atores sócio-econômicos que atuam fortemente, ainda que não devidamente reconhecidos, nas questões ecológicas e culturais.

Povos tradicionais das florestas, indígenas, seringueiros, ribeirinhos, quilombolas, e mesmo sitiantes, agricultores familiares e orgânicos constituem uma população que precisa continuar a ser ouvida, protegida e valorizada.

A preservação da floresta de pé rende muito mais do que substituí-la por pasto ou cultivo. Sem contar a interferência no regime de chuvas, o chamado rio atmosférico que regula o ciclo hídrico no sul e sudeste do país, a região de maior produção agrícola com fins industriais, com a cana-de-açúcar em destaque. Iniciado no município de Extrema, em Minas Gerais, essa preservação resultou em projeto que paga ao produtor rural para manter suas matas, além das áreas de reserva e outras que a lei já preconiza.

É uma fórmula para produção de água, pois a fixação de vegetais de grande porte e amplas raízes impede a lixiviação do solo e a alteração na partição do líquido entre evaporação, percolação e movimentação na superfície. Isso enquanto houver alguma regulação.

O agronegócio é base de nossa balança comercial e também altamente demandante de água, que passa a ser a verdadeira substância química exportada. Estudar e conhecer o ciclo biogeoquímico da água é fundamental para entender e elucidar polêmicas, tais quais as que envolvem o consumo de água por uma floresta de eucalipto, uma das matérias-primas do setor florestal de maior uso na indústria nacional. Dizer simplesmente que a madeira rouba a água do subsolo, secando outras fontes, apenas arranha a superfície da complexidade do sistema envolvido. Daí volta-se à importância da valorização de agricultores e ambientalistas.

Por mais complexo que seja, os sistemas tendem ao equilíbrio. Em química, esse equilíbrio é dinâmico, ou seja, a aparência externa, na visão macroscópica, é de ausência de transformações, mas, interna e microscopicamente, é um constante ir e vir nas trocas de matéria e de energia. Apenas a pesquisa científica intensa permite que se cheguem a essas conclusões e soluções. Não há como acumular conhecimento especializado sem investimento - palavra que é transformada em despesa, o que não é. Despesa é a conta que pagamos pela precarização dos serviços públicos prestados, parte devido ao descaso como lidamos com a coisa pública e parte porque deixamos de levar e agregar a tecnologia a esses bens de consumo e de serviço.

O autor é químico, pesquisador da Unesp-Rio Claro. adilson.goncalves@unesp.br

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