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Jovens são os que mais matam e morrem assassinados em Bauru

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

Malavolta Jr.
Pilha de inquéritos: delegado Cledson Nascimento afirma que concentração de casos preocupa

Futuros interrompidos, famílias despedaçadas e crianças pequenas que perdem a oportunidade de crescer com a presença dos pais. A violência está tirando a vida de um grande número de jovens em Bauru e levando outros tantos para trás das grades, deixando um rastro de dor, ausência e culpa que impacta centenas de moradores da cidade.

São eles, os jovens, os que mais mataram e morreram assassinados em 2018 no município, segundo levantamento realizado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bauru. Nove dos dez homicídios de autoria inicialmente desconhecida encaminhados para a unidade especializada neste ano tiveram o envolvimento de jovens de até 25 anos. Em um dos casos mais chocantes, a vítima tinha apenas 14 anos.

A maioria dos casos foi registrada nas regiões Norte e Noroeste da cidade, em bairros periféricos onde a violência se apresenta como alternativa diante do espaço vazio deixado pela falta de oportunidades e perspectivas de futuro.

Titular da DIG, Cledson Nascimento explica que, historicamente, o jovem sempre foi o principal protagonista, seja como vítima ou autor, dos homicídios em Bauru. Porém, neste ano, a elevada concentração de casos, sendo apenas um sem o envolvimento de pessoas com menos de 25 anos, chamou a atenção.

"É preocupante. Vemos que não são casos vinculados, necessariamente, ao crime organizado, que tem como modus operandi não deixar muitos vestígios. São crimes, muitas vezes, cometidos à luz do dia, com a presença de testemunhas, talvez até como uma forma de demonstrar poder aos pares", comenta.

Apesar de facções criminosas não liderarem os assassinatos, o tráfico de drogas, via de regra, é componente presente na vida destes jovens. Segundo Nascimento, quase sempre, até mesmo as vítimas têm alguma ligação com o comércio ilícito de entorpecentes. "Mas, na maioria das vezes, são rixas que motivam o crime. Só tivemos um caso neste ano, em junho, que se assemelha a acerto de contas por dívida de drogas", detalha. Ou seja, embora a venda de drogas esteja sempre rondando estas realidades, são os desentendimentos que provocam os crimes.

TRAJETÓRIAS DE MORTE

A baixa escolarização, a falta de perspectivas sobre o futuro, a construção de referências financeiramente bem-sucedidas a partir da criminalidade, o imediatismo característico da juventude e a facilidade de acesso a armas de fogo são componentes que favorecem a construção destas trajetórias de morte. A expectativa de punições pouco severas aos autores, Nascimento acrescenta, é outro ingrediente importante neste cenário.

"A Polícia Civil, ao esclarecer rapidamente estes crimes, tenta demonstrar que não há impunidade, mas vemos que a maioria dos autores não tem receio da prisão. A execução penal brasileira permite que estes presos tenham acesso a vários benefícios e progridam para o regime semiaberto muito rapidamente", pondera.

Para o delegado, a promessa do presidente eleito Jair Bolsonaro de ampliar o acesso a armas para autodefesa não deve agravar a violência, considerando que as armas utilizadas nestas ocorrências são adquiridas no mercado paralelo. "São armas ilegais, sem registro. Uma arma adquirida legalmente custa em torno de R$ 5 mil, um valor proibitivo para a maioria destes jovens", completa.

Denúncia

Cledson Nascimento destaca que as informações recebidas da comunidade são fundamentais para o esclarecimento dos homicídios. Compreendendo que nem sempre os moradores se sentem seguros em delatar os autores por medo de represálias, ele orienta a população a entrar em contato com a Polícia Civil por meio dos canais de denúncia. Os números são: 197, (14) 3235-6525 (DIG), (14) 99668-7715 (WhatsApp) e (011) 6224-3040 (Disque-Denúncia da Secretaria da Segurança Pública).

'A falta de trabalho rebaixa os aspectos da vida'

Desde a década de 1990, o Mapa da Violência realiza levantamentos que relacionam a pobreza e a baixa escolaridade, especialmente entre homens negros jovens, como elementos que precisam ser considerados na incidência dos homicídios.

Diante de um momento como o atual, de crise econômica e baixa oferta de empregos, as perspectivas de futuro para os jovens se tornam ainda mais precárias. Quem faz a análise é a socióloga Loriza Lacerda de Almeida, professora da Unesp de Bauru, que define o trabalho como elemento fundamental para a vida humana.

É a partir dele, ela frisa, que cada indivíduo obtém suas condições de manutenção e reprodução. Na ausência desta oportunidade, todos os demais aspectos da vida, incluindo as relações sociais, ficam rebaixados. "Como tem que viver, este jovem é impulsionado a fazer pequenos biscates, atividades de maior periculosidade, entrega de toda sorte de coisas nos semáforos. Eventualmente, se aproxima do 'trabalho' ilegal como forma de sobrevivência e, nestas condições, os riscos de sofrer violência são inimagináveis", comenta.

Ao considerar a sociedade como um conjunto de relações entre pessoas, ancoradas na economia e baseadas em regras e leis, ela aponta que a violência no contexto atual é resultado de um passado de ausências e precariedades, em que os jovens não figuraram entre das principais preocupações nacionais.

"Faltou a universalização de políticas públicas, de apoio à formação sociocultural. Os projetos de escolarização, que poderiam ser mais prolongados e com boas condições estruturais, foram insuficientes. Falta um projeto para a juventude, a partir de suas características, necessidades e potencialidades. A radicalidade dos jovens, descrita pelo professor Octavio Ianni, tem sentido positivo e deve ser usada a seu favor. Para tanto, precisamos falar mais com eles. Lá, está a chave dos problemas e, provavelmente, a solução", finaliza.

'Não desistam dos seus filhos', diz mãe de jovem assassinada

Samantha Ciuffa
A dona de casa Franciane carrega no olhar a tristeza da perda da filha Emily, morta a tiros

"Muita gente vai achar que faltou amor, que faltou conversa. Não faltou. Fizemos o possível para que tudo desse certo na vida dela", diz a dona de casa Franciane Luz Germano, 32 anos. São palavras pronunciadas na tentativa de se desvencilhar do sentimento de culpa por não ter conseguido evitar o trágico destino da filha Emilly Vitória Germano Belao, 14 anos, morta com seis tiros na saída de um baile funk, no bairro Ferradura Mirim, em julho passado.

Definida pela mãe como "teimosa", a garota talvez não tenha acreditado nas ameaças do acusado de matá-la, Yago Gabriel Gomes de Sá, 23 anos. No baile, segundo testemunhas, ele chegou a ordenar que Emily fosse embora. Ela se recusou e, na saída, foi alvejada.

A jovem morava há dois anos com os pais e mais três irmãos em uma casa do Jaraguá. A mãe conta que a menina se entrosou rapidamente no bairro e, como quase todo adolescente, passou a apresentar um comportamento "rebelde".

Quando foi morta, Emily já havia abandonado a escola, mas esta foi a primeira vez que a família vivenciou a violência tão de perto. "É muito difícil, inexplicável o que a gente está sentindo. No começo, meu marido foi mais forte, mas, agora que a ficha está caindo, ele começou a baquear e eu que estou tentando segurar as pontas para cuidar das crianças e tocar a vida em frente", revela.

Aos pais que enfrentam dificuldades com os filhos, ela faz um apelo. "Conversem com seus filhos, não desistam deles. Nada é maior que a dor de perdê-los", lamenta.

'ELE FOI MORAR NO CÉU'

Faz pouco mais de um mês que Cristopher Juan Vasconcelos, 25 anos, foi assassinado e seus dois filhos, de 6 e 2 anos, já fizeram aniversário sem poder contar com a presença do pai. Acusado de matar o jovem no Fortunato Rocha Lima, Vitor Julio da Silva, 20 anos, confessou o crime e está preso.

Cristopher foi assassinado no dia 4 de outubro e os 2 anos do seu filho caçula, completados na semana seguinte, sequer foram comemorados. Segundo uma familiar, que preferiu manter a identidade preservada, as crianças eram muito apegadas ao pai. "Eles dormiam com o Cristopher. Até hoje, quando veem fotos, ficam perguntando onde está o pai, sentem muita falta, choram. Eu falo que foi morar no céu, mas o mais velho, que entende um pouco mais, fica bravo porque o pai não se despediu".

A parente conta que a família evita conversar sobre o que ocorreu perto dos meninos, porque o primogênito manifesta revolta, dizendo que a pessoa que matou Cristopher "tem de morrer". Além do impacto emocional, a morte do rapaz também desorganizou as finanças da casa, já que a companheira dele não trabalha para poder cuidar do caçula e, agora, depende da ajuda.

"Nada vai trazer o Cristopher de volta. Só pedimos justiça, que o assassino fique preso e pague pelo que fez. Só isso vai tirar a dor que a gente está sentindo", afirma.

'A falta de trabalho rebaixa os aspectos da vida'

Desde a década de 1990, o Mapa da Violência realiza levantamentos que relacionam a pobreza e a baixa escolaridade, especialmente entre homens negros jovens, como elementos que precisam ser considerados na incidência dos homicídios.

Diante de um momento como o atual, de crise econômica e baixa oferta de empregos, as perspectivas de futuro para os jovens se tornam ainda mais precárias. Quem faz a análise é a socióloga Loriza Lacerda de Almeida, professora da Unesp de Bauru, que define o trabalho como elemento fundamental para a vida humana.

É a partir dele, ela frisa, que cada indivíduo obtém suas condições de manutenção e reprodução. Na ausência desta oportunidade, todos os demais aspectos da vida, incluindo as relações sociais, ficam rebaixados. "Como tem que viver, este jovem é impulsionado a fazer pequenos biscates, atividades de maior periculosidade, entrega de toda sorte de coisas nos semáforos. Eventualmente, se aproxima do 'trabalho' ilegal como forma de sobrevivência e, nestas condições, os riscos de sofrer violência são inimagináveis", comenta.

Ao considerar a sociedade como um conjunto de relações entre pessoas, ancoradas na economia e baseadas em regras e leis, ela aponta que a violência no contexto atual é resultado de um passado de ausências e precariedades, em que os jovens não figuraram entre das principais preocupações nacionais.

"Faltou a universalização de políticas públicas, de apoio à formação sociocultural. Os projetos de escolarização, que poderiam ser mais prolongados e com boas condições estruturais, foram insuficientes. Falta um projeto para a juventude, a partir de suas características, necessidades e potencialidades. A radicalidade dos jovens, descrita pelo professor Octavio Ianni, tem sentido positivo e deve ser usada a seu favor. Para tanto, precisamos falar mais com eles. Lá, está a chave dos problemas e, provavelmente, a solução", finaliza.

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