Dia 20 de novembro 1695 é a data atribuída à morte de Zumbi dos Palmares e foi escolhida para ser a celebração do Dia da Consciência Negra. A data foi primeiro incluída nos calendários escolares (nos idos de 2002) e posteriormente "oficializada" nacionalmente através da Lei 12.519, de 10 de novembro de 2011. Mais um dia de ação afirmativa efetivamente necessário, uma vez que o que temos na Declaração Universal dos Direitos Humanos adotada pela ONU em 10 de dezembro de 1948, trata-se, para a maioria, apenas de mais uma declaração.
A declaração e a lei sem ação são nulas. Todos gostam de gozar livremente o feriadão ou ponto facultativo da Consciência Negra, mas será que todos têm consciência do que significa ou do sangue que corre em suas próprias veias? Tomarei como exemplo um caso familiar, mas antes uma breve explicação, também familiar: as mãos que vos escrevem são brancas. Tão brancas que, se expostas ao sol, não demoram muito a sofrer queimaduras. E esta mesma mão que voz escreve é bisneta de escrava, bisneta de negros: bisa Maria Eugênia colheu muito café antes de morrer aos 102 anos; partiu livre, de tudo e de todos, na década de sessenta do século passado, como contava a minha avó.
Minha Bisa casou-se com um português, tão branco quanto as mãos que vos escrevem: srº Eugênio. Dito isso, voltemos ao exemplo familiar: minha falecida tia - mulata - cuja genética não renegava seus ancestrais, ao contrário dela, que não saia ao sol, não assinava o sobrenome de minha avó, anunciava aos quatro ventos que era neta de portugueses, todos os seus namorados foram brancos, desesperadamente brancos, na tentativa de minar o sangue negro que corria em suas veias e apagar de vez nos seus próprios filhos a marca de uma herança que ela não queria ter. Procurou um homem rico para se casar: e casou. Teve sua filha branca como a neve: agora sim!
Mas lembro-me de minha tia como uma pessoa infeliz, que vivia a amaldiçoar negros, pobres e qualquer classe de excluídos. Ela foi só mais uma que gostou quando criaram o Dia da Consciência Negra: 'Feriadão pra nóis!'
Eu olhava para as minhas mãos brancas e para as mãos mulatas dela, éramos tão diferentes fisicamente mas, mesmo assim, parentes. Isso me deixava confusa, porque no fundo eu sempre soube que éramos iguais. Não só iguais eu e ela, mas eu me sentia igual ao filho negro da vizinha, que ela também amaldiçoava. Enfim... Aprendi observando minha tia e suas angústias, que de nada valem Leis e Declarações, se não desenvolvermos a consciência de que somos todos humanos e, todos de determinada maneira a qual não sei explicar, parentes. Filhos, netos, bisnetos, tataranetos de negros, índios, europeus, asiáticos. Espero viver para ver o dia, dada a evolução de nossas consciências, em que as ações afirmativas sejam apenas mais um capitulo nos livros de historia. E que vivamos bem, amalgamados em nossas diferenças e ancestralidades.
A autora é colaboradora de Opinião.