Cultura

Memórias de uma vida universitária

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 3 min

Morar em república é, certamente, uma lição de vida. Na maioria das vezes, contudo, aquele período - ao mesmo tempo festivo e construtivo - fica restrito às recordações dos amigos. Para dar vazão literária ao tema, o agente fiscal de renda José Mauro Progiante lança nesta terça-feira (11), às 19h, na Jalovi Altos, "Abdo Fariz e Outras Lembranças" (Editora Canal 6).

O "Abdo" do título é personagem central do primeiro dos oito contos da obra de 83 páginas.

Esse texto ganhou prêmio e motivou Progiante, 57 anos, a escrever os demais. Tudo fictício, mas também muito próximo da realidade.

Apesar de as páginas não informarem qual é a cidade dos personagens, obviamente há uma evidente ligação com a Bauru do fim dos anos 70 e começo dos 80 - que Progiante, vindo de Catanduva, conheceu bem.

"Cheguei em 1979 e cursei engenharia elétrica na antiga Fundação Educacional de Bauru ali na Vila Falcão, onde hoje é a Diretoria de Ensino. Para facilitar as coisas, morava em uma república de estudantes no próprio bairro", lembra. "Foi época de amizades, de conhecer muita gente num tempo sem celular...".

Era, mesmo, um outro mundo: analógico e de pessoas mais presencialmente próximas umas das outras.

Progiante viria a diversificar suas possibilidades e mudar o próprio rumo: quase formado engenheiro, foi parar no Banco do Brasil, onde trabalhou como escriturário. E, na sequência, passou em concurso da Secretaria da Fazenda, onde está há 32 anos.

EXPONDO-SE

Os tempos de engenharia começaram e terminaram naquele contexto universitário que o alter ego do autor, José Alberto, narra com desenvoltura.

José Alberto (quase José Mauro) é o fio condutor de todos os contos. Mas ele e os demais personagens só ganharam vida quando Progiante se sentiu seguro para unir tudo em um único livro - seu primeiro de contos.

"Escrever é uma coisa, mas expor o que foi criado é difícil. Mesmo sendo ficção é baseada na realidade vivida e, assim, você se expõe junto. Só me decidi após algumas premiações que recebi [em concursos de contos]. Fui vendo que tinha, sim, alguma qualidade literária para apresentar ao público".

Resumindo: o livro é atemporal, a cidade não é especificada, o narrador não é de carne e osso, mas tudo tem o DNA de José Mauro Progiante e seu aprendizado de vida. 

SERVIÇO

"Abdo Fariz e Outras Lembranças" (Canal 6): 11/12, hoje, às 19h, lançamento na Jalovi Altos (r. Antonio Alves, 22-75). Esse e o primeiro livro do autor, "A Maldição de Taruma e Nurana" (infantil - Chiado Editora, de Portugal - 2017) possuem páginas no Facebook. Contato com J.M. Progiante pode ser feito pelo jmprogiante@gmail.com

O narrador fala ao leitor

Inquieto pela proximidade do fim, o narrador octogenário [José Alberto] da obra apressa-se em livrar da ruína antigas memórias, de quando vivia em república. Sente-se no direito de expor publicamente a salvação parcial do seu passado, mas o asserenamento íntimo parece importar-lhe mais do que a atenção que receberá do mundo.

"Senti-me estimulado a escrever estas recordações depois de ter lido as memórias de um ex-padeiro da mesma idade que eu, todas elas, como disse ele, com sabor de madrugada, fermentadas no fundo quente e bem-cheiroso da padaria, servindo-lhe como ensaio de fabricação de pães para a alma. No meu caso, tornar público antigas intimidades é uma espécie de tratamento para minha própria alma."

 

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