Ciências

Os dentes falsos do presidente! Por Alberto Consolaro


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As pessoas têm nojo ou asco dos dentes e próteses dos outros fora da boca! Mas as mesmas pessoas têm dentes e próteses iguais em suas bocas e até beijam outras com estes dentes e próteses. Também se tem nojo da língua cuja superfície parece uma lixa grossa com zilhões de bactérias, fungos, vírus e parasitas. A saliva é verdadeiro oceano oleoso e microbiano que engolimos e trocamos em um beijo alucinante, lambendo-se dentes e língua da outra pessoa! Mas se alguém falar que aquele casal usa a mesma escova de dente vira um escândalo nacional!

A história da vida privada nos revela costumes que hoje podem ser impactantes e ficam guardados em museus e livros. Tem sempre alguém me perguntando sobre transplantes de dentes e os "dentes falsos" anteriores à cerâmica e resina. Neste artigo vou falar sobre os dentes falsos e, no próximo, sobre transplantes dentários.

São 32 dentes em cada boca. Nas mortes acidentais e entre vivos bem que se poderia doar dentes de uma pessoa para outra, mas ninguém aceita por achar repugnante! Minha incursão pela história dos transplantes dentários entre as pessoas se iniciou pelo livro "Os dentes falsos de George Washington", do historiador Robert Darnton.

OS "FALSOS"

"Dentes falsos" são aqueles feitos com vários tipos de materiais, até madeira e dentes de animais para simular os de humanos em próteses grosseiras com cera de abelhas e bases metálicas, incluindo o chumbo. O ideal seria chamar os "dentes falsos" de próteses. Na época da proclamação da independência dos EUA, quando a perda era de alguns dentes, se uniam os falsos aos verdadeiros com fios e arames. Se a perda era total, como foi o caso do presidente Washington, se articulava essas "dentaduras" superiores e inferiores com molas posteriores que faziam pressão para a boca abrir.

Chama muito a atenção o retrato do presidente Washington na cédula de um dólar. Sua face, lábios e bochechas teriam suportes de chumaços internos de algodão colocados por seu fotógrafo, pois sem dentes naturais, sua boca ficava muito "murcha". Washington tinha uma coleção de dentes falsos de presas de marfim, morsa, alce, hipopótamo e de humanos.

O presidente Washington, por décadas, sofreu muito com dores em dentes durante a guerra e no período de nascimento da nação estadunidense. Para cumprir seus compromissos sociais, que evitava quando podia, para discursar ele usava uma dentadura superior e inferior articulada por uma mola. Algo inimaginável, pelo enorme desconforto. Ele falava quase sempre com os dentes cerrados e seus discursos eram poucos e curtos.

VISITAS

Para fechar a boca, essas molas exigiam uma tensão constante dos músculos da mastigação. Veja o relato de um visitante inglês entre 1790 e 1798, sobre o presidente Washington: "Nunca vi boca parecida com a dele, tinha lábios firmes e o maxilar inferior parecia apertar com muita força o superior, como se os músculos estivessem tensos, mesmo quando ele se sentava quieto".

Outro visitante depois de um evento afirmou que "havia uma certa ansiedade visível no semblante e traços de sensibilidade extrema". Um terceiro observador detectou que "o presidente Washington parecia carregar um semblante ou ar perene de melancolia e que nenhum raio de sol animador conseguia romper a nebulosa atmosfera de gravidade em sua face".

Os fundadores da pátria, junto com Washington, durante a elaboração da famosa constituição sofriam muito mais com as dores das suas gengivas e seus dentes do que com os debates dos ideais a serem colocados. Na época a odontologia era muito precária e observadores reclamavam que o presidente não entendia as piadas que contavam. Aos mais próximos, dizia-se que ele preferia ficar com a boca fechada, pois doía menos!

Um historiador em suas pesquisas sobre os dentes falsos de Washington captou uma anedota comum sobre o assunto que procurava tirar as responsabilidades dos dentistas da época. A anedota diz:

- Por que o presidente parece sofrer tanto na nota de um dólar?

Alguém responde: - Por causa da dentadura falsa que usava.

Um outro retruca: - Não! É porque ele não conseguiu chegar à nota de vinte dólares!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC. 

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