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Jesus no pé de goiaba

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Jesus subir em um pé de goiaba não deveria espantar ninguém. O filho de Deus obrou prodígios nunca vistos na natureza: andou sobre as águas, devolveu visão aos cegos, curou enfermos e ressuscitou mortos. Causa apreensão no atual mundo político brasileiro, isto sim, é ver jabuti em galho de goiabeira de frutos bichados. Jabuti não sobe e muito menos dá em árvores. Os quelônios são essencialmente terrestres.

Pertence ao imaginário e à crença de Damares Alves, futura ministra dos Direitos Humanos, Mulher e Família, ter visto Jesus, e até o advertido -"lindo e loiro" -, a não subir numa goiabeira. Merece respeito. Ela estava com dez anos de idade, havia sido estuprada e em estado de choque. Preparava-se para tomar veneno. Em Portugal, em 1917, três crianças viram Nossa Senhora em uma azinheira, de pouco mais de um metro de altura.

O profeta Isaias andava seminu e descalço na floresta, e encontrava conforto na linguagem das árvores. Dizia que Deus ministra ensinamentos através delas. Chegou a profetizar que no futuro, haverá tão poucas árvores, que um menino será capaz de contá-las (10:19). Antevia desmatamentos de devastadoras proporções.

No quintal da minha casa também havia um pé de goiaba. Aos seis anos, eu já subia até os ramos mais altos. A única coisa diferente que encontrei, além de frutos maduros, foi uma taturana de fogo. Chorei com a dor insuportável e corri para minha mãe que tinha uma pomadinha salvadora. Bicho de carapaça, nunca vi em árvore. Os adultos aconselhavam a receber com desconfiança o que é contrário à natureza das coisas. É possível que tartaruga esteja em algum galho distante do solo. Nesse caso, alguém a colocou.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), desconfiou de uma ciranda de depósitos e saques na conta do motorista do gabinete de Flávio Bolsonaro, deputado estadual e eleito senador pelo Rio de Janeiro. O ex-PM Fabrício Queiroz, com remuneração mensal de pouco mais de R$ 20 mil, movimentou em um ano R$ 1,2 milhão. Fez depósitos até na conta de Michelle, a próxima primeira-dama.

A Operação Furna da Onça envolve outros deputados da Assembleia do Rio, e alimenta muitas especulações sobre o próprio Jair Bolsonaro. O futuro presidente deu até uma explicação plausível para justificar o depósito de R$ 24 mil na conta da esposa. Trata-se do ressarcimento parcial de um empréstimo feito a Queiroz.

Quem vai ter que explicar o jabuti em cima da árvore é o filho Flávio Bolsonaro, além do próprio Queiroz, que evaporou. Ao que tudo indica trata-se do velho e reprovável esquema praticado no baixo clero, em assembleias estaduais e mesmo no Congresso: funcionários são admitidos nos gabinetes com salários que jamais receberiam na iniciativa privada, contanto que devolvam parte do dinheiro.

Tudo na confiança, daí a necessidade de os envolvidos serem pessoas próximas. No caso, mulher e filhas de Queiroz, além de algumas outras pessoas. Os depósitos eram feitos na conta de Queiroz logo quando os funcionários de gabinete recebiam os salários.

Jair Bolsonaro assume em pouco mais de duas semanas a presidência da República, com esse problema grave na cabeça. Se as evidências aumentarem - essa é a tendência -, provavelmente terá que se fortalecer no exemplo bíblico de Abraão, que não titubeou em atender à vontade divina de expor o filho Isaac ao sacrifício, para salvar sua crença. "Brasil acima de tudo. Deus acima de todos" - foi o brado adotado por Bolsonaro em sua campanha, inspirada no bordão da Brigada de Infantaria do Exército. O país precisa muito que seu governo dê certo. As finanças públicas em todos os níveis do Estado brasileiro rumam para o colapso. Cabem a Bolsonaro e ao seu governo encaminharem ao Congresso as reformas necessárias na legislação.

Ele terá que ter capital político e credibilidade para levar avante a tarefa. Daí ser imperioso não haver qualquer suspeita que o diminua politicamente, o que não aconteceu até agora. Tudo vai depender do total esclarecimento do ocorrido no gabinete do filho Flávio Bolsonaro. O senador eleito terá que se explicar. E convencer.

Bolsonaro diz que ele e o filho pagarão "a conta", se houver algo errado.

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