Quando queremos demonstrar amor e emoções desenhamos, enviamos caixas de presentes ou até fazemos o formato do coração com as mãos. Um sincericida dirá que o símbolo do coração está completamente equivocado. No coração não se tem sentimentos e nem tem como guardá-los.
As fibras musculares cardíacas bombeiam o sangue que chega e o envia oxigenado para os tecidos e células usufruírem do que leva de bom, como os nutrientes. Depois, as vênulas recolhem os líquidos dos tecidos cheios de gás carbônico e restos do metabolismo, levando-os para o coração bombeá-los para o pulmão e o fígado, ou ainda filtrar as impurezas nos rins!
Se chegou a pensar que os sentimentos e emoções ficassem no coração, inclusive a memória. Se dizia que pessoa sabe "de cor" ou decorado. O coração não se remodela, não tem capacidade de renovação, suas células não se multiplicam. Quando as fibras cardíacas morrem, as células vizinhas invadem o local e produzem fibras colágenas numa cicatriz para o resto da vida.
O cérebro tem quase todas as funções, pois comandam direta ou indiretamente tudo no corpo. Muitas vezes escondemos o cérebro atrás de palavras como mente e memória, mas quando falamos de sentimentos, bondade e amor, cometemos uma injustiça com o cérebro e relacionamos isto com o coração. Tipo: - aquela pessoa tem coração bondoso. Não é verdade: ela tem o cérebro bondoso! Ou tem o coração ruim; não, é o cérebro dela que é ruim!
No lugar do coração para expressar sentimentos, poderíamos usar o cérebro! Diríamos: ah, meu filho, você tem o cérebro bom, compreensivo! Você deve saber perdoar com o cérebro!
As vezes se bate no coração, lado esquerdo do peito, a dizer que você está dentro da pessoa como nas comemorações esportivas! Que nada, deveríamos indicar a cabeça onde fica o cérebro, a memória e sentimentos.
Nem simbolicamente seria interessante o uso do coração, pois ele não se renova e se machucado ou magoado, fica assim o resto da vida! Quem é assim também são os dentes: machucou, fraturou e cariou, nunca mais voltam a ser como antes, ficarão eternamente magoados. O cérebro que comanda tudo também não seria um bom símbolo, pois ele também não se renova. Suas células, como as do coração, são permanentes. Se lesar o cérebro, também ficam as cicatrizes para sempre!
A MODA
Eu ficava encabulado com a moda de usar caveiras, ossos e esqueletos em camisetas, adesivos, tênis e apetrechos. Nos centros de compra, cinemas e praias virou moda usar ossos e caveiras. Nem sei se foi por esta razão, mas o osso sim representa um símbolo interessante de como deveríamos ser quanto a sentimentos e memória, para vivermos bem!
No lugar de corações deveríamos colocar desenhos de ossos, caveira e esqueletos. Mas por que o osso? Ele não tem memória e nem guarda sentimentos, mas tem características que deveríamos tatuar em nossa mente. O osso dá o sangue! Como deveríamos dar o sangue nas coisas que acreditamos ou precisamos. Sim, dentro do osso e como parte dele, temos a medula óssea que fornece os componentes do sangue para a vida! Sem contar que a medula óssea fornece as células imunológicas e inflamatórias que nos preservam dos ataques e mantem nossa individualidade!
E especialmente: o osso é um tecido que se renova a todo instante no mecanismo chamado de remodelação ou turnover ósseo. Uma pessoa de 30 anos já teve 3 a 5 esqueletos completos e, uma de 70, até dez esqueletos já passaram por ela. Sim a cada 5 a7 anos aproximadamente, o esqueleto se renova por completo, apagando mágoas, eliminando cicatrizes e tocando em frente! Fraturas, formas, cirurgias se apagam a cada remodelação.
O símbolo do amor deve ser um osso e não um coração. Pode-se dizer que o osso não guarda mágoas, nem rancores! Está sempre se adaptando a situações novas. O osso se remodela para atender as demandas funcionais de cada fase, de cada ano, de cada situação. Pode se dizer que tem resiliência emocional, inteligência afetiva e uma enorme capacidade adaptativa! Se você se exercitar e se alimentar adequadamente, o osso não envelhece, quem envelhece é seu cérebro e o coração, pois carregam as mágoas e tristezas da vida!
Xô, sai pra lá, quero ser osso, quero ser feliz!
Aliás, Feliz Natal!
Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.