Meu dois filhos sabem nadar. Eu não sei. Isso cria duas categorias familiares: a de quem vai a uma festa com piscina na maior tranquilidade - e a de quem já chega tenso com receio de ser atirado nela. Na verdade, essa tensão já superei há tempos, mas sigo sem qualquer domínio das braçadas.
Como eu dizia, houve um tempo bem mais difícil. Ainda criança, e lembro de cada segundo, afundei bonito na piscina de um clube. É um silêncio lá embaixo! E um escândalo quando a gente emerge. Um tanto traumatizante.
Por um erro de prioridades, que até hoje persiste, não tomei o episódio como incentivo para aprender a nadar - e não aprendi. Anos mais tarde, em uma festa à noite, o dono da empresa onde eu trabalhava se jogou na água comigo grudado a ele pelo braço. De novo, ao fundo. Cheguei a pensar: "Será que esse louco não vai subir e respirar?". Demorou um pouco. Mas fez o certo e estamos vivos até hoje. Podia ter tomado mais esse episódio como incentivo para aprender a nadar, mas... nada.
Teve um Ano-Novo que eu fui (acreditem) propositalmente parar em outra casa (sem piscina) para evitar aquela onde estavam os parentes (com piscina). Esperei a poeira baixar após os fogos e apareci - seco e salvo. Àquela altura da madrugada, já estavam todos com nível reduzido de entusiasmo e a piscina devidamente desocupada.
Agora, esse calorão. Moro numa casa boa, mas construída pelo primeiro morador de forma a ter um corredor à esquerda e outra à direita. A casa no meio. Não sobrou espaço para... piscina. Bem que, com o verão escaldante, seria uma boa. E seria o incentivo que falta para virar aluno aspirante de peixe.
Mas... nos meus delírios, fico imaginando só eu de adulto na água, com as duas mãos coladas na beirada da piscina, e aquela touca de natação na cabeça deixando o óculos meio torto na cara, com aquele monte de criança rindo de mim da arquibancada. E meus filhos no embalo: "Aquele lá tremendo de medo é nosso pai. Hahahahaha".
Na vida real, eu e a piscina estamos nos dando bem. Respeitosa relação. Entro (mas ainda não gosto de ser atirado). Ando (sem iniciar o nado). Aproveitando a deixa - do verão e das promessas de fim de ano - espero aqui voltar em dezembro de 2019 com a novidade: aprendi a nadar. E o melhor: nem morri (de vergonha).
O autor é editor executivo do JC.