Tribuna do Leitor

A teologia do amor

João Álvares
| Tempo de leitura: 2 min

Há fatos que não podem ser negados. Há realidades incontornáveis que insistem, persistem, mesmo quando escondemos a cabeça para não percebê-las...

Somos todos inseguros, carentes e limitados. Anjos de uma só asa, necessitados de ajuda, de complementação. Nenhuma aeronave levanta voo sem o auxílio das turbinas.

Uma planta tenra, frágil, precisa de estaca, de apoio. A insegurança humana grita por socorro, agarra-se na primeira bengala protetora que aparece. Por força das nossas carências, lacunas e incompletudes, somos uma eterna busca de afirmação existencial...

Do berço à sepultura... Por meio de palavras, gestos e atitudes, de sonhos e fantasias, pelejamos dia e noite para nos impor, nos afirmar, nas buscas de um confortável lugar ao sol. A criança precisa do colo, do aconchego dos pais para sentir-se forte, amparada, protegida de qualquer ameaça ou agressão. Os pais, por sua vez, afirmam-se e se realizam nos filhos e pelos filhos. O apelo de imortalidade, de perpetuação atua poderosamente no mistério comovente da paternidade, da maternidade... A sociologia constata que as famílias pobres, sem as regalias da classe média ou rica, costumam ter prole mais numerosa. No ato de procriar e nas certidões de nascimento escondem-se compensações compulsivas.

Deixar rastro, pegadas no pergaminho das gerações gratifica, realiza, massageia o "eu", sedento de reconhecimento e aplausos. Políticos e homens públicos amam monumentos em sua homenagem. Os jovens rabiscam seu nome em mesas de bar, bancos escolares, paredes de banheiro, troncos de árvore. Tudo isso e muito mais é devido à ilusão humana de imortalidade, de afirmação. E de vaidade...

Vaidoso ao extremo com sua obra literária, o velho poeta latino Ovídio gritou em verso: "Não morrerei de todo. Viverei para sempre nos livros que escrevi". Santo Tomás de Aquino, uma das Inteligências mais brilhantes de todos os tempos, vibrava de júbilo e entusiasmo com cada novo volume teológico que publicava. Mas, já no final de sua existência, assinou a sabedoria e Salomão com palavras próprias: "Vaidade das vaidades. Á luz da pátria eterna, tudo o que escrevi é lixo... O que vale é a humildade, a teologia do Amor"...

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