Mais um vez o 'Sistema S' entra na mira do governo. Das primeiras vezes foi com o objetivo de apropriação de seus recursos. Agora é para reduzir o custo para as empresas contribuintes, com duas possíveis consequências desastrosas para o sistema: corte excessivo nas alíquotas ou extinção da obrigatoriedade. A obrigatoriedade foi criada por proposta da própria classe patronal. Se fosse facultativa essas instituições nunca teriam existido.
Tornar a contribuição facultativa é passar o seu atestado de óbito. A única saída é uma negociação de boa vontade, como ocorreu há 76 anos, quando de sua fundação, em 1942. O próprio futuro superministro Paulo Guedes disse: "Se tivermos interlocutores inteligentes, preparados, que quiserem contribuir, a gente corta 30%. Senão tiver, é 50%".
A origem do 'Sistema S' é o Senai, criado em 22 de janeiro de 1942. Os outros começaram quatro anos depois: Sesi, Senac e Sésc na Convenção de Petrópolis, em 1946. O Comendador José da Silva Martha participou dessa convenção e vivia repetindo ser um de seus fundadores. O Sebrae começou em 1972, por iniciativa do governo, como "Centro Brasileiro de
Apoio à Pequena e Média Empresa". Em 1990 passou a integrar o 'Sistema S'. Em 1991, o Senar (agricultura); em 1993, Senat e Sest (transporte) e em 1999, o Sescoop, ligado às cooperativas. Desde os primeiros tempos o Senai vem servindo de modelo não só aqui no Brasil como no mundo. Ajudou a implantação de sistemas iguais em quase todos os países da América Latina e em vários outros países.
A sugestão do futuro ministro faz relembrar o início do Senai. As circunstâncias atuais guardam alguma semelhança com as daquela época: lá, como agora, o governo tinha a propensão de decidir de forma impositiva. Em 1939 o governo ditatorial de Getulio Vargas baixou o Decreto-lei nº 1.238 obrigando os estabelecimentos onde trabalhassem mais de 500 empregados a montarem cursos profissionalizantes. Entre as boas cabeças do empresariado brasileiro estavam Roberto Simonsen, na Fiesp e Euvaldo Lodi, na CNI, que assumiram a responsabilidade de interlocutores com o governo, não para reclamar do encargo criado, mas para propor uma solução para o Brasil.
Como a indústria já possuía uma experiência de 20 anos com formação profissional racional de operários ferroviários, seria melhor aproveitar essa experiência e criar uma instituição em que todas as empresas participassem, independente de seu tamanho.
A indústria assumiria toda a responsabilidade pelo financiamento, organização e administração da nova entidade. E assim surgiu o Senai pelo Decreto-lei nº 4.048, de 22-01-1942. A contribuição inicial para as empresas era de 2 mil réis por empregado, por mês.
O perigo nessa discussão é que muitos dão palpite sem conhecer essas instituições. Ouvimos um economista dizer que era preciso comparar o custo com as escolas técnicas federais. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1971, ao unificar os cursos de nível médio acabou com a rede de escolas técnicas federais. O sistema brasileiro de formação profissional de trabalhadores industriais é o Senai. É ele que, de dois em dois anos representa o Brasil no Torneio Internacional de Educação Profissional - WordSkills.
Em 2017 participaram 68 países, com 1.200 competidores, sendo 68 do Senai, em 52 ocupações técnicas. Os nossos representantes tem competido em igualdade de condições com os melhores do mundo, como profissionais classe universal, e se saído muito bem, inclusive os alunos de Bauru. Um deles foi campeão do mundo e está em Abu Dabi como treinador.
O portal do Senai diz que as ações de qualificação profissional desde 1942 formaram 73,7 milhões de trabalhadores em todo o território nacional, Foi esse resultado que tornou possível a implantação da indústria automobilística, a partir da década de 1960, e a projeção da indústria nacional até que viesse a crise causada pelo desastre do governo lulopetista.
O Senai começou com cursos de treinamento, emergenciais, ainda no período da 2ª Guerra, e com cursos de aprendizagem industrial, para menores. Hoje são centenas de cursos nos três níveis: aprendizagem, técnico e tecnológico (superior), realizados em suas 541 unidades fixas e 452 unidades móveis em 1,6 mil municípios brasileiros.
Nem governo ou outra organização tem capacidade para fazer o que o Senai faz, graças à sua fonte própria de financiamento e à natureza inovadora de sua administração, desde a sua origem. As exigências de investimento em construções adequadas e equipamentos avançados, em dia com a evolução tecnológica, e a preparação de seus professores e instrutores, em centros tecnológicos próprios, são a garantia de que o Brasil enfrentará a Revolução Industrial 4.0, da Inteligência Artificial, em pé de igualdade com as nações mais adiantadas. Essa é uma missão impossível de ser executada pelo governo, cujo papel principal será a boa educação básica.
Essa condição torna o Senai imexível, o que não impede que possa colaborar com o esforço do governo, como já fez em outras ocasiões, juntamente com seus parceiros do 'Sistema S', para o bem do Brasil. Que surjam os substitutos de Roberto Simonsen e Euvaldo Lodi, como interlocutores inteligentes para que o corte seja mais superficial que profundo.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e ex-professor do Senai.